Uma Semente Plantada
A morte de Coroné comoveu a todos os que lidam e gostam de forró. O zabumbeiro do mais famoso e bem sucedido trio de forró foi referência para todos os zabumbeiros que vieram a seguir. Não bastasse esse dado, Coroné era também uma pessoa especial. Sempre alegre, animado, simpático no palco e fora dele. Era, sobretudo, um grande amante de forró, ritmo que tocou por mais de 40 anos.
Além da tristeza, a sua morte deixou-nos um grande receio: estará o forró se renovando? Estaremos perdendo os nossos ídolos? Estarão aparecendo novos? Gonzaga já se foi, Jackson também, João do Vale, Ary Lobo, Jacinto Silva, Abdias, Pedro Sertanejo, Zé Gonzaga, Lindu, Cobrinha e, agora, Coroné. Dos precursores do ritmo, poucos ainda estão vivos. Tá bom que Dominguinhos, Marinês, Parafuso, João Silva, Genival Lacerda e tantos outros ainda vão viver mais uns 50 anos cada, mas desde já é preciso descobrir as novas revelações.
Não falo em esquecer aqueles que desencarnaram, até porque a obra deles é vasta e boa demais: serão sempre inspiração e base para os que querem criar e inovar dentro da música brasileira, até mesmo no forró. Não é atôa que mais de 60% da discotecagem do Canto da Ema é composta por músicas desses forrozeiros. Mas é preciso começar a pensar nos novos valores, nos novos músicos que, sem dúvida, darão continuidade ao forró para que ele se mantenha sempre vivo.
Afinal, é tal qual o futebol. Tivemos Leônidas, Zizinho, Pelé, Zico, Romário, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e já estão vindo aí Robinho, Kaká Anderson etc. Já pensou se tivéssemos parado e ficado idolatrando apenas Leônidas e Pelé?
Na música e no forró é assim também.
O próprio Coroné também não parou; após a perda de Lindu colocou Genário. Depois Cobrinha se foi e vieram Luiz Mario e Beto, e o Trio Nordestino manteve sua música e alegria. A vida continua, tem sido assim (que bom né?) e vai ser sempre. Por isso, não adianta muito saudosismo e achar que tudo que é novo é ruim. Não é, mas também não é bom. No passado, assim como agora, tinha gente boa e ruim, excelentes músicos e também péssimos.
É bom lembrar que muita coisa mudou desde a gravação de Vira e Mexe, a primeira feita por Gonzaga. Os estúdios melhoraram, os técnicos, os microfones, os equipamentos em geral também. Os arranjos se modernizaram, a sanfona ganhou uma melhor captação, a zabumba, novos materiais e houve mudanças nas técnicas de canto. As letras ganharam novos temas. Apareceram os instrumentos elétricos e os ritmos se misturaram. A sonoridade mudou por completo; por isso, dificilmente teremos o mesmo som que antes tínhamos. Basta ouvir Gonzaga no início da carreira e no final. Mesmo o Trio Nordestino de Coroné, era completamente diferente do que o que escutamos hoje. Tudo já era baião, forró, xote, arrastapé; no entanto, eram completamente diferentes.
Podemos, se quisermos, ficar só chorando as "águas passadas", viver de lembrança. Tá cheio de gente amarga, triste, reclamona e infeliz que é assim. Tem gente também que considera tudo que era passado como velharia, só dando valor ao que é moderno. Moderno? Dificilmente algo é criado sem uma evolução de algo que passou. Não fosse Gonzaga, Elba provavelmente não seria quem é, nem Dominguinhos, nem Chico Science, nem Lenine. Aliás, existe alguém mais moderno atualmente do que o saudoso Jackson do Pandeiro?
Nesse sentido, Coroné foi um grande exemplo: reverenciava Gonzaga em todos os shows e, ao mesmo tempo, gravou com Falamansa, Forróçacana e Rastapé.Teve sempre Dominguinhos nas gravações dos discos do Trio Nordestino. Ele sabia da importância da história do forró para que as novas gerações pudessem se espelhar, mas sabia também que o seu amado forró só prosseguiria com os novos valores.
Sou muito otimista quanto ao que vem aparecendo. Apesar de fã confesso de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, João do Vale, Marinês, Trio Nordestino, Três do Nordeste, Dominguinhos, Jacinto Silva e tantos outros, vejo muita gente boa por aí. O que dizer dos já citados Falamansa, Rastapé, e Forroçacana? Ou ainda O Bando de Maria, Bicho de Pé e Miltinho Edilberto, Trio Potiguá, Trio Balanço Bom, Os 4 Mensageiros. Sem falar em Silvério Pessoa que, para mim, é uma das maiores revelações musicais do país. Quem já viu o Clayton do Trio Araripe tocando? Tem muita gente boa aparecendo. Vocês mesmos devem ter seus preferidos e não são poucos.
Graças ao estouro do forró na virada do século, muita gente trocou o rock de garagem pela linguagem nordestina do baião. Isso fez com que esse ritmo, tão importante na nossa cultura, mostrasse um futuro tão promissor.
Obrigado por tudo Coroné! Por sua estória, pelo seu caráter, pela alegria que a todos contagiava! E fique sossegado, sua semente foi muito bem plantada!
Paulinho Rosa  (Mai/2005)