CANTO DA EMA, a casa mais "roots" de Forró!

O mundo do forró não é exatamente gigante, pelo menos não o que é frequentado no dia-a-dia. É bem verdade que é seleto, tem pessoas devotadas ao ritmo, mas em uma cidade gigante como São Paulo, dá pra contar nos dedos o número de espaços que fazem efetivamente do forró o seu tema principal.
Aqui, em Pinheiros, São Paulo, um reduto tradicional desde que o movimento do ritmo recobrou suas forças em meados dos anos 90, no qual já existiram casas importantes entre as quais se destacaram Remelexo, KVA, Danado de Bom e Canto da Ema, o ritmo mantém a chama acesa através de alguns espaços que estão vivos e funcionando. O nosso Canto da Ema é um deles.
Não cabe a mim julgar a importância ou a relevância de cada um pro movimento, mas é notório que o freqüentador de um espaço cria o estereótipo para cada um deles. Os apaixonados por um espaço têm preconceitos sobre os demais, como se fossem inimigos, como se odiassem a outra, apenas por optarem por conceitos e, às vezes, por detalhes diferentes.
Já ouvi dizer coisas sobre o Canto da Ema, que é forró de salto alto, forró de turista, forró que não é "roots" (raiz), esse terrível termo para quem vive em um ritmo brasileiro e por ai vai.
A vocação de cada espaço deveria se dar pela sua história, pelas paredes, o palco, as lembranças sonoras, o histórico de visitas; presenças e eventos deveriam ser mais importantes na caracterização de um espaço do que meros pré-conceitos apenas ou porque cativa mais pessoas. Quanto mais cativa menos homogêneo é o público. Essa heterogeneidade, contudo, por mais incômoda que possa parecer em um primeiro momento, poderá surpreender, pois todos fomos forrozeiros pela primeira vez na vida um dia e, portanto, já fomos os turistas, reconhecendo ou não, na época, nossos comportamentos eram diversos da tribo que hoje frequentamos, reconhecendo ou não, as preferencias na época recaíram nas bandas que nos marcaram e que nos fizeram ouvir forró pelas primeiras vezes, possivelmente distintas das preferências atuais.
O Canto da Ema recentemente mudou a decoração do seu, para nós, sagrado camarim: enchemos as paredes de fotos tiradas no palco do Canto da Ema dos diversos artistas que por aqui passaram. Pudemos então observar a quantidade de grandes nomes de todas as épocas que cantaram e tocaram para o nosso público.
Hoje, após os nossos quase 15 anos como forró, constatamos que casas até mais antigas do que a nossa estão finalmente trazendo nomes que aqui já tocaram, e tocam sempre, e outros como Azulão de Caruaru e Pinto do Acordeom, ilustres desconhecidos do grande público, mas geniais ídolos do nosso meio, e que aqui já vinham há algum tempo.
Os quadros nas paredes do camarim mostram ainda nomes importantíssimos da história do forró e que estiveram unicamente no Canto da Ema: Marinês, Chiquinha do Acordeom, Santanna, Carmélia Alves, Maciel Melo, Josildo Sá, Amelinha, Flavio José, Adelson Viana, Zé Calixto, Geraldinho Lins, Vicente Barreto, pessoas que são identificadas com o forró no nordeste e com todos aqueles que amam o ritmo.
O Canto da Ema, através de uma de suas principais representantes, nossa parceira Elba Ramalho, também se especializou em trazer grandes nomes da MPB, ligados ou não ao forró, para o som de sanfona, zabumba, triângulo e outros instrumentos para fazer todo mundo dança; nomes da primeira linha da música brasileira como a própria Elba, Fagner, Zeca Baleiro, Lenine, Chico César, Luiza Possi, Antônio Nobrega , Geraldo Azevedo e Maria Gadu, que não veio com Elba, mas nos braços de uma banda da qual temos imenso orgulho de estarmos juntos que é a Banda Bicho de Pé. Bicho de Pé que, juntamente com a banda Rastapé, Peixelétrico e sobretudo a Falamansa, foram os responsáveis de o forró retomar seu curso natural a partir dos anos 2000. Todas elas têm, com muito prazer e satisfação, lugar cativo na programação do Canto da Ema.
