Virada Cultural
Não bastava apenas ter um palco em local estranho e cachê baixo. Agora, além de tudo, a data fica colada ao dia tradicionalmente mais importante do forró que é o 23/24 de junho, inviabilizando no calendário o que já era inviável financeiramente: a possibilidade de trazer alguns nomes importantes presentes na mídia para o palco.
Esse é o nosso quinhão dentro da virada cultural. Para quem quiser saber: o valor total do nosso palco costuma ser, na maioria dos palcos, o valor de apenas uma atração e ainda temos que agradecer pela possibilidade que nos dão de ter um palco para mostrar um pouco desse exótico ritmo de um país distante e psicologicamente perturbado com sérios sintomas de apequenamento e auto estima cultural em baixa, uma vez que só se costuma dar valor aos bons, e às vezes ruins, valores menos tradicionais da cultura brasileira.
De qualquer maneira, temos um palco e, aparentemente, melhor localizado que na edição passada. Este ano estaremos perto da Praça da Republica dividindo o espaço com uma merecida homenagem a Inezita Barroso, baluarte da tradicional música regional sobretudo do interior do país. Bem diferente do ano anterior quando nos colocaram no lindo Mercado Municipal que, embora tenha uma arquitetura belíssima, sofre de problemas para acústica, já que esse nunca foi o objetivo do espaço; e que ainda tinha cheiro de xixi, além de ser, de madrugada, inacessível, já que fica distante de metrô e em local ermo e perigoso quando o comércio fecha.
Com tudo isso conseguimos ter um espaço. O forró continua sendo um dos ritmos representativos do brasileiro, mas quase não tem como aparecer.
A briga por um palco começa cedo, desde o início do ano lá vamos nós atrás dos programadores e produtores do evento implorar por migalhas. Este ano, como quase todos, conseguimos falar inclusive com o Secretário de Cultura, mas este, empossado há pouco tempo e, em meio a tantas e tantas exigências do cargo, pouco podia se posicionar.
A crítica à produção do evento também esbarra no seu problemático tamanho, já que todo ele, gigante como é, acaba pesando em última instância nos ombros de uma só pessoa e assim como nós do forró choramos, outros ritmos, também detentores de parcelas ínfimas do evento, choram no mesmo ombro.
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Existe talvez uma discussão mais apropriada para resolver essa pendência de forma macro. Primeiro: se deveria ocorrer um evento desse tamanho, com um orçamento que leva boa parte do que a secretaria de cultura teria para gastar em um ano e reduz o investimento a um fim de semana. E a segunda questão é sobre a forma de fazê-lo se trazer as gigantes atrações valem mais, por exemplo, que todas as atrações de um outro palco. Nessa questão poderia ser discutido também uma certa padronização dos cachês dos palcos relacionados a música, dividindo mais ou menos igualitariamente os recursos por todos os eventos. Dessa forma, teríamos grandes atrações divididas nos diversos locais e nas diferentes manifestações musicais.
De qualquer forma, o evento já está batendo à porta e o importante seria retomar essas questões assim que ele acabar e tentar, desde já, discutir uma participação mais efetiva de alguns ritmos claramente postos de escanteio em quanto outros são totalmente privilegiados.
No palco do forró, conseguimos, com o minguado cachê oferecido, fazer uma bela programação e teremos um bom exemplo do que acontece no ritmo na cena paulista e ainda uma atração carioca.
Quero pedir desculpas aos que não entraram desta vez, pois, como sempre, tentamos colocar alguns que nunca haviam participado e outros que têm mais apelo popular, a fim de tentar ser democrático e ao mesmo tempo, mostrar a força do ritmo.
É isso, dias 20 e 21 de junho tem forró na rua e como sempre e apesar de tudo, com muita qualidade!
(Em tempo: O orçamento da Virada Cultural, segundo a mídia, é de 14 milhões de reais, ao palco do forró coube menos que 0,5%.)
Paulinho Rosa   (Jun/2015)