Motivo para ir ao Forró
"Vou ao forró para dançar!!!"
Essa talvez seja a principal motivação pela qual as pessoas querem ir e vão ao forró. Às vezes, um ou outro, diz que vai por causa do ritmo e/ou porque adora as músicas, composições e a cultura nordestina. Outros, ainda, confessam que vão atrás das meninas ou dos rapazes e para encontrar os amigos freqüentadores. Estes me parecem sempre mais sinceros.
Sou um apaixonado pelo ritmo, adoraria que, entre as principais motivações, estivessem também presentes as duas primeiras, sobretudo a segunda. Ficaria muito feliz vendo mais pessoas interessadas pela cultura brasileira e apaixonadas pelas histórias de Luiz Gonzaga, João do Vale e de Jackson do Pandeiro, que são verdadeiras epopéias de perseverança e capacidade, casos típicos em que o talento se sobrepôs a um destino que bem poderia ter sido o de mais um nordestino pobre e esquecido em algum pedaço de sertão. (Para quem tiver mais curiosidade, existem ótimas biografias de ambos: sobre Luiz Gonzaga, a de Assis Angelo e também a de Dominique Dreyfus; sobre Jackson do Pandeiro, há a excelente biografia feita por Fernando Moura e ainda a de João do Vale, escrita por Marcio Paschoal).
Mas a verdade é que a grande maioria vem mesmo pela balada e pelos possíveis encontros. E não dá para recriminar ninguém por isto. Dançar forró, além de delicioso, é a forma mais tranqüila e fácil de conhecer uma outra pessoa. Enquanto ritmos como o tecno, o rock, o reggae e tantos outros funcionam com o som muito alto e uma distância de, no mínimo, dois palmos em relação a outra pessoa, no forró a música é mais baixa, sua boca fica na orelha do outro, e a distância não é duas palmas ... até porque uma está nas costas, ombro ou pescoço do outro e a outra está colada a mão da(o) parceira(o). Você pode conversar, tocar, apertar um pouquinho, sentir o perfume, a respiração e, às vezes, até o olhar.... Geralmente "se dá bem" quem dança melhor e não quem é mais bonito. No forró, acaba um pouco a ditadura da estética. É lógico que as bonitinhas(os) sempre têm mais chances, mas qualquer feio(a) (afinal, quem define o que é feio e bonito?), dançando bem, pode ser extremamente sedutor. Desde que trabalho com forró, nunca vi tanto homem feio com mulher bonita (engraçado, o contrário é mais difícil). Vale o molejo, a leveza e maneira de se aproximar. Vale muito o que fala e em que hora fala, ali, durante um xote; mesmo o silêncio pode cair bem. Barrigas e peitos colados, as pernas se enroscam, os rostos encostam, o toque da pele ... uma palavra pode ser bem vinda ou não..., mas que tudo isso facilita a vida de quem está a procura de alguém, facilita!
Aliás, a vontade de estar com alguém pode aparecer inadvertidamente. É a tal química que acontece às vezes, em qualquer local. Imagine em um lugar onde você já está abraçado à pessoa antes mesmo de conhecê-la!
Pode acontecer de conhecer alguém e a dança encaixar perfeitamente. É como se o movimento de um corpo fosse exatamente igual ao do outro, do(a) parceiro(a), igual não, mas complementar. O ritmo da música, seu corpo, o corpo dela(e), tudo numa sincronia perfeita. Você fecha os olhos ...
Na semana seguinte espera encontrar as pessoas de novo, de novo, de novo ... Nunca levantamos estatísticas a respeito, mas sabemos que o número de namoros e casamentos começados em forró é muito grande. Poderíamos fazer até um grande forró com os filhos oriundos de casais que se formaram no Canto da Ema.
Acho que tudo isso ilustra bem o real motivo da maioria das pessoas virem ao forró.
O Canto da Ema não tem nada contra isso. Pelo contrário, sentimo-nos orgulhosos de sermos um local onde o amor efetivamente acontece e nas mais variadas formas. Mas, aproveitamos esse motivo para tentar bem devagar, de forma discreta e indolor, incutir nas pessoas um pouco dessa história que tanto gosto. Poderia apostar que muitos dos que vem ao Canto da Ema já estão muito mais ligados a essa parte tão rica e bonita da nossa cultura que é o forró.
Paulinho Rosa  (Ago/2004)