Idas e Vindas
Acho que era 1996 quando, numa tarde, na casa de ninguém menos que Dominguinhos, Dió de Araújo apareceu e já me provocou: "Quando você vai colocar o Trio Xamego para tocar?" Eu, que nem sabia da existência do Trio, indaguei-o sobre a formação e o estilo do trio. Pergunta boba, pois sabia que, fazendo ele parte, já era o suficiente e que o estilo, bom, ... que mais poderia ser senão o mais tradicional forró? (não gosto de falar forró pé-de-serra, pois acho que forró é forró, só existe um, os outros que criem sub-títulos para se identificarem).
Uma semana depois o trio Xamego estava tocando conosco. A formação era com Joãozinho na sanfona, o simpaticíssimo Zequinha no triângulo e ele, Deócleciano de Araújo no zabumba.
Era um grande trio, mas que, aos poucos e por motivos desconhecidos, ou que não vêm ao caso, foi se alterando. Passaram uma série de sanfoneiros e até o Zequinha saiu por um período. Foi um tempo conturbado para o Xamego.
Certo dia, Dió apareceu com Chiquinho na sanfona. Pronto! O trio estava quase perfeito. Dió, indiscutível, Zequinha, excelente ritmo e carismático e o sempre em desenvolvimento Chiquinho na sanfona. Aquele pequenino sanfoneiro pareceu "arredondar" o trio. Com sua empunhadura cheia de suingue , conhecedor de inúmeras músicas e um emérito "caretista" (faz caretas) em cima do palco, conquistou a todos.
Nesse meio tempo, creio que em 1999, um outro trio aparecia. Era o Trio Araripe. Capitaneado pelo versátil Tiziu, dono de uma das mais belas e potentes vozes do forró. Tiziu formara o trio durante um "Arrumadinho" e tinha Coquinho no triângulo e o excelente Cicinho na Sanfona. Mas, parece sina de trio, muitas mudanças ocorreram. Até que aquele Chiquinho, o pequenino do trio Xamego, resolveu mudar de ares e, juntamente com o fantástico Zé Neto, formou o novo time do Trio Araripe.
Estabeleceu-se ali um dos maiores recentes sucessos do Canto da Ema. O Sábado, como um passe de mágica, passou a ser um sucesso absoluto. Casa sempre cheia, público animado e fiel e shows sempre aplaudidos e participativos.
Mas, tudo o que é bom dura pouco (não acredito nisso, mas neste caso a frase se encaixa bem), e Chiquinho resolveu sair do Trio Araripe.
Foi uma notícia triste e doída. O Araripe, que antes do Chiquinho e do Zé Neto vinha já cambaleando sofreu um baque. Nós, fãs e admiradores entristecidos e atordoados, esperávamos o pior.
Eis que Tiziu traz a notícia que o substituto seria um jovem (bem jovem).
Aumentavam ali as desconfianças. Chiquinho estava entrosado, era perfeito no trio. Suingava e brincava com a sanfona e sabia os arranjos e músicas que todos gostavam. Era experiente. Como assim, um jovem???
No sábado, dia 5 de novembro aparece o menino. Um rapazinho, muito simpático, de óculos grandes e sorriso contido. Pareceu um pouco amedrontado, talvez tímido em relação ao que teria que fazer. Todos visivelmente apreensivos e saudosos do Chiquinho, o amigo e excelente músico que ele teria que substituir.
1:30. Hora do show, se preferirem, do teste. O menino pegou a sanfona, Tiziu o triângulo e Zé Neto o zabumba. Peguei o microfone e depois do tradicional "boa noite Canto da Ema" e mais uma dúzia de frases, anuncio o Trio Araripe de forma reticente dando início à expectativa do que viria.
E veio!!! Veio um trio que parecia se conhecer há anos, um repertório de primeira, como sempre, e um sanfoneiro atrevido, arrojado e competente. O menino não se limitou a fazer a "cama" para a harmonia da música e do cantor, mas colocou lindas frases de sanfona durante as músicas, solou outras e pareceu um veterano.
Ao final, eram só elogios. Chiquinho faria falta pelo que era e pela amizade, mas ganhamos um novo músico de enorme talento, mantendo um dos melhores trios do país ainda no topo.
Mas a estória não pára ai. Chiquinho voltou ao Xamego.
O que parecia uma tristeza acabou se tornando uma grande alegria. O resultado final de tantas idas e vindas foi que ganhamos dois trios maravilhosos. Parabéns aos dois, ao Xamego de Chiquinho e ao Araripe, do agora grande Clayton.
Paulinho Rosa  (Dez/2004)