Navegar é Preciso...
Há uns 8 anos atrás, conversando com Silvério Pessoa, o genial músico pernambucano que transita fortemente no forró, é que percebi que o ritmo estava caminhando para conquistar a Europa.
Na época, ele me contou sobre suas excursões, sobretudo em terras francesas e da boa receptividade que o ritmo tinha por lá. Eu já havia feito algumas viagens e tudo que ouvia dizer era que o europeu, em se tratando de ritmo latino e de dançar junto, tinha paixão pela salsa.
Juntando uma informação com a outra tive a certeza, já naquele momento, que o forró ganharia um grande espaço, pois a salsa, embora muito legal é, na minha modesta opinião, mais repetitiva melodicamente e mais difícil de dançar do que o nosso ritmo de origem nordestina.
O forró, por ser um nome genérico de diversos ritmos como o próprio forró e ainda o xote, xaxado, arrastapé, baião, coco e mais alguns, tem uma variação que o torna muito atrativo, além do que, a maneira de tocar é tão variada que por vezes alguns nem imaginam que o que estão escutando são pérolas do ritmo, exemplos como "Eu Só Quero Um Xodó" com Gilberto Gil e "Paratodos" com Chico Buarque.
As formas de tocar são tão diversas que é quase impossível pensar que estamos falando do mesmo ritmo quando ouvimos seguidamente Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Elba Ramalho, Os 3 Do nordeste, Falamansa, Flavio José e Bicho de Pé, ouvindo assim, um depois do outro, na sequência citada, é muito diferente e é tudo forró e tudo forró muito bom!
É por isso que - e também pela facilidade do xote para os iniciantes e a possibilidade de inúmeros passos no forró e no xaxado, além das diferenças do arrastapé -, para quem gosta de dançar ele fica quase irresistível, deliciosamente sedutor, maravilhosamente gostoso.
Paixões de lado, o forró tem conseguido aos poucos, graças a essas características e mais ao talento de uma nova geração criativa e com muita garra, dominar parte da Europa e está a caminho dos EUA.
Recentemente, vários foram os artistas da nova geração que conseguiram chegar ao velho mundo e fazer turnês de relativo sucesso em países e cidades quase inimagináveis antigamente, pois se Paris, como disse anteriormente, estava encaminhada, se Portugal era um destino óbvio pela origem e língua e a cosmopolitas, se Barcelona e Londres são cidades que abraçam as culturas de um mundo todo, o que dizer da Finlândia, da Noruega, de Moscou, e de tantos outros locais tão estranhos para nós quanto mais para um ritmo que na própria terra é esquecido pela mídia?
Pois bem, foi nesses países que ocorreram alguns dos shows de maior sucesso recente. Não estou falando de bares para 200 brasileiros; estou falando de casas noturnas em que 300, 400 finlandeses lotam, cantam as músicas em português, sem saber a língua, e ainda dançam com uma desenvoltura de dar inveja até a baianos radicados no Pelourinho.
É bem verdade que não atraem multidões com milhões de pessoas como acontece com a musica eletrônica, mesmo porque dificilmente toca em rádios, tal qual no Brasil, dificilmente tem patrocinadores, tal qual no Brasil, e muito dificilmente tem apoio público, igualzinho no nosso país, mas tem conseguido, alheio a tudo isso, impressionar os que vêem o que acontece.
Ademais dos eventos, existe uma série de acontecimentos paralelos que começam a reforçar o crescimento, além de proporcionar um maior intercâmbio entre os amantes do ritmo em toda a Europa: falo de aulas de forró, festivais do ritmo além de blogues, sites e viagens que os amantes de lá fazem para cá, em uma verdadeira peregrinação para os pontos mais importantes e conhecidos do ritmo, atraídos como religiosos para os importantes templos, momentos em que se emocionam e se soltam em rodopios pelo salão, felizes por verem seus jovens ídolos ao vivo em suas respectivas terras natais.
Só este ano já foram: Diego Oliveira, Bicho de Pé, Raiz do Sana, Edson Duarte, Falamansa, Rastapé, Trio Dona Zefa, Trio Bastião e se preparem, até o findar deste ano, mais artistas lá irão!
Os reflexos ecoam no Canto da Ema, com a chegada de ucranianos, chilenos, franceses, alemães e mais uma infinidade de nacionalidades.
Junto a tudo isso, em recente reunião com o secretário de cultura Juca Ferreira, ele nos relatou que ao visitar a França no período das "Noites Brancas", evento que deu origem a nossa Virada Cultural, ele ficou impressionado com o fato de que o palco mais cheio do evento era o do forró. Vai ver que lá, como aqui, damos mais força e mais crédito às culturas estrangeiras do que à nacional. Mas, saber que na França o forró bate o rock, confesso que me escapa um sorrisinho malicioso do rosto... (nada contra o rock, que fique bem claro!).
Se essa conduta continuar e se o forró persistir em crescer em terras estrangeiras, em breve os brasileiros passarão, finalmente, a dar atenção ao nosso ritmo.
Quem sabe até coloquem o forró junto com o samba,os dois ritmos de identidade nacional, nas aberturas do importantes eventos que estão por vir: Copa do Mundo de Futebol e Olimpíadas.
Podia ser mais fácil, podia não ser necessário voar ou navegar tantos quilômetros para isso acontecer, mas pensando bem, desde que aconteça... tudo bem! Viajar para Europa é uma delicia!
Paulinho Rosa  (Mai/2013)