Genial Ariano
Após ler o genial artigo do não menos genial Ariano Suassuna*, lembrei-me de uma conversa que tive com um importante diretor musical de uma famosa rádio daqui de São Paulo, que tem abrangência quase nacional e se dedica quase que exclusivamente à música popular brasileira. Ele me contava, na época, sobre os meandros das escolhas que tinha que fazer. Em determinado momento questionei sobre o porquê de não incluir o forró na programação da rádio, já que é um importante elemento da nossa cultura, com público relativamente grande e variado, salientando que, caso não gostasse ou não achasse palatável os tradicionais como Genival Lacerda e Trio Nordestino, que ele poderia, ao menos, optar por Gilberto Gil, Alceu Valença. Elba Ramalho, Dominguinhos entre outros.
A resposta foi rápida, cortante, desoladora e causou-me uma certa indignação: "Nem forró e nem samba, pois tenho que pagar as contas no final do mês".
Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?
Forró e samba não pagam as contas porque não tocam ou não tocam porque não pagam as contas?
Quero acreditar que ele foi modesto com relação ao seu veículo de comunicação, pois se uma importante radio "martelar" Luiz Gonzaga em sua programação em vez de, por exemplo "Se Eu Te Pego" tenho certeza que será o Rei do Baião e não o simpático Michel Teló que estourará no país.
Os empresários dos meios de comunicação ou são ingênuos ou se fazem de, pois subestimar a força que têm nas mãos é, no mínimo, nos chamar de tolos.
O Brasil sofre de um mal terrível que é o do dinheiro a qualquer custo e, nisso, entra a idiotização cultural do nosso povo.
Outro dia, o Encontro com Fátima Bernardes, programa da Rede Globo, veio fazer uma matéria sobre forró no Canto da Ema. Em meio às entrevistas, conversei com a produtora sobre a possibilidade de convidar o trio que tocava na casa para ir fazer o programa, a fim de ilustrar o que ela queria, que era falar da Tribo do Forró. Ela me falou que seria impossível, pois o Mastruz com Leite já havia sido convidado.
Com todo o respeito ao Mastruz Com Leite, que até tocou um bom forró no programa, o problema é que ele em nada ilustra a tribo de forró, pelo menos não aqui no sudeste.
Normalmente, aos domingos, estou no Canto da Ema e raramente vejo o Faustão, mas vez por outra acabo assistindo a alguma propaganda e vejo nomes que lá vão tocar dos quais nunca ouvi falar e que, de certa forma, me dão tristeza, pois, já nas propagandas, o tipo de música e letra já assustam, isso porque é um pedaço bem pequeno; já imagino como é a música toda.
Outro dia fiquei pensando: será que a Fátima quando está com seu marido Bonner e seus trigêmeos, no aconchego do lar ,colocam Mastruz Com Leite para embalar a vida deles? Será que o Faustão acorda ao som de sei la quem? Será que o Boni e a família "Marinho" ouvem o que nos fazem ouvir quando estão em suas casas?
Quer dizer que Paulinho da Viola, Chico Buarque, Dominguinhos, Elba Ramalho não pagam a conta, mas, e a conta da cultura do nosso povo, quem paga?
Às vezes, vejo-me como meus pais e avós reclamando dos tempos atuais e lembrando o quanto era bom anos atrás! Estarei virando conservador ou as coisas estão realmente tomando um caminho perigoso?
Pois, se antes eles reclamavam dos músicos da tropicália e da jovem guarda, com cabelos cumpridos e guitarras elétricas, eu hoje reclamo das letras tolas, com frases apelativas e nada poéticas, além de ritmos repetitivos, não na música, mas no contexto geral do que apresentam.
A diferença era que, enquanto lá havia um movimento decolando, uma mudança de costumes produzida pela vontade de liberdade, pela vanguarda cultural, pela necessidade de ideologias novas pra romper com a mesmice da época, e uma certa indignação política, hoje o movimento é dinheiro, lucro e ganância. Por isso, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Roberto Carlos etc estão aqui até hoje, ao contrário das bandas que fazem sucesso com apenas uma música e depois somem. Alguém se lembra de quem cantava o "Bonde do tigrão",mega sucesso de alguns anos atrás?
Sem querer acirrar pré-conceito, existe uma clara diferença entre o apelo sexual e a heterodoxia com relação a ritmos, na época da Jovem Guarda: a briga era ideológica, hoje é monetária e, como as rádios estão preocupadas apenas com $ e não com as ideologias ou a cultura, quem vai ao ar são os que produzem $, se possível fácil e passageiro para que possa vir o próximo.
