Dominguinhos era tão bom que fazia jazz?
Mentira, Dominguinhos era tão bom que fazia mesmo era forró. Mais que isso, ele gostava mesmo era de tocar forró.
Jazz virou sinônimo de coisa boa; sabe-se lá por que quando um músico toca muito bem determinado ritmo, as pessoas falam que ele está fazendo jazz.
Não sei que raio de lobe (lobby) foi feito para isso acontecer, a propaganda deve ter sido boa e, como sempre, veio dos estrangeiros, mais provavelmente dos estados unidos.
Jazz quando bem tocado é ótimo, mas como toda e qualquer música tem suas vertentes ótimas e a péssimas. Jazz quando é muito jazz é bem chato.
O que acontece de verdade é que quando existe uma variedade muito grande de notas e harmonias tacham a coisa de jazz. Dominguinhos, craque que era com a sanfona, tinha naturalmente o viés de colocar lindas e, por vezes, complicadíssimas harmonias, coisas que seres humanos normais quase não acreditavam que algum dedo, por mais cumprido e ágil que fosse pudessem alcançar, ainda mais ele, que tinha aqueles dedos pequenos e gordinhos. Mas que sempre chegavam.
Mas não é apenas com Dominguinhos que o fenômeno acontece. A genial propagada que faz com que qualquer música muito bem tocada passe a ser jazz atinge todos os ritmos e músicos. Determinado sujeito, que faça muitos solos geniais, faz jazz; o cara que faz acordes incríveis faz jazz; o mundo faz jazz quando toca bem. A genialidade de Dominguinhos era justamente fazer o simples virar algo inacreditável. Ele, sem exagero, colocava lindas frases no meio de músicas, sem atrapalhar o cantor, sem brigar com a melodia, harmonia e acordes, apenas colocava ali, um "pingente" maravilhoso, que por vezes passa desapercebido, mas que dá ao quadro musical geral uma beleza inacreditável.
Quem puder pegue músicas em que ele usou só a sanfona; tente ouvir o instrumento e as lindas frases, em solo ou não, que ele fez. É incrível perceber como sempre estão ali, colocadas de forma perfeita, em encaixe incríveis, como se a música fosse criada já com tais frases dentro, sempre no ponto certo, mas, ao mesmo tempo, sempre surpreendente e delicioso.
Quando alguns ouvem isso dizem que é jazz. Muitos, aliás, dizem que o choro é o jazz brasileiro, pois é dificílimo para os músicos menos capacitados tocarem. Mas o choro é choro, bem tocado ou não, forró é forró, com ou sem variações absurdas de harmonias.
Isso é tão verdade que é muito difícil um músico de jazz conseguir tocar choro ou forró com o suingue que nossos músicos fazem por aqui.
Por isso, embora jazz seja um ritmo como os demais, com ótimas e geniais músicas e outras nem tanto, mas apenas jazz, choro é sempre choro e forró é sempre forró.
Quando Dominguinhos tocava, e a parecença das músicas segundos os que não gostam tanto da música brasileira e não suportam aceitar que gostam de música nordestina e popular como forró, dizem ser jazz. No fundo no fundo deve ser uma vontade enorme de não assumir que gostam de algo que seja menos "cool"!
Mas se repararmos bem , e ouvirmos com muita atenção as melhores músicas de Billie Holiday, Sarah Vaughan , Chet Baker, Dizzy Gillespie ou mesmo B.B.King, no fundo no fundo é tão bom, mas tão bom que parece mesmo é forró!
Arrepare!
Paulinho Rosa   (Abr/2015)