A mais gostosa domingueira da cidade
Será que é só comigo que acontece?
Quando chega o domingo eu já fico feliz. Já sei que o dia vai terminar de uma forma fantástica, com uma alegria incrível e uma energia inexplicável.
Não é a toa que muita gente chama a nossa domingueira de a "missa" dominical. É quase religioso, com tudo que algo religioso bem entre aspas tem de bom, mas com nada daquela chatice que o religioso, sem aspas, exige. A domingueira é livre, é à vontade, é alegre, é com uma malícia terna, bem diferente do que geralmente encontramos nas madrugadas. Não que malicia seja sempre ruim, mas nesse caso a malicia é mais ingênua, embora o resultado possa ser exatamente o mesmo.
As pessoas parecem desarmadas, parecem mais alegres, saudáveis, felizes e risonhas, e como faz bem um sorriso! Ela, a domingueira, começa no início da noite, durante quase o ano todo e no fim da tarde durante o horário de verão, embora nada disso seja perceptível dentro da iluminação artificial do salão, mas o ar (ou atmosfera) parece que nos traz essa sensação. Não me refiro ao ar (à atmosfera) da casa, mas das pessoas que o (a) trazem junto com o frescor ainda não contaminado da madrugada.
Ouvindo me falar assim, podem achar que sou contra a a noite, justo eu, um notívago por profissão, que se apaixonou pela escuridão, a lua e as estrelas depois de tantos anos convivendo com elas. Mas, mesmo sendo um amor recente, cerca de 22 anos, ainda me lembro das velhas namoradas , a manhã e a tarde, horários que sempre adorei e nos quais ainda me refestelo nos poucos momentos em que tenho e quero folga.
O ar da noite, da manhã e da madrugada são diferentes, nossas disposições também e acho que nisso vem uma das grandes diferenças do domingo. Às vezes nos pedem pra deixar passar um pouquinho da meia-noite, mas já sabemos o que aconteceria se o fizéssemos, as pessoas passariam a chegar mais tarde e mais tarde até que o sonho de uma noite de verão passaria a ser o de mais uma madrugada. E, então, ficaria tudo igual.
Não acho que o domingo seja melhor que outros dias, mas sem dúvida, é diferente.
Quem conhece, sabe o que digo. Desde os tempos em que o nosso querido Arleno Farias era quem comandava, já se fazia diferente. Tinha uma característica própria, bem com a cara daquela mistura pop regional que ele fazia tão bem, misturando o repente com sua marcante percussão no violão, acompanhado de três feras instrumentistas Gil e Bruno Barreto, além de Chiquinho Ceará. Era incrível!
Depois, veio o O Bando de Maria, com a explosiva argentina Maria Paula abraçando o salão inteiro, dominando o público da maneira que queria, fazendo uma mistura de rock forró que, por vários e vários anos, fazia todos cantarem e pularem, deixando tanta saudade, mas tanta saudade que até hoje, nos nossos encontros anuais de julho, a casa entope de gente querendo relembrar aquelas noites deliciosas.
Depois deles em quem apostaríamos? Achávamos que devíamos continuar com alguém que falasse as duas línguas, que soubesse levar o forró tradicional e que fosse ao mesmo tempo moderno, atraindo também os não super forrozeiros; enfim, que conseguisse tocar pra todos e tocar a todos. A aposta veio em um jovem trio de Campinas que, na época, estava começando a ficar conhecido no meio. Não poderia ter sido aposta mais certa!
Danilo, o líder do trio tem a mesma linguagem do domingo, brinca de forma maliciosa sem exageros, cumprimenta os frequentadores de cima do palco, de onde tudo vê e percebe, faz o que o povo quer. A cada domingo vem com algo novo, seja uma música que estuda e recolhe meticulosamente para agradar seus inúmeros fãs, seja com novas brincadeiras que faz discretamente, de cima do palco, no meio das músicas. Ele tem um carisma sofisticado. Se não é explosivo como a Maria Paula ou exótico como o Arleno, Danilo se impõe com um carisma contido, difícil de ser explicado, mas fácil de perceber. Hoje, vem devidamente acompanhado do seu sempre "querido" Mumu , zabumbeiro imprescindível para dar a cadência especial do trio e companheiro das brincadeiras em cima do palco. O trio se completa com o sorridente Tom, jovem sanfoneiro apaixonado, que já parece um veterano, tal a categoria e as frases que saem do seu instrumento. Tom, antes tímido, começa a se soltar na malemolência tradicional de comportamento do Trio.
O Trio Dona Zefa se uniu ao domingo como o feijão com arroz, um complementa o outro e o outro complementa o um, numa união perfeita que, junto com o horário, a casa, a noite , os clientes e sei lá que outras forças a mais, ajudam a fazer da domingueira do Canto da Ema, sem medo de ser pretensioso, a domingueira mais gostosa da cidade!
Paulinho Rosa  (Mar/2013)