Trio Sabiá - Um porto seguro no forró
Por volta do ano de 1991 ou 1992, dois jovens amantes das baladas resolveram fazer uma festa juntos. Não eram amigos e, na verdade, mal se conheciam, mas descobriram algo que poderia ser o elo de uma profissional e amigável convivência: o forró.
Naquele tempo, falar em forró era quase motivo de deboche e chacota. Falar em Luiz Gonzaga era como falar hoje em dia de Sidney Magal ou Gretchen; logo brotavam frases irônicas e comentários depreciativos.
Para não correrem o risco de ficar sem público, eles não anunciavam o forró, propriamente, mas o funk, o reggae, o rock, a balada, etc. No momento em que a noite pegava fogo e o entusiasmo atingia o ápice, apagavam repentinamente o som e, quase como mágica, davam entrada a um trio, singelo, tímido e muito simpático: Trio Sabiá. Eram o Sergipano Aluisio, o Pernambucano Zito e o líder - e até então desconfiado -, o baiano Tio Joca. Desconfiado porque sempre haviam tocado nas periferias para um público mais velho e de migrantes nordestinos, sempre com cachês pequenos se comparáveis aos de hoje. Desconfiados, ainda, porque nunca haviam tocado para um público predominante universitário e sem perigo de "risca-faca". Tinham medo de não serem pagos e, quando o Tio Joca encontrou o responsável pela festa, um "garoto" de bermuda e "cara de criança", quase desistiu de tocar. Mas tocaram... e como tocaram!
De lá para cá, passaram-se mais de 12 anos e todos eles juntos rodaram por, praticamente, todas as casas de forró de São Paulo. Sempre com a simpatia de quem conhece as dificuldades de ser artista de um ritmo que foi alvo de tanto preconceito. Em nenhum momento esmoreceram ou mudaram o estilo. Continuaram tocando as músicas próprias e dos grandes representantes do ritmo. Às vezes, quando um lugar estava apenas começando, aceitavam tocar sem cachê para ajudar a construir mais um espaço. Outras encararam frio de sítios, e lugares inóspitos. Quando o forró finalmente caiu no gosto da "galera", passaram a ser chamados para tocar em vários lugares (até em Londres!!!) alguns ótimos, outros que eram verdadeiras "roubadas", mas sempre, onde quer que estivessem, faziam desabrochar um enredo do que há de melhor no forró, aliando a excelência da zabumba de Zito, à simpatia de Tio Joca e à linda voz de Aluisio, isso sem contar a irreverência quase moleque deste último. Certa vez, durante uma apresentação em uma outra casa de São Paulo em que trabalhávamos na época, um certo Alceu Valença apareceu do nada, por volta da três da manhã. Após ficar uma hora encostado à coluna, apreciando o Trio Sabiá tocar, Alceu pediu para subir ao palco. Como se já se conhecessem e tocassem juntos há anos, aconteceu, ali, pouco mais de meia hora de um forró inesquecível. Um repertório de músicas de Jackson do Pandeiro em um quase duelo onde se misturavam as vozes de Aluisio e Alceu Valença, acompanhadas pelo fole de Tio Joca e pelo ritmo do Zito.
O tempo passou e, com o crescimento do gênero, apareceram novas bandas. Os jovens que antes faziam rock na garagem, passaram curtir o forró e a formar bandas do ritmo. Surgiram zilhões de bandas, algumas ótimas, outras nem tanto; algumas estavam realmente preocupadas e interessadas no ritmo; outras, mais interessadas no que o ritmo lhes poderia proporcionar. . Algumas casas, mais preocupadas em rostos bonitos e apenas com o lado comercial, mesmo que fugazes, muitas vezes acabaram preferindo essas bandas (algumas bem ruins) do que o tradicional Trio Sabiá. O Espaço começou a diminuir e alguns jovens forrozeiros passaram a preferir a linguagem jovem da praia dos amantes do reggae à dos mestres Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. Não me refiro às letras (embora algumas sejam sofríveis), mas ao ritmo tocado.
Diante de tudo isso, fazer o que? O Trio Sabiá era e sempre foi forrozeiro no sangue e no coração. Não esmoreceram e estão ai. Vibrantes, alegres e cativantes. Tocam de tudo um pouco, brincam no palco como se este fosse a sua casa. Apreciam e elogiam as boas novas bandas que aparecem, sem um pingo de rancor ou inveja. Dividem, com os novos, o lugar que custou tanto a ser aberto, e que, a estes, basta ocupar.
Junto com outro importante trio, o Virgulino, foram os responsáveis diretos pelo estágio atual do forró. Se não atingiram o status que merecem é por que nem sempre é fácil o reconhecimento e o acesso ao grande público.
Mas o que importa é que estão por ai, ou melhor, por aqui. Quando queremos ouvir um forró de ótima qualidade, com repertório caprichado, já sabemos onde buscar. Enquanto várias bandas, e mesmo alguns trios, surgiram, mudaram de formação e até de ritmo, e desapareceram, o Trio Sabiá está aí desde o inicio e continua. A timidez do início sumiu. Hoje, antes e depois dos shows são presença constante nas pistas de dança, sempre com deliciosos papos e estórias e sempre de bem com a vida, independente das dificuldades.
Muito do que sabemos e aprendemos sobre forró foi com eles. Nesses 12 anos de convivência.
Sabemos também que, independente da moda e do momento, continuarão cantando, tocando e principalmente fazendo o que mais gostam e sabem fazer, que é tocar forró!
Paulinho Rosa  (Out/2003)