FORMIGA NA CUECA!
Nós, forrozeiros, somos uns chorões e não me refiro a ser chorão como amante do ritmo choro, o que seria altamente louvável e elogioso, mas à uma perpétua postura de vitimização com relação às injustiças do mundo, mídia, governo, público, meteorologia, política, economia etc etc. Eu mesmo vivo reclamando de uma série de fatores que conspiram contra o forró e a possibilidade de crescimento e ocupação de espaço.
Mas, porque sofremos tudo isso e o sertanejo, além daquele outro ritmo que usa erroneamente o termo forró ( de plástico ou eletrônico), continuam de vento em popa? Eu sei que há milhares de fatores e grande parte deles são reais, não quero entrar nessa discussão, mas quero deixar claro que, embora tenhamos argumentos reais para afirmar que o mundo atrapalha o forró, existe, por outro lado, um certo amadorismo e principalmente uma acomodação letárgica de todos ou quase todos os que militam dentro do ritmo.
Não posso falar muito dos outros estados, mas aqui em São Paulo, salvo raríssimas exceções, tudo é mais do mesmo. Falo com tristeza e um certo receio, pois sei que muita gente pode se magoar; contudo, o fato é que muitas bandas se repetem, não apenas nas músicas, mas nas ações e maneiras de trabalhar e se divulgar, muitas talvez aprisionadas no gueto forró que exige um tradicionalismo lindo, porém chato e inócuo quando se trata de ganhar espaço e sair da mesmice.
Não apenas bandas e trios sofrem com isso; nós, produtores, divulgadores e os DJs caminham exatamente na mesma trilha: criatividade zero!
Faz tempo que acompanho os produtores novos e antigos, faço parte desse segundo grupo e todo evento que vejo é uma repetição do que já foi feito, embora com lindos slogans de propaganda, afinal nisso todos são ótimos.
Não vou citá-los, mas sempre, ou quase sempre, vejo as propagandas alardeando as incríveis novidades e mudanças nos eventos que invariavelmente têm as mesmas bandas e trios em todos os lugares, com todos seguindo a mesma receita e ainda, geralmente, em locais pessimamente organizados, sem estrutura e condições adequadas.
Não é bom generalizar, mas também não se pode citar nomes sem causar danos terríveis às relações e um certo mal estar dentro do meio; por isso, prefiro lembrar de ótimas iniciativas de músicos e produtores: algumas bandas ousam nos instrumentos, arranjos e escolha de repertório, outras apenas criam um estilo único e por isso já se fazem diferentes, outras se apoiam em padrões claros de show buzines e ganham com isso, outras cativam de forma encantadora seus fãs multiplicando-os, alguns se expõem independentemente de produtores, com coragem e determinação.
Com os produtores ocorre a mesma coisa: segue-se o exemplo da casa de forró e todas fazem exatamente o mesmo, com mais ou menos qualidade e raríssimos são os casos de criatividade, até produtores antigos preferem copiar do que criar e mais uma vez, em vez de propor eventos criativos, apelam pra slogans criativos. É mais fácil!
Os DJs, mais do que ninguém, são vitimas das ditaduras dos fundamentalistas, usam e abusam dos vinis, dando uma clara evidência de que as bandas novas podem esquecer de aparecer no mercado em que elas deveriam ser as grandes estrelas.
Viver o passado é bom, mas o presente e futuro podem e devem ser ainda mais cuidados!
Recentemente, em conversa com vários músicos e produtores do ritmo, uma palavra se destacou diante de tantas opiniões: cutucar! O que está faltando no forró talvez seja a coragem de cutucar, experimentar, ousar, sair do lugar comum, a ideia da formiga na cueca para sair do marasmo, da mesmice. Nós todos estamos vendo o ritmo definhar diante da crise e pouca gente ousa.
Está na hora de nos mexermos, nos unirmos, criarmos, arriscar-nos mais, fazer vinil, sair pra rua, criar evento, inventar clip, buscar público de alguma forma.
Desde que a indústria fonográfica desmoronou, os responsáveis pelos sucessos somos todos nós, todos os que trabalhamos na música e o povo do forró é um dos mais tímidos, estáticos e vítimados de toda a MPB.
O forró precisa de nós que estamos no meio, mas com menos discurso e mais ação!
Paulinho Rosa   (Dez/2015)