SEVERO, CAMARÃO E A FORÇA DO FORRÓ!
Tempos nebulosos estes em que vivemos! Em pouco mais de 3 anos perdemos várias das maiores referências da sanfona no Brasil. Acontece que sanfona, por aqui, é quase sinônimo de forró, salvo no Rio Grande do Sul, onde a gaita fala alto nos ritmos de lá; no restante do país o som do fole é o som do forró.

Em 2012, Dominguinhos dormiu e passou quase metade do ano assim, até falecer em 2013; pouco depois foi Arlindo dos 8 baixos e mais recentemente dois importantes nomes do instrumento nos deixaram, o paraibano Severo e o Pernambucano Camarão.

Severo foi o último sanfoneiro de Jackson do Pandeiro; seu suingue garantia a qualidade de som que o Rei do Ritmo, Jackson, exigia nas suas apresentações e gravações. Essa qualidade do músico não passou desapercebida para vários grandes nomes da nossa música e Severo acabou acompanhando Alceu Valença e depois Elba Ramalho por um bom tempo. O músico também gravou LPs solo cantando, tocando e mostrando algumas de suas composições.

Camarão, o mestre pernambucano da sanfona, contemporâneo e amigo de Dominguinhos, foi um dos grandes baluartes do instrumento em todo o nordeste. Professor de quase toda uma geração de sanfoneiros nordestinos da atualidade, o músico era respeitadíssimo em shows e gravações. São vários os trabalhos em LP que até hoje podem ser encontrados em sebos e também se acha alguma pouca coisa em CD.

Severo e Camarão fazem parte de uma geração genial do ritmo, geração que manteve o forró em alta, mesmo que longe da mídia, mas que tinha neles a certeza de qualidade na música.

Houve um tempo em que imaginávamos que a perda de alguns desses maravilhosos músicos seria o fim do ritmo. Hoje em dia, contudo, apesar do imenso pesar e da tristeza gigante que nos causa a perda deles, o forró está garantido por várias e várias gerações vindouras. São inúmeros os grandes sanfoneiros que temos, abaixo dos 30 anos, com potencial e talento para seguir adiante com o ritmo. Na verdade, com potencial para ir até mais longe, pois já embasados por estes que nos deixaram, a tendência é levar o ritmo até onde nunca imaginamos, pois em número e talento os exemplos são muito grandes.

O FORRÓ tem se mostrado com uma vitalidade que era inimaginável há dez anos atrás. Os sanfoneiros da nova geração, aliados às novas bandas, trios e cantores, fazem do ritmo uma presença constante e certa em todos os próximos eventos de cultura brasileira que aparecerão nos exíguos espaços cedidos à música nacional.

Amostra disso tem sido o programa Superstar da Rede Globo que em cinco eliminatórias com cerca de dez bandas em cada, teve quatro bandas de forró tradicional verdadeiro, sendo que três delas passaram para a fase seguinte: Trio Sinhá Flor, Os Gonzagas e o Dona Zaíra. Apenas um dos representantes ficou pelo caminho, um representante composto de músicos geniais, reconhecidamente talentosos e cultuados pelos demais músicos que os conhece, mas que não conseguiram passar pelo "rigoroso" crivo apreciativo de Paulo Ricardo, Thiaguinho e Sandy que exigem refrão, agito e uma certa dose de entusiasmo infantil nas apresentações, coisas que o Trio Macaíba definitivamente não tem.

Os 3 que passaram são talentosíssimos e alheios aos críticos que julgam o programa; mostraram, cada qual, características bem próprias, de modo que, chegando ou não na final do programa, já mostraram pra todo o país que a música feita aqui é bem mais original e empolgante do que o mais dos mesmos, cópias de música gringa, que é muitas vezes boa, mas que pouco tem a ver com o jeito brasileiro de fazer.

Os três aliaram uma performance entusiasmante e entusiasmada a músicas deliciosas e animadas, trazendo à tona a alegria e a força que o forró tem. O Trio Macaíba, o único que não passou, escolheu uma música difícil como representante, um xote lindo, com melodia terna e letra inteligente, mas que não trazia o entusiasmo exigido pelo programa. Mas, quem ouviu, com certeza percebeu a qualidade musical ali contida.

Mas esses foram apenas quatro representantes atuais do ritmo. De onde eles saíram tem muito, mas muito mais, não apenas em quantidade e qualidade, mas em originalidade e criatividade, pois o ritmo propicia isso; propicia também a tranquilidade de ficarmos muito tristes quando perdemos dois grandes músicos e duas grandes pessoas como Severo e Camarão, mas o que não preocupa mais é que a nova geração tem muito a dar, muito do que aprenderam com os que se foram. Estes músicos novos certamente farão história no ritmo e na música brasileira, tal qual fizeram Camarão e Severo. Para tanto, basta a mídia ajudar e os produtores e Djs do forró entenderem que assim como temos que manter Severo, Camarão e a geração toda deles em alta, precisamos também divulgar muito os geniais discípulos deles!

O Forró continua!
Paulinho Rosa   (Mai/2015)