Luiz Gonzaga - Um Herói Esquecido
Bertoldt Brecht, dramaturgo alemão, disse certa vez que "infeliz é o país que precisa de heróis". Somos infelizes, pois precisamos e muito!
Mas, se olharmos bem, temos muitos! Os exemplos são vários. De Pelé a Daiane dos Santos passam uma dezena de esportistas, artistas e, creiam, até políticos. É lógico que um ou outro poderá discordar das façanhas que os tornaram heróis, mas temos exemplos de sobra de superação de adversidades em um país que não primou por dar apoio, alimentação, saúde, cultura ou infra-estrutura mínima para que um ser humano possa se desenvolver e produzir. Por isso, acho que temos tantos heróis. Estamos lotados deles e não me refiro aos anônimos, por que aí seriam milhões, mas àqueles que tiveram ascensão suficiente para serem nacionalmente e, às vezes, internacionalmente respeitados e admirados.
Pois bem, no dia 2 de agosto de 2004 ficaram completados 15 anos da morte de um desses maravilhosos heróis brasileiros: um nordestino de Exu, região de Cabrobro, Pernambuco, ali, colado ao Ceará. Um brasileiro que fugiu de sua cidade e começou sua vida independente por ter sido ameaçado ao declarar seu amor. Fugiu só, ainda menino e usou o exército para se educar, viajar e aprender. No exército, não pegou em armas, mas tocou instrumentos musicais (foi corneteiro do batalhão). Sempre se orgulhou de não ter dado nem um tiro. De lá, foi para Minas e depois para o Rio de Janeiro, onde, entre prostitutas e boêmios iniciou uma das mais brilhantes e influentes carreiras artísticas deste país. Criou um ritmo e tornou-se rei. Na raça e no talento, cavou seu lugar no panteão dos deuses populares do Brasil e consagrou-se, via rádio, por todo o país. Caiu, levantou-se e criou uma legião de fãs e, às vezes, muito mais que isso, de discípulos. Nunca abandonou a bandeira em defesa de sua região e de seu povo. Nunca prostituiu sua arte, nem abandonou suas convicções. Não morreu pobre, mas também não morreu rico. Parte do dinheiro que ganhou foi ofertado aos necessitados e também revertido e doado, em forma de seu adorado instrumento, a sanfona, a inúmeros continuadores de sua obra.
Estou falando de Luiz Gonzaga do Nascimento, o Gonzagão, que faleceu no dia 2 de agosto de 1989, há quinze anos atrás e pouquíssima gente lembrou.
Pior do que um país que precisa de heróis, é tê-los e não saber reverenciá-los, cuidando de suas façanhas heróicas de modo responsável e respeitoso.
Seu Luiz, o velho Lua, merecia um pouco mais de lembrança e espaço para a sua obra que foi tão importante e significativa. Sendo propriamente do povo, o que Luiz Gonzaga tocava era ouvido, sobretudo pelo povo de uma região pobre e discriminada, o que ele compunha era brasileiro na sua essência e personalidade. Tudo o que ele construiu, no entanto, continua relegado a pequenos guetos, fruto dos preconceitos das gravadoras, por empresários do meio artístico e pelos "donos" da mídia.
Paulinho Rosa  (Set/2004)