O Melhor Público do Mundo
Resolvi falar um pouco sobre um tema colocado no fórum do Canto da Ema ("Depois que acabou a modinha do forró, melhorou a qualidade?" 22/06/2004)
Quando comecei com forró, por volta de 1991, era visto como brega e riam da minha cara caso convidasse alguém para alguma festa cujo ritmo tocado fosse ele. Era preciso divulgar outro tipo de música para que a festa enchesse, e aí, quando estivesse cheia, no auge, entrava o forró. Era uma mentirinha com boas intenções!
Em 1995, comecei a fazer forró semanalmente numa casa que é atual concorrente do Canto da Ema: o Projeto Equilíbrio. Logo após, em 1996, fui contratado por uma outra casa, que no futuro também se tornaria concorrente do Canto: o Remelexo.
Naquele tempo, o público era selecionadissimo. Não me refiro à qualidade, já que isso é um julgamento pessoal, mas havia uma unidade de interesses. Em outras palavras, para ficar mais fácil entender o que quero dizer: quase todo mundo tinha uma mesma identificação política, gostava de coisas muito similares e tendia a ter opiniões próximas das coisas que cercam o mundo. Era um público predominantemente universitário, estudantes vindos sobretudo da área de humanas da USP, PUC, FAAP e Mackenzie.
A coisa continuou assim mais ou menos até o "boom" do forró, que coincide com o estouro do Falamansa.
Esse súbito sucesso fez com que as casas, bandas e, sobretudo, o público de forró multiplicasse "zilhões" de vezes e, pelo que percebi, a maioria de vocês é "filho" dessa época. Foi nessa época que o sucesso do Falamansa fez com que muita gente repensasse o preconceito que existia contra o ritmo. Quem aqui não reconhece que tinha tal preconceito?
Mas, tudo que sobe rápido acaba caindo rápido, ainda mais para quem caiu nas armadilhas do sucesso fácil e fugaz. Aqui não me refiro ao Falamansa, que continua fazendo, e bem, seu trabalho.
Após a efervescência, as casas começaram fechar, e o público, a diminuir. Algumas bandas mudaram o rumo. Aqueles produtores que alardeavam o forró e que pegaram a coisa fácil sem ter tido que "roer o osso" também começaram a dispersar e a maioria sumiu.
Ficaram, por enquanto, aqueles que sempre acreditaram no forró de verdade, aqueles que realmente gostam do ritmo, e até aqueles que souberam modernizar o ritmo com criatividade, cuidado, arrojo (que neste caso não são coisas excludentes), e respeito.
O público reagiu da mesma forma ou, pelo menos, de forma parecida. Após a "moda", muita gente que vinha por causa dela sumiu e partiu atrás da próxima. Alguns ficaram, mas desta vez, um público muito mais heterogêneo e com feições diversas.
Hoje, há nos forrós pessoas de todos os tipos, como todo local que lida com muita gente. Existem os chatos, os legais, os bons, os maus, os mais velhos, os mais jovens, os de meia-idade, os bonitos, os feios, os "mais ou menos", enfim. Há os que sabem dançar, os que estão aprendendo, há ruivos, morenos, loiros, brancos, pretos, mulatos, orientais, índios (em todos os sentidos), estrangeiros, os de terno, os de lantejoulas, as de salto alto, as de sapatilha, as de sainha (graças a Deus!), os de bermuda, os de boné, os de gorro (nesse calor!!!), há comunistas, há os de direita, há ecológicos, esfomeados, calmos, sorridentes, metidos a músicos, metidos a dançarinos, metidos a produtores, metidos, cantores, músicos, dançarinos, produtores, tímidos, galanteadores, beijoqueiros , beijoqueiras etc, etc, etc... UFA!!!! Que bom!
O forró é assim: um pouco como a cara deste país de forte miscigenação. Tem um pouco de tudo. Tudo misturado e em grande harmonia (às vezes). E já que é um pouco o retrato deste país, existe também um pouco de preconceito velado: a velha procura por "gente bonita".
O público do Canto da Ema, esteticamente, nem sempre é composto por "modelos", embora muitas vezes parecem que seja. Quero lembrar que, ao contrário de casas que trabalham com outro ritmos, as mulheres que vem ao forró, dificilmente se escondem atrás de elegantes roupas e de forte maquiagem. Aqui, geralmente, quem é bonito é porque é mesmo!!!
Por outro lado, quantas vezes se olha para alguém e não se acha esse alguém bonito? Na segunda olhada já se muda de opinião. Na terceira vez, parece que se está diante de Juliana Paes ou de Fabio Assunção.
Aqui, no Canto da Ema, há forró quase 250 vezes por ano, e as noites sempre terminam com grande alegria devido ao clima da casa, às turmas que ser formaram, ao comportamento e personalidade de nossos clientes e às pessoas que passamos a conhecer. Portanto, quero dizer que o Canto da Ema, com todos os filhos da moda tem, na maioria das vezes, gente bonita e de muita qualidade.


PS: Nessa hora vale a pena falar um pouco sobre o Falamansa. Eles foram e são extremamente importantes para todos os forrozeiros. Não fossem eles, jamais o forró teria chegado à mídia com a força com que chegou. Não sei se eles fazem o som dos meus sonhos, embora goste muito do trabalho, nem estou pedindo para ninguém gostar deles. O que discuto aqui não é um juízo de valor. Cada um pode ter sua opinião como eu tenho a minha. O que sei é que fazem forró pé-de-serra, ou, como gosto de dizer, forró (não concordo em ter que pôr subtítulos em um ritmo que existe. Os outros que coloquem se quiserem). Pergunte a qualquer músico tradicional de forró o quanto aumentou a procura por trios após o aparecimento deles. Antes deles, era raríssimo aparecer coletâneas em CDs com forrós bons antigos. Sei, como produtor, que o preconceito diminuiu muito, embora ainda exista. Está na hora de todos se unirem e torcer para que alguma banda ou trio faça muito sucesso para que se veja e ouça de novo o forró de novo nas TVs e nas rádios. O Falamansa fez isso e muito mais: ajudou muita gente, algumas vezes sabendo que estavam ajudando, como no caso com o Trio Virgulino, em outras, ajudaram muito mais sem nem saber que estavam fazendo.
Paulinho Rosa  (Jul/2004)