POVO DOIDO DO FORRÓ
Esse povo que gosta de forró é meio doido.
Para eles, parece que tudo tem como trilha sonora uma sanfona , um zabumba e um triângulo. Se alguém convida para uma outra balada, a resposta, normalmente, é negativa e quando não é o que resulta é quase sempre um certo mau humor e arrependimento por não estar em um outro canto ouvindo forró e curtindo com sua tribo aos sons de Gonzaga, Jackson, Dominguinhos etc.
Chega a ser chato isso; é como se o mundo não tivesse outro ritmo, outra balada, como se qualquer outro ambiente, diferente do do forró, fosse um ambiente mais hostil, menos amigo, menos aconchegante, menos melódico e , por que não dizer, menos ritmado e feliz.
Mas no mundo existem outras danças, outras baladas, outros modos de se divertir com música e dança. Quem sabe um rock em que você pula e sacode a cabeça e os cabelos ao ar, para quem tem, com vigor e força. Quem sabe um reggae, em que você "saltita em um ritmo mais sossegado, mais leve, bem tranquiiilllooooo. Pode ser um samba, com aquela cadência bem brasileira e uma certa malemolência, com seus passos marcados e ginga contagiante. Pode ser um hap no seu discurso normalmente agressivo, panfletário e cheio de atitude; pode ser um monte de possibilidades, mas não tem jeito, forrozeiro gosta mesmo é de estar colado com sua parceira(o) deixando seus corpos grudados rodopiarem no salão ao som de um xote, xaxado, baião, forró ou arrasta-pé. Não sabemos o motivo, mas é algo quase viciante, pois, geralmente, quem é "picado" pelo veneno forró vira um sujeito arredio às demais baladas e trilhas sonoras de diversão. Quando isso acontece não tem jeito: pode ser no SESC, no Municipal, na rua, na padaria, ouviu um triângulo, uma sanfona e um zabumba logo se vêem casais se formando para uma dança deliciosa. Que povo chato!
É bom lembrar que a vida não é só forró, não é apenas isso que existe no mundo, muito embora a Finlândia, a Irlanda, a Rússia, a Itália, Portugal, Espanha, França, Alemanha, Argentina, Canadá, EUA e alguns outros países tenham relatado casos similares da doença.
Aquele Gonzaga devia ser um cara muito esperto. Na alquimia da construção dos ritmos nordestino ele incluiu algum ingrediente tenaz, suspeito, ardiloso, pois o ritmo domina a mente, o coração, as vontades e nos faz sair de casa quando não queremos, nos faz dançar mesmo quando não podemos e nos obriga, devido à forma natural da dança, a conhecer pessoas, a ser gentil, amável e quase sempre bem humorado.
Tudo isso é também uma péssima noticia para os consultórios médicos, psiquiátricos e clínicas de psicologia, pois timidez, depressão, desânimo, falta de apetite ou ausência de amor e amizade são devidamente curadas em "terapias" de casal ou de grupo em um Canto onde muitas e muitas pessoas dançam sem parar ao som da sanfona. Noticia ruim também para as academias de ginástica, pois estas podem ser sumariamente trocadas por exercícios muito mais agradáveis e que produzem, se não exatamente o mesmo efeito, algo parecido, mas com ganhos visíveis.
Clinicas estéticas também sofrem, pois o contato físico próximo e muitas vezes extremamente próximo faz a ginga e o papo ter mais importância que o visual e ai os cirurgiões plásticos, a Lacoste e similares choram.
Mas, a questão continua sendo a chatice desse povo viciado no ritmo. Vai andar de carro a trilha sonora é forró, a balada tem que ser forró, as viagens têm como destinos locais em que se possa encontrar algum forró.
Coisa esquisita esse povo.
É bem verdade que existem vários graus: tem desde aqueles infectados e em fase terminal que não conseguem nem ao menos respirar direito, tornando-se dependente quase químico-sonoro do ritmo, e tem aqueles em que o vicio é leve e, como sempre, nesse estágio as pessoas são quase sempre mais saudáveis. Se for pego, fique sossegado, o vicio não tem uma evolução lógica, depende de cada um e do que as pessoas realmente querem e do quanto elas conseguem discernir a paixão do fanatismo. De qualquer forma, todos são chatos e eu me incluo neles, sou dos moderados, daqueles que topam e gostam de algumas fusões e de experiências que não maculam o ritmo, mas o tornam mais eclético, no próprio ritmo e no número de pessoas que possam ouvi-lo.
Enfim, cuidado se não quer ser pego e se tornar mais um desses chatos. Nesse caso, fujam dos cantos, neles, geralmente o poder é quase inescapável, mas se acontecer relaxa, é bom demais!
E você, que tipo de chato é?
Paulinho Rosa   (Jul/2015)