Coincidências espirituais ou influência positiva?
Cético exagerado, eu me considero um chato quando entro em conversas cujo tema tenha alguma direção esotérica, mística ou de cunho religioso, mas, mesmo assim, com toda essa descrença, não me abstenho de aceitar que possa existir algum tipo de energia estranha em certos casos. Um que tem me chamado a atenção é Mestrinho, o jovem sanfoneiro que parece cativar cada vez mais e mais pessoas por onde quer que passe.
A forma de cativar tem duas mãos diferentes: uma é sua personalidade, rapaz calmo, tranquilo, simpático e educado para todo e qualquer transeunte que cruze o seu caminho. De fala tranquila, inteligência popular e afetivo com todos aqueles que de alguma forma o rodeiam, esse quase menino atrai pessoas e mais pessoas em torno dele. Mas ele cativa também na música: seu dom virtuoso espanta, entusiasma e cria admiração para quem o escuta. Mesmo recebendo elogios escancarados e tapinhas nas costas nos locais onde se apresenta, ele se mantém humilde e tranquilo, sempre aberto a críticas, opiniões e a aprender um pouco mais. Por vezes aberto até demais, mas isso o tempo ajeitará.
Mestrinho assume suas ignorâncias sem a hipocrisia de querer parecer conhecer a fundo toda a música mundial, mas também fala alto quando é para defender a música brasileira e o seu forró, que aprendeu quase na mamadeira, e que já continha porções gigantes de fole, zabumba e triângulo.
Nascido em Sergipe, radicado em São Paulo, este sanfoneiro é atento à sua vocação, tanto que após passar anos ao lado de uma de suas "ídolas", Elba Ramalho, ele passou a tocar, agora, com Gilberto Gil. Sem preferência por um ou por outro, ele optou pelo mais arriscado, pelo que lhe impusesse mais desafios e aprendizados. Com Elba, ele aprendeu muito, naturalmente, e continuaria na música nordestina, coisa que faz o tempo todo desde que nasceu, tocando com pequenos trios e em suas apresentações solo. Com a cantora paraibana ele fez o pós- graduação no estilo musical, mas com o cantor baiano ele passou a tocar bossa nova, justo ela que, no fim da década de 50, quase aposentou definitivamente a sanfona abrindo espaço ao violão. A partir deste momento, junto a Gil, passou a desenvolver ainda mais a sua musicalidade com essa diversidade de ritmos.
Com Mestrinho na sanfona, hoje, a bossa de "Gilbertos", disco recente de Gilberto Gil, se apoia no mesmo instrumento que quase sepultou, mostrando que ele é versátil e pode estar em qualquer ritmo, ainda mais se tocado por um ótimo instrumentista.
O excelente momento desse músico coincide com o desaparecimento do seu grande guru e mentor, Dominguinhos, curiosamente foram quase simultâneos os dois acontecimentos, algo como se Dominguinhos lá de cima, de alguma forma, desse um empurrão em Mestrinho, não apenas por abrir espaço, já que deixava uma lacuna aberta, mas principalmente pelo desenvolvimento do músico, pois Mestrinho até então cru, mesmo que promissor, dera um salto gigantesco.
O talento do jovem sergipano explodiu de repente, foi quase que como se todo aquele enorme potencial, que há muito tempo conhecemos, conseguisse finalmente sair e explodir em sua música, em sua voz, pois seu canto melhorou muito, no seu jeito, agora menos tímido e mais ousado, sem perder a simpatia e por fim esbanjando lindas frases de sanfona na mesma linha do seu mestre. Aliás, de todas as formas cada vez mais Mestrinho parece seguir a trilha de Dominguinhos.
Claro que, no fundo, acho que Dominguinhos sempre foi uma grande influência positiva para Mestrinho, e embora não creia muito nessa coisa de ajuda do além, me lembro sempre daquele provérbio: Não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem!
Paulinho Rosa  (Set/2014)