Neymar, Bicho de Pé e Lucy Alves
Qual a semelhança entre esses três?
Todos são brasileiros e quando falo "brasileiros" estou falando muito mais do que pessoas nascidas no Brasil. Todos têm alma de brasileiros, jeito de brasileiros, cadência, molejo e orgulho de brasileiros, todos simbolizam de alguma maneira a cultura brasileira e orgulham aqueles que gostam das coisas brasileiras e isso sem nenhum xenofobismo.
Todos os 3 participaram de competições em que duelavam com estrangeiros, se não estrangeiros de nascimento, ao menos no jeito de ser estrangeiro e nisso falo principalmente de Bicho de Pé e Lucy Alves.
The Voice e Superstar foram competições de música em que muito mais do que o talento o que chamou a atenção foi a diferença na forma de cantar, nos estilos de música, na origem das culturas que representaram. Enquanto poucas traziam a tradicional cultura nacional, a grande maioria vinha de modismos de fora do país.
Neymar foi, na copa, a nossa vertente brasileira, na sua verve mais profunda, no âmago do ser brasileiro jogador de futebol, aquele jeito menino, atrevido, carismático, risonho e encantador.
Ele é assim, desse jeito, desse modo que sempre caracterizou o futebol brasileiro e que fez com que ganhássemos a alcunha de país do futebol. Na música, sempre tivemos também uma característica bem própria, com muito suingue e ritmos nacionais que sempre encantaram, mas que cada vez mais, tanto no futebol quanto nela, estamos nos perdendo.
Se tem duas coisas que sempre me orgulharam de ser brasileiro foram a cultura e o futebol.
No futebol, desde o fatídico 5 de julho de 1982 no estádio do Sarriá, quando a última incrível seleção realmente brasileira perdeu para o Paulo Rossi (Itália), ficou decretado que mais vale jogar feio e ganhar do que jogar bonito e perder. Foi nesse momento que esquecemos a nossa magia e encanto nesse esporte Bretão, mas que vez por outra é salva por algum jogador que escapa das artimanhas daqueles que adoram copiar o futebol europeu das táticas e traz de volta a nossa magia, casos de Neymar, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo e mais alguns poucos. Desde aquela derrota, passamos a copiar os europeus e eles, que sempre amaram o nosso modo de jogar e nos reverenciaram, agora zombam de nós, pois não conseguimos fazer o que eles fazem, que é o que sempre fizemos para ganhar deles.
Na música vem acontecendo algo parecido: no The Voice, o grande campeão cantou como americano, cantou uma maioria de músicas originárias do hemisfério norte ou em inglês, mas a grande parcela foi mesmo americana. Lá, no país dos norte americanos, no mesmo programa The Voice, em versão americana, ele, o nosso campeão, foi rejeitado, mas aqui, nós amantes dos norte americanos, demos a ele uma coroa. Justamente nós, que temos em quantidade uma das mais bonitas e diversificadas culturas populares do globo, negligenciamos essa cultura para reverenciar os sósias do Tio Sam.
No Superstar aconteceu o mesmo: se o forró apareceu com força, o grande vencedor fazia balada em ritmos não brasileiros com letras extremamente simples e o Óscar foi para....eles , claro! O Malta, banda competente, que se diga, fez música ao estilo gringo e é lógico que ganhou.
Que saudades dos festivais da Record e do MPB Shell! Talvez a maioria dos que lerem este texto não saibam do que estou falando, mas quando lembro de Disparada, Roda Viva, Agonia, A Massa, Alegria Alegria, Domingo no Parque, A Banda etc, me dá uma certa tristeza.
É bem verdade que, em ambos programas, tivemos representantes da tradicional música brasileira, mas foram poucos e eles não ganharam, apesar de alguns ótimos exemplos como : Bicho de Pé e Lucy Alves.
Nostalgia de velho? Amante do passado? Talvez sim, mas tem algo de parecido na decadência do nosso futebol e no caminho que a música vem fazendo. Quando apostávamos no nosso jeito, tudo era mais criativo, verdadeiro, cheio de malemolência e criatividade. O Malta e o Sam estão para a música como a seleção brasileira está para o futebol. Estamos perdendo nossa cara, nossa identidade babando no que fazem lá fora.
Não é hora de copiar os alemães que nos ganharam de 7 a 1, mas sim de restaurar o que fazíamos para poder destroçar esquemas táticos perfeitos como fizemos em 58, contra a União Soviética; mas naquele momento tínhamos Pelé, Garrincha, Didi, Nilton Santos, Djalma Santos...todos com cara e jeito de Brasil. Hoje temos apenas Neymar e repentes de Marcelo,assim difícil!
Na copa, os estrangeiros "amaram" o Brasil, os alemães mostraram o quanto admiraram a nossa cultura e deixaram claro, depois da surra que nos deram, que a verdadeira inspiração veio da nossa história passada de futebol, dos grandes jogadores que tivemos e isso está ficando para trás.
Na música, que sempre foi reverenciada por estrangeiros, estamos perdendo nossos ritmos mais tradicionais. Nosso saudoso e genial Jackson do Pandeiro já falava que:
"Só ponho bebop no meu samba
Quando o tio Sam pegar no tamborim
Quando ele pegar no pandeiro e no zabumba
Quando ele entender que o samba não é rumba..."
Nós nem nos preocupamos mais em colocar o Bebop no samba; o que acontece hoje é que não tem samba e tem Bebop;.
O Brasil é grande e aqui, por tradição, sabemos misturar; se a miscigenação ocorre com as diferentes etnias que aqui convivem tranquilamente, o mesmo pode ocorrer com os diversos ritmos, desde que eles não se sobreponham e aniquilem o que temos de mais tradicional.
Caso contrário, continuaremos a ver a Alemanha dando show de futebol e o samba, o choro e o forró sumido dos programas de rádio e TV.
Pensando bem, será que nosso atual futebol, mais duro, com menos dribles e jogadas de efeito já não é resultado da falta de samba e de forró na formação de nossos craques? Afinal, o que está faltando é um pouco mais de suingue, drible e alegria.
Ta faltando mais Neymares, Bichos de Pé e Lucys Alves!.
Paulinho Rosa  (Jul/2014)