MATA ATLÂNTICA OU DESERTO
Acho que ninguém, em sã consciência, é a favor de vetar qualquer coisa em se tratando de cultura. Esta tem e deve ser sempre livre pra voar à vontade e descobrir caminhos inimagináveis: migrar para lugares inusitados e ainda, se possível, encontrar-se e/ou fundir-se a outras tantas culturas de formas aparentemente impensáveis, mas que resultam em sonoridades e casamentos fantásticos.
Quando falamos dos festejos juninos e da atual discussão sobre a mudança do protagonismo dos ritmos nas atuais festas, nunca foi com o intuito de fazer reserva de mercado, mas sim para preservar uma cultura tradicionalíssima que se não cuidarmos, simplesmente acaba.
É tão bom conhecer as diferentes culturas e encontrar ali aquilo que se perpetua no tempo, criando tradições deliciosas, que muitas vezes se confundem com as próprias histórias do lugares e nos ajuda a conhecer melhor o seu povo.
Que bom poder achar o samba-reggae ou o Axé no carnaval baiano. É ótimo dar de cara com os Bois em São Luiz durante as festas de São Pedro. Que delicia deparar-se com o samba no carnaval carioca. É sempre uma alegria ter frevo e maracatu como trilhas sonoras dos festejos de momo em Olinda. Imagino ser arrepiante ver as duplas sertanejas explodindo suas vozes nas festas como as de Barretos e é maravilhoso, indescritível, sensacional ter os arrasta-pés com melodia determinante em festejos juninos. Que digam as quadrilhas....
A manutenção da culturas, assim como o modo como elas foram forjadas e se firmaram durante anos é fundamental. Não é possível que sempre o lado monetário vá ganhar, mesmo por que o dinheiro vai para as bandas e os políticos, uma vez que, a longo prazo, essas festas tendem a perder força pela falta de autenticidade, pois quando a moda atual passar, essas bandas sumirão.
É claro que novas modas virão, mas as festas, elas mesmas, já terão perdido o sentido. O Brasil e sua maravilhosa produção musical, tema constante neste espaço, perde muito em não se valorizar. A produção cultural deste país é invejável, assim como é invejável a diversidade e a qualidade do que se produz. O Brasil tem, ao longo da vasta extensão do seu território, uma profusão de festas e manifestações culturais, com características muito especificas, cada uma fruto das influências que cada região recebeu e moldadas pelos povos que ali vivem desde que esta jovem nação se formou. Quando se resolve transformar tudo no mesmo, deixamos essa diversidade de lado e tudo se perde. O que era uma floresta de mata atlântica cheia de espécies, passa a ser um deserto povoado apenas de cactos.
Valorizar cada uma dessas unidades independentes de cultura, deixando que cada uma, com as características e charmes específicos e inerentes a cada uma delas, se perpetue, é um modo de fazer deste país o que sempre foi, uma paleta de aquarela riquíssima, carismática e sempre muito atraente.
Nossos ídolos da MPB são frutos de suas experiências afetivas nas culturas de suas respectivas regiões: Alceu Valença com as coisas de Olinda na sua Pernambuco; Zeca Baleiro, oriundo do Maranhão teve seus conhecimentos sonoros do seu estado. Chico Cesar, de Catolé do Rocha, na Paraíba, deixa claro o enriquecimento cultural proveniente de sua terra natal. Jorge Benjor, carioca nato, tem suas características ligadas as terras fluminenses e por aí vai; se algum dos ritmos tradicionais deixasse de existir, perderíamos obras como as de Alceus, Zecas, Chicos e Jorges...teríamos, provavelmente, mais uma série interminável de duplas sertanejas e só.
Torcemos muito para que eles sempre existam e que tenham, nos palcos das festas tradicionais deles, o espaço ilimitado para demonstrar seus talentos. Mas torço muito mais ainda para que o povo entenda, e sobretudo aprecie, independente da força do dinheiro que conduz quase coercitivamente as atenções da pessoas para um único ritmo, as músicas tradicionais de cada uma das festas, pois dançar quadrilha ao som de dupla sertaneja é o fim de uma cultura!.
Paulinho Rosa  (Jun/2017)