O Mundo do Forró
Claro que os forrozeiros, aqueles que vivenciam a tribo do forró, sabem onde tem e o que acontece no ritmo. Mas será que sabem dos meandros, das entranhas e do que realmente acontece nos bastidores?
A maioria acha que sim, mas como em toda e qualquer atividade que envolve paixão, dinheiro (nesse caso, nem é muito) e principalmente jovens com hormônios exacerbados, os boatos são constantes e, pior que isso, a falta de ética costuma imperar.
O mundo forró hoje se divide em algumas partes: a mídia, que dá pouquíssima atenção aos eventos, salvo fora de São Paulo, onde estes são em menor quantidade, sobrando, portanto, espaço para o ritmo criado por Gonzaga. Em São Paulo, existe o "Vira e Mexe", que eu produzo e apresento e, vez por outra, algum programa que as bandas cavam, mas, geralmente, em redes menos importantes. A exceção fica por conta da Falamansa, que ainda tem espaço Global.
Outra parte importante são as casas de forró, que são bem poucas. Oficialmente, tem o Canto da Ema e o Remelexo. No mais, são casas fugazes ou, no máximo, espaços ou bares que abrem as portas para um ou mais dias de forró.
Temos bem poucos espaços como podem ver, as duas casas se digladiam pelas mesmas atrações e por boa parcela de público igual, embora existam os aficionados por uma ou outra.
Dos bares que têm seus dias dedicados ao gênero, o destaque vai para a zona norte, com a disputa do Limoeiro e a Vila do Baião; em ambos os casos o forró começa a conquistar adeptos novos em bairros com menos tradição no ritmo, o que é muito bom.
Existem também as festas, sejam elas esporádicas, em noites que tocam forró em casas alugadas ou bares em que pretensos (boa sorte a eles!) novos produtores organizam eventos com duas, três, quatro e, às vezes ,até mais bandas e fazem um estardalhaço em cima disso tentando atrair pessoas para lá ou ainda o Secreto (secreto?), que funciona quinzenalmente, e tenta ser uma opção menos comercial do que as casas comerciais, embora seja mais caro do que elas. E, por fim, os grandes encontros fora da cidade, todos eles impulsionados pelo Rootstock (nome terrível para um evento legal) e que junta em um dia inteiro, às vezes dois ou três dias, com 24 horas de forró, em uma verdadeiro Woodstock do forró, daí o nome, mas nem por isso deixa de ser feio.
É isso que temos! O mundo do forró pode ser descrito hoje assim, em bem menos de uma página.
Trata-se de um mundo criativo, que tem opções, mas poucas e nem sempre bem cuidadas. Na maioria das vezes, é bem amadora e boa parte dos aficionados do gênero gosta que seja assim, e é por isso que talvez o ritmo tenha dificuldade em crescer. A maioria delas costuma ter organização e estrutura duvidosa e, antes que fiquem bravos com as criticas, pensem no som que colocam, nos banheiros e na qualidade de atendimento e serviços.
Forró não pode ser só uma boa atração ao vivo e discotecagem boa (e boa pra quem?).
A grande questão é que pouca gente sai da tribo pra ganhar novos amantes do forró, a maioria briga e disputa um mesmo público e, quando chega alguém novo que não sabe dançar ou não está vestido adequadamente para um forró, normalmente é deixado de lado e visto com desconfiança quando não com desprezo.
Tá na hora de sair do nosso mundinho e ir buscar pessoas lá fora. Hora de chegar na mídia e fazer acontecer o ritmo; por isso briguei tanto pelo palco na Virada Cultural e aqui vou contar uma historinha:
O forró ia ficar de fora da Virada. O coordenador da Juventude da cidade de São Paulo, Gabriel Medina, ao descobrir isso, foi à comissão cobrar a presença do ritmo. Na mesma hora me ligou e pediu que eu mandasse, naquele momento, o argumento e a relação de bandas para o evento de 24hs.
Na relação que enviamos constavam alguns artistas muito famosos, alguns de médio porte e vários da cena do forró da cidade e de fora também. No dia seguinte, veio a posição de que o máximo que poderiam fazer era: dar-nos uma quantidade X para fazer todo o palco, quantia esta inferior à de uma atração grande, mas com o sincero argumento (pelo menos eu senti assim) de que logo viria o São João para abraçar a cidade toda, contando, inclusive, com um palco para as grande atrações. Na Virada iríamos mostrar a cara da cena de São Paulo com os trios que a fazem tão dinâmica e auto sustentável, mesmo que eles não saibam o sacrifício desse sustentável.
Montamos então um palco com os trios da cidade, tomando cuidado para chamar, principalmente, quem não participou no ano passado do centenário de Gonzaga e mesclando gerações e estilos dentro das possibilidades de datas para cada um. A exigência foi de um dia para outro, então pouco pudemos estudar com tranquilidade essa programação. Mas ficou bacana e temos o orgulho de dizer que houve forró na Virada Cultural de São Paulo.
Fora isso, fomos bater na porta do Centro Cultural Pompéia, que realiza há mais de duas décadas a Feira de Artes da Vila Pompéia. Historicamente, o forró sempre fez parte, sendo excluído faz alguns anos, cerca de 7 ou 8 , porque aglomerava tanta gente que acabava atrapalhando a feira, isso quando não tinha brigas. Este ano conseguimos mais uma vez alguns horários em um palco, que coincidentemente foi no mesmo dia da virada Cultural. Tivemos no domingo, dia 19, dois palcos com forró na cidade, ambos gratuitos, ambos com atrações do forró praticado hoje na cidade.
Esse é um meio importante de divulgação, pois se não conseguimos mídia, ao menos estamos levando pra rua, gratuitamente, o ritmo que amamos e que tenho certeza vai conquistar as pessoas que por ele passarem.
Ano passado, o Ó do Forró, crescente banda de forró da cidade fez o mesmo na Paulista, tocando de graça ao lado do metro para quem quisesse ouvir.
Esse é um meio de crescer e é um meio importante, por isso gosto de contar a história, porque acho que todos os meus colegas têm o mesmo interesse e todos deveriam abrir as portas da nossa tribo e, com criatividade, ir buscar novos amantes para o forró.
Os eventos que fazem já ajudam, mas é possível fazer mais.
Nós, as casas de forró, também fazemos nossa parcela, mas ainda dá pra fazer mais.
Somos amantes do ritmo e isso conta na hora de arregaçar as mangas. A matéria prima já é ótima, pois o número de bandas e trios novos com qualidade é incrível!
Não é fácil, mas deixando a vaidade um pouquinho de lado, esquecendo o comercial por algumas horas (ele vem indiretamente pra quem trabalha com o ritmo), vale a pena fazer o ritmo crescer e já já teremos mais e mais forrós e forrozeiros na cidade.
Dessa forma, o mundo do forró um dia será realmente um mundo e não apenas uma vila como é hoje!
Paulinho Rosa  (Jun/2013)