O Canto da Ema também mantém laços estreitos com os valores da música nordestina que estão no inicio ou no meio do caminho de se tornarem os grandes nomes, bandas importantes como Fim de Feira, Silvério pessoa, Climério (Chá de Zabumba), Azulinho, João Lacerda, Clã Brasil e Lucy Alves, Jaiminho de Exu e tantos outros.
Não podemos esquecer a ligação estreita, quase visceral, com algumas das bandas mais queridas da cena paulistana e paulista: trio Virgulino, Trio Sabiá, Trio Dona Zefa, Ó do Forró, Mestrinho e outros que fizeram parte desse organismo chamado Canto da Ema: Arleno Farias, O Bando de Maria, Trio Araripe, Triângulo Caraíva e muitos...
Olhando a nossa história, é uma satisfação relembrar a ajuda que demos a diversas bandas; lembrar que, nestes últimos 15 anos, quase todas elas optaram por fazer aqui o seu primeiro lançamento ou o lançamento de outras criações, e não apenas pela estrutura colocada à disposição, respeitando o músico desde a parte técnica até o camarim, mas por entender que o público que frequenta a casa é um publico que quer e entende de forró.
Ainda pautados pelos quadros do camarim queremos ressaltar a vocação de forró da casa lembrando de nomes como Flavio Leandro, Forroçacana, Duani, Mariana Aydar, Zé Maria, Os Sociais do Forró, Trio Alvorada, Miltinho Edilbrto, dos precursores do forró em São Paulo, João Silva, Antônio Barros e Cecéu, Téo Azevedo, Mestre Zinho, Trio Nordestino, Os 3 do Nordeste, "Seo Anastácio, Banda de Pifano de Cariaru, Banda Zé do Estado, Fuba de Taperoá, Filpo Ribeiro e a Feira do Rolo, Pé de mulambo, Joquinha Gonzaga,Flavinho Lima, Trio Zabumbão, Trio Marrom, Meketrefe, Caruá,Tião Carvalho e Mafuá, Chama Chuva, Zé Pitoco, Bia Góes, Genário, Marcelo Jeneci, Dona Zaíra, Sinha Flor, Dois Dobrado, Diego Oiveira, Trio Forrozão, Trio Potiguá, Trio Xamego, Rouxinol Paraibano, Trio Juazeiro, sandro Beker, Genival lacerda, Azulinho, João Lacerda, Socorro Lira, Sandra Belê,Trio Remelexo, Marcelo Mimoso e muitos, muitos outros.
O Canto, um dia, ainda vai contar a história de 4 meninos que tocaram juntos, aqui, no lançamento de um deles, Joquinha do Acordeom, o qual dividiu com Pablo, Cosme e Gabriel, as sanfonas, sendo estes ainda menores de idade.
Mais recentemente, reafirmando nossa condição dentro do ritmo proposto, retomamos as grandes festas de aniversários dos nossos ídolos, a rainha do forró Anastácia, presença imprescindível em qualquer ocasião importante no Canto da Ema e o mestre Osvaldinho do Acordeom, mais um dos homenageados em nossas paredes.
Por fim, vale sempre lembrar que Dominguinhos comemorava aqui seus aniversários quando coincidia de, na data, ele estar em São Paulo. De 2000 até ele nos deixar, foram vários, assim como foram inúmeras as vezes que ele nos pedia o espaço para gravar todo e qualquer programa que pra ele fosse necessário.
O Canto da Ema foi sempre tranquilo, e era, de certa forma, caseiro, para ele, Dominguinhos, como para muitos dos freqüentadores, pois ele os caminhos ele sabia de cor e por inúmeras razões se sentia em casa. Se ele se sentia em casa é por que era uma casa de forró... E casa de forró é uma casa para toda e qualquer pessoa que queira ouvir e dançar forró.
Canto da Ema, casa de forró, sem subtítulos, sem apelidos, apenas isso.
(Citamos alguns nomes, esquecemos outros, mas a história se fez por TODOS que aqui tocaram e dançaram).
Paulinho Rosa   (Ago/2015)