ELBA RAMALHO, Obrigação de assistir!
Ainda, depois de tantos e tantos anos de parceria, fico impressionado com essa mulher! Sua energia, vitalidade e talento são peças que, há muito tempo, fazem parte do seu repertório; mas, a disposição de se entregar a causas humanitárias em que ela acredita com fé e determinação obriga-nos a rever certos padrões de comodidade e passividade aos quais muitas vezes nos entregamos.

Sei que não tenho direito de falar pelas pessoas, mas quantos entre os que lêem este texto neste momento, teriam coragem e disponibilidade de, sendo famosos e com uma situação financeira estabilizada, tendo que viajar várias vezes por semana para destinos longínquos deste país continente, dormindo pouco e sempre em hotéis pouco pessoais, atendendo a pedidos de inúmeros fãs, ficando longe das filhas e da família, longe de casa e de suas comodidades e acolhimento íntimo ainda se disporia a viajar mais uma vez para cantar sem sua banda apenas para arrecadar mais dinheiro para suas contribuições altruísticas?

Elba Ramalho não precisa disso; na verdade, nem faz muita propagada de suas atuações. Ela vai lá, realiza e pronto, ajuda e está feito, apenas porque acredita nas causas e se emociona com as pessoas e a vida, atendendo assim algo que vem de dentro dela, esquecendo todos os percalços da vida de artista, que, embora glamorosa na TV, é trabalhosa e cansativa.

Em várias ocasiões, fui buscá-la no aeroporto e a vi reclamando das infindáveis viagens, dizendo-se cansada. No início, eu ficava receoso quanto ao que aconteceria pouco depois no Canto da Ema. O medo era com o público que sempre quer e espera o máximo do artista, não interessando saber em que condições este se encontra. Tenha ele, ou não, acabado de chegar de uma viagem de mais de 12 horas do exterior, tenha, ou não, vindo direto de Belém ou Teresina para cair aqui em São Paulo após uma noite mal dormida, o fato é que o público o quer inteiro, pois, sendo o espetáculo beneficente ou não, ele pagou e sente-se no direito de ter seu artista na sua total condição. Pois bem, Elba nunca ficou devendo, não sei o que ela faz, ainda não consegui descobrir, juro que a indaguei nesta última vez em que veio aqui tocar, mas ela riu e disse que era dela, algo de dentro, pois é só começar a descer a escada que dá pro palco, baixar a cabeça, levantar e sacudir os seus cabelos sempre muito bem cuidados, que ela retorna a si, nova e totalmente revigorada, coisa de artista, coisa que todos os artistas deveriam ter e desta vez, mais uma vez, como em todas as outras, o show foi único e inesquecível.

Aqui no CANTO DA EMA, Elba certa vez confidenciou que se sente em casa e talvez isso a ajude a fazer o que tem feito por aqui. Os shows têm sido deliciosos, uma volta a tudo da carreira, quando ela tem a oportunidade de recordar algumas músicas que nem sempre canta, pois o show aqui não tem ensaios, não tem preparação, não tem marcação e nem repertório definido, tudo isso que deveria ser ponto negativo toma aqui uma dimensão exatamente oposta, pois vira algo inédito e único. O fato de ela se sentir "em casa" deve ajudar e é exatamente ai que a grande cantora se solta e faz o inacreditável, canta e fala o que vem à cabeça na hora, num evento totalmente impulsivo e visceral.
Nos forrós que ela faz aqui não há nenhuma preguiça, nem economia de energia e vigor, pois quase sempre passam das duas horas de duração; quase sempre as pessoas cantam emocionadas os clássicos, quase sempre ela recorda dos pedidos feitos pela platéia e, sendo possível os atende, quase sempre um monte de gente emocionada tira fotos com essa que é, sem dúvida, uma das maiores artistas do nordeste e do Brasil.

Por isso continuamos com a parceria. Fazer o bem só faz bem, mas fazer o bem, assistindo ao show incrível de uma mulher com essa generosidade e talento, isso é quase obrigação.

E que obrigação mais gostosa!
Paulinho Rosa  (Out/2015)