"I São João de São Paulo"
Neste mês de maio último, tivemos a primeira edição do São João em São Paulo. Primeira, pois já se está falando no evento do ano que vem, uma boa idéia que visa trazer diversos itens da cultura nordestina para o nosso estado. A festa foi ótima e muito bem executada. O Sambódromo, embora péssimo para se chegar e estacionar, é um ótimo local, com grande espaço para várias atividades diferentes.
E foi nesse quesito que a festa foi mais bem sucedida. Começou com uma grande feira de artesanato e produtos tipicamente nordestinos. Pessoas de vários estados do país expuseram trabalhos sérios, de muita qualidade, e bastante representativos das respectivas regiões, o que permitiu, ao visitante que não conhece a região bem como ao que veio matar saudades, ter uma boa idéia do que se faz hoje no Nordeste brasileiro. Bem próximo à feira, um palco abrigava, alternadamente, atrações variadas, de pequeno e médio porte. Também por ali encontravam-se barracas dos diversos estados, identificadas por bandeiras e objetos característicos, ao modo de uma exposição organizada dos diversos estados que compõem a região. Dali, seguia-se pela pista do sambódromo onde, ao invés do gingado do samba, fora instalado o palco principal bem no centro de todas as atividades. Local muito bem escolhido, devido ao amplo espaço à frente para pessoas que gostam de assistir aos shows, cantando, pulando e dançando. Um pouco atrás, estavam as arquibancadas, em grande número e bem largas, para quem, por preguiça, idade ou desejo de conforto, preferisse assistir aos shows sentado.
Um pouco antes do palco principal, pela lateral e atrás das arquibancadas, foi construída uma cidade-réplica daquelas que são encontradas no sertão nordestino: casa de pau-a-pique, capela, casa de farinha, curral para jumentos, venda e etc.... tudo montado com muito cuidado e atenção. Nessa mesma lateral, mas já adiante do palco principal, quiosques com comidas típicas - sarapatel, baião de dois, tapioca etc -, eram algumas das iguarias oferecidas a preços populares aos visitantes.
Voltando para o Sambódromo, barracas já bem mais paulistanas ofereciam cachorro quente, churrasquinho, pizza, e bebidas em geral.
Vale lembrar que em todos os locais havia banheiros, caixas e seguranças em número bem razoável, deixando claro que a organização fora feita por gente competente em produção.
Mais adiante, chegava-se ao final do lugar aberto para a festa: a tenda de forró. Mais um espaço para shows pequenos, em que se abria uma maior possibilidade para aqueles que, mais do que assistir a um espetáculo, queriam dançar o forró como faziam nas festas de São João de suas terras.
Se, nesse ponto, havíamos chegado ao final da festa, só chegamos ao "fim da linha" quando descobrimos que toda essa maravilha de cenário, organização e produção fora usada para o "forró" de Daniel, Bruno e Marrone, Leonardo e etc. Tá bom que lá estiveram Dominguinhos, Elba Ramalho e Biliu de Campina, mas isso é muito pouco para quatro dias de programação de quem, pretensiosamente, quis fazer um São João típico do nordeste.
Os produtores, provavelmente, alegarão que copiaram o que se faz hoje no nordeste, sobretudo em Campina Grande e Caruarú, cidades que disputam o titulo de maior São João do mundo. E eles têm toda a razão. Já faz muito tempo que o São João de lá deixou de ser São João. Mais uma vez, os organizadores e a nossa cultura sucumbiram diante da força e do dinheiro das gravadoras e rádios. A festa de São João deveria ser uma festa basicamente de forró, assim como o carnaval carioca é do samba, o baiano do axé, o pernambucano do frevo e do maracatú, mas o São João, hoje, é uma festa sertaneja, com músicas mais próximas do country americano (sempre eles) ou, às vezes, até do axé. O que era uma festa nordestina, virou algo sem cara ou personalidade (a música sertaneja já tem seu espaço nas festas de peão de boiadeiro e vaquejadas).
Tudo isso sem contar que São João costumava ser São João porque o dia é dia de São João e, ao que me consta, é no 24 de junho. Eles poderiam, ao menos, ter acertado o mês, com a desculpa de ser uma festa junina.
A sensação que tive ao sair de lá foi a mesma que teria ao sair de um carnaval onde só tocasse tango ou bolero.
Vamos dar um viva ao primeiro São João Nordestino de São Paulo, pelo esmero na produção e total desconsideração pela (para não dizer inescrupuloso aproveitamento) da verdadeira cultura nordestina.
Em resposta a tudo isso resolvemos fazer, aqui no Canto da Ema, a nossa festa de São João. Não teremos quase nada daquela estrutura maravilhosa e bem montada. Será uma festa pequena e infinitamente menor do que a do Anhembi, mas, com certeza, teremos na parte musical algo muito mais próximo do que se fez e se faz nas pequenas cidades nordestinas, onde acontece o verdadeiro São João Matuto. E já que está chegando junho e as grandes cidades nordestinas fazem uma festa de São João que não é São João, aproveito para lançar o nosso bordão:
Canto da Ema: O maior São João do Mundo ou se preferirem o I verdadeiro São João de São Paulo!!! Sejam bem vindos!
Paulinho Rosa  (Jun/2004)