Por isso, fiquei desolado com os recentes contatos de mídia que temos feito. Infelizmente, temos pouco dinheiro para tentar entrar nas mídias e isso é um moto-continuo, uma coisa leva a outra e a gente não sai do lugar.
Que bom que existem pessoas que, sei lá como, conhecem o ritmo, que bom que agora existem as mídias sociais que são independentes da mídia tradicional para que possamos veicular alguns produtos diferentes. Quem sabe isso vira ainda uma revolução?
Quem sabe não apenas na cultura, mas que elas possibilitem a virada de mesa na política, na educação, na cultura etc , coisas de que este país tanto precisa!

*texto de Ariano Suassuna:
Ariano Suassuna falando do forró atual...
"Tem rapariga aí? Se tem, levante a mão!'. A maioria, as moças, levanta a mão. Diante de uma plateia de milhares de pessoas, quase todas muito jovens, pelo menos um terço de adolescentes, o vocalista da banda, que se diz de forró, utiliza uma de suas palavras prediletas (dele só não, e todas bandas do gênero). As outras são 'gaia', 'cabaré', e bebida em geral, com ênfase na cachaça. Esta cena aconteceu no ano passado, numa das cidades de destaque do agreste (mas se repete em qualquer uma onde estas bandas se apresentam). Nos anos 70, e provavelmente ainda nos anos 80, o vocalista teria dificuldades em deixar a cidade.
Pra uma matéria que escrevi no São João passado baixei algumas músicas bem representativas destas bandas. Não vou nem citar letras, porque este jornal é visto por leitores virtuais de família. Mas me arrisco a dizer alguns títulos, vamos lá: Calcinha no chão (Caviar com Rapadura), Zé Priquito (Duquinha), Fiel à putaria (Felipão Forró Moral), Chefe do puteiro (Aviões do forró), Mulher roleira (Saia Rodada), Mulher roleira a resposta (Forró Real), Chico Rola (Bonde do Forró), Banho de língua (Solteirões do Forró), Vou dá-lhe de cano de ferro (Forró Chacal), Dinheiro na mão, calcinha no chão (Saia Rodada), Sou viciado em putaria (Ferro na Boneca), Abre as pernas e dê uma sentadinha (Gaviões do forró), Tapa na cara, puxão no cabelo (Swing do forró). Esta é uma pequeníssima lista do repertório das bandas.
Porém o culpado desta 'desculhambação' não é culpa exatamente das bandas, ou dos empresários que as financiam, já que na grande parte delas, cantores, músicos e bailarinos são meros empregados do cara que investe no grupo. O buraco é mais embaixo. E aí faço um paralelo com o turbo folk, um subgênero musical que surgiu na antiga Iugoslávia, quando o país estava esfacelando- se. Dilacerado por guerras étnicas, em pleno governo do tresloucado Slobodan Milosevic surgiu o turbo folk, mistura de pop, com música regional sérvia e oriental. As estrelas da turbo folk vestiam-se como se vestem as vocalistas das bandas de 'forró', parafraseando Luiz Gonzaga, as blusas terminavam muito cedo, as saias e shortes começavam muito tarde. Numa entrevista ao jornal inglês The Guardian, o diretor do Centro de Estudos alternativos de Belgrado. Milan Nikolic, afirmou, em 2003, que o regime Milosevic incentivou uma música que destruiu o bom-gosto e relevou o primitivismo esté tico. Pior, o glamour, a facilidade estética, pegou em cheio uma juventude que perdeu a crença nos políticos, nos valores morais de uma sociedade dominada pela máfia, que, por sua vez, dominava o governo.
Aqui o que se autodenomina 'forró estilizado' continua de vento em popa. Tomou o lugar do forró autêntico nos principais arraiais juninos do Nordeste. Sem falso moralismo, nem elitismo, um fenômeno lamentável, e merecedor de maior atenção. Quando um vocalista de uma banda de música popular, em plena praça pública, de uma grande cidade, com presença de autoridades competentes (e suas respectivas patroas) pergunta se tem 'rapariga na plateia', alguma coisa está fora de ordem. Quando canta uma canção (canção?!!!) que tem como tema uma transa de uma moça com dois rapazes (ao mesmo tempo), e o refrão é 'É vou dá-lhe de cano de ferro/e toma cano de ferro!', alguma coisa está muito doente. Sem esquecer que uma juventude cuja cabeça é feita por tal tipo de música é a que vai tomar as rédeas do poder daqui a alguns poucos anos."
Paulinho Rosa  (Jul/2013)