O Fim do KVA
Ao contrário do que muita gente deve pensar, não estamos contentes com o fim do KVA.
Isso não é bom para o Canto da Ema, nem para nenhum concorrente, nem para as bandas, nem para o público (principalmente para o menor de idade) e muito menos para o forró.
Concorrência é bom e, se for feita dentro de respeito ético, pode ser muito melhor do que ser o único na categoria.
O KVA teve uma história bonita dentro do ritmo. No início, ajudou a solidificar um processo que havia se iniciado em outras casas de Pinheiros. Foi de fundamental importância por ser a única a ter alvará para menores de idade. Foi essa casa que formou uma imensa geração de forrozeiros que não podiam entrar em outras casas devido a idade.
Além da farta programação de forró, o KVA contava também com um espaço - o salão "KVA" (aquele de chão quadriculado) -, no qual aconteceram fantásticos shows de Lenine, Chico César, Paulinho Mosca entre outros.
A direção da casa, na época, era de primeira,conseguiu aliar uma excelente programação comercial, com várias outras atividades direcionadas a jovens, sendo mais do que uma casa de "balada", um espaço cultural e, sobretudo, de formação cultural para tantos e tantos jovens. Para quem não sabe, junto ao KVA funcionava o Centro Cultural Elenko, uma ONG voltada para a cultura e a juventude. Durante toda uma época, promoveram festas na rua e, nelas, muita gente se reunia, constituindo algo parecido com as feiras de arte que circulam pela cidade.
Hoje, muitas pessoas que freqüentam o Canto da Ema, vieram dessa "formação" da qual foram responsáveis os fundadores e diretores do KVA.
Temos a tendência a "santificar" tudo que acaba ou morre. Convém, portanto, mencionar alguns pecados do KVA: não sei determinar a data exata, mas, em algum momento, o "Arrumadinho" que eu havia criado quando ainda trabalhava no Remelexo, perdeu seu espaço ali, e fomos convidados para levar o projeto para o KVA. Lá, toquei( junto com meu sócio na época) o projeto durante cerca de dois anos, misturando gerações, conhecendo músicos que estavam escondidos pelos becos desta cidade-país, mesclando estilos, cruzando origens, formas e tendências diferentes de tocar forró. No fim, foi uma grande decepção. Puseram-nos para fora, mas ficaram com o nosso projeto, que passou a ser apresentado sob o nome "KVA convida".

Mas o KVA foi muito maior que isso. A importância da casa deve ser reconhecida e as pessoas que ali conheceram o forró, pela primeira vez, agradecem.Tato, que talvez seja a pessoa que mais divulgou o forró nesse país nestes últimos anos, começou lá, como DJ. Várias bandas tiveram, ali, as primeiras oportunidades, assim como aconteceu com O Bando e Maria, Arleno Farias e o Triângulo Caraíva no Canto da Ema.
Ultimamente a casa parecia ter perdido o foco. Hesitava entre casa de espetáculos, casa de baladas diversas e o forró.
A degradação da Rua Cardeal Arcoverde, aliada a um certo descaso geral com a segurança, acabou criando, para a casa, uma fama injusta.
A dúvida levou ao fim.
Hoje, nenhuma casa pode abrigar menores de idade. Os músicos perderam mais um espaço para tocar e nós, forrozeiros que vimos tantas casas abrirem na época que o Falamansa explodiu estamos cada vez mais reduzidos a poucos espaços.
A melhor época, a que tivemos mais gente no Canto da Ema foi quando tínhamos o maior numero de concorrentes.
Por tudo isso acho que devemos tomar cuidado quando decidimos brigar e discutir uns com os outros.
A história política nos mostra que os grandes perdedores foram aqueles que se dividiram e se separaram.
Tomara que o KVA volte, assim como seria bom se outras casas aparecessem e tomara que todos fiquem cheios. Só assim teremos mais forrozeiros, mais músicos, mais bandas e trios aparecendo.
Paulinho Rosa  (Set/2005)