Banda X Trio
Passado um longo período de férias (e preguiça), está de volta o editorial e as opiniões aqui contidas.
Durante todo esse tempo muita coisa aconteceu. Importantes personagens estiveram no Canto e várias discussões, sobre diversos temas, invadiram o fórum.
Alguns concorrentes enfraqueceram, outros cresceram, mas o forró se estabilizou. Nem inchado artificialmente pela mídia como na época do estouro do Falamansa, nem esquecido e desprezado como no início da década de 90.
De qualquer forma, ainda há muito que lutar para que ele passe a ser tocado nas rádios e nas televisões sem o rótulo de música de folclore ou algo restrito a modinhas ou referido apenas aos migrantes nordestinos.
Um dos temas mais acalorados deste período foi a disputa (por parte dos forrozeiros, fique bem claro) entre o que é melhor, Bandas ou Trios?
Resolvi dar meu pitaco:
Adoro ambos. Quando o forró começou e, na verdade, nem forró era e sim baião, Luiz Gonzaga tocava ao vivo com trio, mas na hora de gravar ele sempre o fazia com mais dois violões e um cavaquinho. Seu primeiro trio, que foi com Catamilho no Zabumba e Zequinha no triângulo, percorreu parte do país durante muito tempo. Por volta de 1955, o Rei do Baião passou a andar com outra formação. Nessa época, quem fazia a corte para sua Majestade era nada menos que Marinês no triângulo, Abdias no agogô, Zito Borborema no pandeiro e Miudinho no Zabumba (estes dois últimos, mais Dominguinhos, formariam depois o primeiro Trio Nordestino).
O Tempo passou e Gonzagão foi mudando a formação. Saiu zabumbeiro, entrou triangleiro, tocou com guitarra, baixo, agogô, violão, viola. pandeiro e etc. Chegou a gravar até com orquestra.
Dominguinhos, seu principal discípulo e um dos maiores ícones do forró, diz a todos e para quem quiser ouvir que a sua formação preferida é: bateria, zabumba, triângulo, guitarra e contrabaixo, além, é claro, de sua sanfona. E o que ele faz não é forró?
Quando o Trio Sabiá coloca percussão e baixo, o que está fazendo é preencher um pouco mais o espaço do som. Em nenhum momento eles mudam a levada do forró pé-de-serra ou se colocam próximos à lambada ou ao Forró eletrônico.
Flávio José toca com banda grande, Marinês exige baixo, e Jackson sempre esteve acompanhado de regional com ritmistas. Zé Ramalho, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo e Alceu Valença tocam com vários instrumentos, além de triângulo e Zabumba e, às vezes, tem até teclado.
Caso alguém tenha curiosidade, os trios no nordeste só acontecem em bares muito pequenos. Em qualquer casa de forró ou em shows, trios como o Trio Nordestino e o Três do Nordeste e mesmo o Trio Sabiá estão sempre acompanhados de guitarra, baixo e bateria. E nem por isso perdem o caráter de pé-de-serra.
O Trio Virgulino, que é um dos mais queridos e carismáticos trios do país, sempre gravam com mais instrumentos.
Isso não quer dizer que somos contra trios, apenas não vejo problema em colocarem, eventualmente, mais instrumentos. Desde que fique bom.
Mas tenho que confessar, adoro trio!!!
Bandas como O Bando de Maria, Bicho de Pé e outras, fazem uma leitura diferente do forró. Embora o sanfoneiro quase sempre tenha origem ou ascendência nordestina, a maioria da banda fala outra língua: não nasceram nem cresceram no meio do ritmo o que faz com que tenham outra forma de se expressar. Essa forma pode agradar ou não aos mais tradicionalistas. Existem bons e maus resultados e isso são opiniões pessoais. Acho que algumas são muito legais. As duas citadas acima são bons exemplos e existem outras (Triângulo Caraíva, Rastapé, Falamansa, etc).
Para finalizar, quero deixar bem claro que não pretendo interferir no gosto de ninguém, mas apenas dizer que na história do baião e do forró não é o tipo de formação que determina o que é o ritmo, mas sim a maneira como é tocado.
Os "fundamentalistas" do forró devem ter mais cuidado quando acusam um ou outro de não fazer forró. Caso contrário, daqui a pouco, vão estar chamando até Gonzaga de lambadeiro.
Paulinho Rosa  (Abr/2004)