Fica Brincante!
São Paulo é uma megalópole sem memória, sem sentido de permanência, pelo menos física, já que muito pouca coisa tem duração longa. Os clássicos da cidade, aqueles que existem desde sempre na memória afetiva de diversas gerações, duram o tempo que a especulação imobiliária decide.
É triste saber que perdemos nossa cultura, que perdemos importantes espaços de diversas áreas apenas pela ganância e necessidade de ganhos e mais ganhos.
Quem vai a Buenos Aires sente a diferença que é a preservação de locais em repúdio à constante mudança gerada pelo poder financeiro.
O mesmo podemos dizer da Europa que prefere criar bairros modernos, em novas áreas, do que destruir antigos para construir os novos.
Aqui nada disso tem importância. a Vila Madalena, por exemplo, bairro tradicional de cultura e boemia da cidade vai perdendo, aos poucos, espaço para arranha-céus residenciais e comerciais, criando um trânsito absurdo e eliminando as características que fizeram a fama de um local dos mais charmosos, não apenas de São Paulo, mas do Brasil. O novo plano diretor em nada ajuda. A vila está ameaçada!
Mas uma coisa é começar a demolir casas para construir prédios, outra, muito pior é quando importantes espaços culturais acabam por quase nada.
O BRINCANTE, espaço concebido pela família Almeida , Antonio Nóbrega e Rosane Almeida, está respirando por aparelhos, pois tem os dias contados para deixar o imóvel de onde ensinaram São Paulo a conhecer o Maracatu, o côco, o caboclinho, o Cavalo Marinho, o frevo e várias outras importantes manifestações culturais do nordeste brasileiro.
O Brincante é muito mais do que um teatro que visa apresentar deliciosos espetáculos; é uma escola de cultura popular, com dança, músicas e instrumentos que são usados nos diversos ritmos acima citados. Se hoje São Paulo parece ter mais Maracatu do que Recife é, certamente, devido ao que eles cultivaram e promoveram.
O espaço não é enorme, mas quem o conhece sabe da sua força e tem certeza que grandes momentos são ali proporcionados, muito pela sinceridade e verdade de quem vive aquilo tudo, muito pela paixão que os leva, há tanto tempo, a manter um espaço que está sempre na corda bamba financeira, muito por que cada uma das pessoa que lá vai sente e se apaixona por tudo que acontece.
Além dos próprios, Antonio Nóbrega e Rosane Almeida, outros grandes nomes da cultura brasileira lá estiveram, desde o já saudoso Ariano Suassuna, até a recém-famosa Lucy Alves, que fez com o Clã Brasil seu debute na capital paulistana. Muitos deles talvez sejam desconhecidos pela maioria, pois nossa cidade dá mais espaço para ritmos internacionais, mas é bom lembrar que o Brincante foi espaço de expressão para gente como Paulinho, o Caboclinho Sete Flechas, o saudoso Mestre Salustiano, o Maracatu, Mestre Ambrosio e vários outras importantes figuras da cultura popular.
Muitos jovens amantes dessa mesma cultura se formaram ali, muitas pessoas passaram a conhecer os ritmos brasileiro frequentando o Brincante e muita gente viveu alegria em peças de teatro, suspense em atrações circenses e felicidade por espetáculos incríveis.
Quem, já foi sabe exatamente o que vai perder, mas quem nunca foi perde ainda mais, já que nunca viverá nenhuma dessas experiências!
Nós do CANTO DA EMA fazemos coro ao" Fique Brincante", principalmente por que admiramos, amamos e nos espelhamos na conduta apaixonada pela cultura brasileira, mas se tudo isso que é o mais importante não convence, os amantes do forró podem pensar objetivamente pois a especulação imobiliária não vai parar. Qualquer dia será a nossa vez de criar um "fica Canto da Ema".
Fica brincante!
(Neste domingo as 16:00 tem movimento "fica Brincante"no Ibirapuera!)
Paulinho Rosa  (Ago/2014)