ZABUMBA IMPRESCINDÍVEL!
Sim, sanfona é, sempre foi e sempre será, a alma do forró. É bem verdade que podemos fazer forró sem o instrumento que foi mitificado por Gonzaga, mas é inegável que ao falar em forró a primeira imagem que vem à cabeça é a de uma sanfona.
Todos nós que trabalhamos e/ou amamos o ritmo temos a tendência de enaltecer os sanfoneiros colocando-os em verdadeiros pedestais, como se fossem andores de uma procissão, pois os zelamos com o cuidado, carinho, respeito e admiração de um quase santo.
Embora sejam merecedores de toda a fama que ostentam, algo começou a me incomodar: um certo esquecimento com relação a outro importantíssimo elemento do forró, da formação clássica do forró, que é o trio. Desta vez, quero falar um pouco sobre a zabumba e os personagens fantásticos e incríveis que fazem dela o instrumento responsável pelo andamento, cadência e, por que não dizer, pela forma de dançar dos frequentadores dos salões, barros batidos etc, já que são eles que conduzem o ritmo para que possamos sacolejar à vontade.
Começa com a questão do gênero do instrumento. Nunca cheguei à conclusão, mesmo após falar com inúmeros músicos, se é o zabumba ou a zabumba, mas sendo o que for, aqui neste relato, tratarei, por uma questão de foro íntimo, de A zabumba.
Sabe-se, pela história do forró, que grandes instrumentistas fizeram da zabumba, o complemento proposto por seu Luiz, Rei do Baião, uma parceira inseparável da sanfona, o som grave que acompanha os teclados do "piano de barriga", o qual casou de forma irretocável e aparentemente eterna com o ritmo.
Desde que Catamilho empunhou o instrumento, inúmeros outros grandes nomes criaram a lenda e a certeza de que este basta para ditar o ritmo do forró, muito embora o próprio Gonzaga e depois Dominguinhos, Jackson e tantos outros importantes representantes do Forró tenham adicionado a bateria, a percussão e outros instrumentos rítmicos nas respectivas bandas, mas sem nunca deixar de lado a zabumba e dar a ela o merecido destaque, inclusive colocando-a sempre ali, na linha de frente dos shows, colada ao sanfoneiro e ao cantor.
Aquela deliciosa mistura do som grave do couro ou nylon, que vem em cima, junto com o abafador e o som espetado e mais agudo que o bacalhau (aquele graveto às vezes rígido, por vezes maleável ao gosto do zabumbeiro) faz no couro ou nylon de baixo, confere ao instrumento uma característica toda especial e única. Dominguinhos dizia que ele descendia do melê, tradicional nas bandas de pífanos antigas. O próprio sanfoneiro tocava muito melê, embora no dia em que conheceu Gonzaga estivesse empunhando mesmo era um pandeiro.
Se Catamilho foi notório por inaugurar o estigma do ritmista no trio de forró, outros grandes nomes fizeram a fama do instrumento, entre eles vale a pena destacar alguns (sob o risco de esquecer vários e por estes me desculpo desde já):
Miudinho, que compôs com Zito Borborema e Dominguinhos o primeiro Trio Nordestino da História.
Coroné - Se não fez parte do primeiro Trio Nordestino da história, foi o responsável por dar cadência ao mais famoso trio de forró de todos os tempos.
Parafuso: O único integrante ainda vivo da primeira formação de Os 3 do Nordeste e que ainda é referência para grande parte dos zabumbeiros.
Boréu: Um dos preferidos de Dominguinhos, com estilo e modo de dançar com a zabumba inconfundíveis!
Cicero: Para acompanhar Jackson do Pandeiro o zabumbeiro tinha que ser "seguro" demais, pois era tanto sincopado que só mesmo um craque do instrumento como Cicero, irmão do pandeirista para conseguir, Família cheia de ritmo!
Ary: O irmão de Oswaldinho do Acordeom fez há muito tempo atrás o que muita gente só começou a fazer ha pouco tempo. Zabumbeiro moderno, Ary se destacou no instrumento.
Dió de Araujo: Zabumbeiro clássico que ousou cantar e bem, além de tocar como poucos, cheio de carisma e líder do Trio Xamego.
Quartinha: No nordeste é uma das grandes referências até hoje; existe até uma tese de doutorado sobre o músico.
Zito Menezes: menos cultuado, mas não menos admirado, o zabumbeiro do Trio Sabiá é uma quase bateria.
Durval Pereira: Para muitos o melhor de todos, na linha de Boréu suinga e dança com uma alegria contagiante.
Tiziu: O forró é pródigo em ter músicos versáteis; Tiziu além de ser um dos zabumbeiros mais seguros, ainda passeia por vários instrumentos além de cantar com uma voz potentíssima.
Seria possível relembrar inúmeros outros, pois o instrumento é extremamente importante para o ritmo. Todos os citados já são veteranos ou já nos deixaram, mas tal qual a estrela da companhia, os sanfoneiros, que há bem pouco tempo só existiam com idade avançada e oriundos todos do nordeste, hoje a mesclagem com jovens entre 14 e 30 anos, nascidos no sudeste, já é bem representativa sem deixar saudades de qualidade. O mesmo vem acontecendo com os zabumbeiros. No início dos anos 90, quando o ritmo explodiu no sudeste era raro ver zabumbeiro abaixo da linha do equador que conseguia variar entre xaxado, coco e forró com desenvoltura e personalidade. Hoje, temos orgulho de apresentar vários e vários nomes que impressionam pela atitude e estilos personalizados sem, em nenhum momento, comprometer o ritmo. Jovens como Duani, Lukinhas(trio Bastião), Adam(Ó do Forró), Murilo (Mumu do Dona Zefa), Vinicinho ( Mestrinho), Dil Brasil( Chama Chuva), Coroneto (Neto de Coroné do Trio Nordestino) Diego Oliveira e muitos outros mostram que, tal qual a sanfona, o forró pode ficar tranquilo quanto a manutenção da qualidade da música por muitos e muitos anos. Se a sanfona foi resgatada até com juros e quantidade, como provam Mestrinho, Cezzinha e seus demais colegas, a zabumba está forte, cheio de suingue e com inúmeros personagens que prometem fazer a história do forró cada vez mais bonita e por que não dizer, ritmada.
Paulinho Rosa  (Nov/2014)