Copa do Mundo no Brasil...
E é claro que todas as atrações musicais serão brasileiras, assim como as opções que as cidades sedes oferecerão aos seus ilustres visitantes de todo o globo terrestre também serão oriundas dos mais tradicionais exemplos da cultura brasileira.

Claro que pensando assim eu também devo acreditar em Papai Noel e no coelhinho da páscoa. Papai Noel, naturalmente, tem a cara do natal brasileiro, pois é óbvio que todo simpático velhinho de barbas brancas adoraria andar com aquela roupa quente durante o nosso verão tropical.

A reclamação é velha, mas diante dos descalabros da política, da economia, da educação, da infra-estrutura, da segurança etc., não poderia perder a chance de também colocar a cultura nesse balaio.

Faz tempo que me rebelo, neste espaço, de maneira pouco paciente, com relação à total falta de atenção à cultura brasileira, diante de um mercado ávido por dinheiro apenas. Já reclamei antes que gente aparentemente séria aceita colocar nos palcos atrações que são, evidentemente, caça níqueis, pois eu duvido que alguns dos políticos que chamam A ou B para tocar, assim como apresentadores de importantes programas de TV e rádio, toquem em suas respectivas casas os mesmos A e B que nos fazem engolir goela abaixo.

Durante a copa do mundo, talvez a maior vitrine mundial, seria a grande chance de colocar na prateleira um dos nossos melhores produtos que é a nossa cultura, a nossa música popular, mas como quem decide quem toca são os patrocinadores e estes escolhem, dentro do seu casting, os músicos que lhes parecem mais apropriados para arrecadar ou alavancar carreira e ganhar em um futuro próximo, temos poucas esperanças de estarmos devidamente representados durante o mundial de futebol.

Da mesma maneira, seria uma boa oportunidade para que os turistas conhecessem a nossa cultura e pudessem descobrir o samba, o forró o choro e tantos outros ritmos tradicionais do nosso país, visitando espaços dedicados a esses ritmos mas, como sempre, as casas que aparecerão na mídia provavelmente serão as de música eletrônica, de pop, de rock, e qualquer outro ritmo que os colunistas moderninhos achem bacana na ocasião.

Fosse eu para uma copa em Portugal, com certeza procuraria casas de fado para conhecer, fosse à Argentina descobriria um bom tango; caso a escolha da sede seja a Rússia, como será no próximo quadriênio, provavelmente procurarei algo erudito para conhecer, quem sabe alguém tocando parte da obra de Tchaikóvski. No Brasil, as opções gringas deveriam ser os ritmos tradicionais brasileiros, mas dificilmente eles os encontrarão em alguma publicação indicativa de cultura brasileira e duvido que em algum folheto turístico direcionado para estrangeiros.

Gostaria que a abertura da copa incluísse pandeiros, tamborins, cavacos, surdos, quem sabe uma sanfona ou alfaias de maracatú com vários dos nossos melhores músicos apresentando nossas tradições. Adoraria ver os hinos entoados por gente que fez a história da nossa música, criando movimentos, moldando a nossa brasilidade da qual temos orgulho e não com artistas fabricados para a ocasião ou ritmos importados, mesmo com letra em português.

O Brasil in natura tem todas as possibilidades de emocionar o mundo! Constantemente, me deparo, no Canto da Ema, com a paixão dos estrangeiros quando chegam ao salão e se arriscam nos primeiros passos do forró ao som de músicas que têm 60 anos ou as compostas recentemente. Músicas que, provavelmente, nunca mais ouvirão, pois o que a mídia, patrocinadores e governantes apresentam como se fosse a nossa música brasileira é bem diferente da que fazemos no âmago do nosso país.

O medo é que daqui a 30 anos, revendo a abertura da copa, só consigamos distinguir os artistas estrangeiros que usaram nosso palco para fortalecer um pouco mais suas produtoras e que os brasileiros colocados, quase todos, como frutos fugazes do momento, já nem sejam recordados.

Copa do Mundo sem mobilidade, sem segurança, sem informação em inglês, sem conforto, com todos os visitantes sendo vergonhosamente explorados e, agora, sem um exemplo digno de nossa cultura, nem nos estádios e nem nas cidades sedes, se bem que nelas ainda tem, mas vai ser difícil os estrangeiros acharem!

Em tempo: O Canto da Ema estará aberto, como sempre esteve nesses últimos quase 14 anos, mostrando o forró que os europeus estão descobrindo hoje, graças ao trabalho de "formiguinhas" de produtores desconhecidos e de músicos que se aventuram.
Paulinho Rosa  (Mai/2014)