A CULPA É MINHA...
Se é para o bem do Canto da Ema e felicidade geral da nação forrozeira, eu digo que vamos mudar a discotecagem.
Calma, ainda não é desta vez que colocaremos DJ, mas tentaremos, democraticamente, mexer com esse ponto nevrálgico da casa.
Se o problema são as músicas, que se mexa nas músicas.
Qual é o ponto exato?
Os argumentos que nos fizeram ser firmes em defesa da nossa proposta continuam os mesmos, embora reconhecendo certos exageros.
Enumerarei aqui vários desses pontos e os deixarei livres para os diversos comentários.
1. Forró é diferente de outras baladas que têm tradicionalmente um crescimento até o apogeu das músicas mais dançantes. Normalmente, DJs de baladas que não são forró, deixam aquelas músicas em que a pista ferve para ser a apoteose que tende a crescer à medida que passe o tempo até chegar no máximo. O forró depende do gosto de cada um que está na casa; uns preferem dançar xotes, outros forrós rápidos, outros baiões de média velocidade , tem aqueles que amam os arrasta-pés, mas tem os que odeiam cada um desses gêneros e como fazer para um DJ acertar o gosto de todos ao mesmo tempo?
2. O forró tem a enorme vantagem de ter vários ritmos abrigados dentro dele: xotes, xaxados, arrasta-pés, baiões, cocos e até os próprios forrós, além de outros tantos que uns colocam no mesmo saco. De qualquer maneira, cada um desses ritmos tem leituras diferentes que os fazem ficar completamente diversos uns dos outros dependendo de quem toca. Exemplo: um xote de Flavio José é completamente diferente de um de Dominguinhos, um forró dos 3 do Nordeste também mostra uma variação considerável dos forrós que fazem o trio Dona Zefa e por aí vai. Como um DJ pode adivinhar o que cada um vai gostar se não tocar um pouco de cada um desses diferentes modos de interpretar?
3. O forró, como todo ritmo, tem moda. Os DJs tendem a seguir tais modas; além disso, eles têm, como todos nós, as suas preferências; por isso, eles tendem a repetir, em dias variados, uma discotecagem muito parecida tornando a seleção de músicas muito menos variável que a nossa que tem 1500 músicas, as quais são executadas alternadamente, sem repetição, até que se esgote o programa.
4. É de conhecimento de todos uma tendência, quase que geral também, de os DJs terem uma postura extremamente conservadora, no sentido literal de conservar o passado e nem sempre olhando pro presente e futuro. No meio do forró, os DJs mais reconhecidos tocam (em) vinil e quase sempre descobrem pérolas de antigamente, que fazem os olhos dos forrozeiros brilharem. Mas, olhando com uma certa distancia, o forró vive muito bem depois da quase morte do vinil, embora tenhamos um tesouro de valor incalculável no formato "bolachão" e que dificilmente será digitalizado pelas industrias fonográficas. Mas, o que se fez depois do vinil também tem valor, e muitas vezes de rara qualidade. Muitas das bandas que hoje fazem sucesso e até mitos do ritmo, como por exemplo Dominguinhos, têm obras apenas em CD e isso tudo se perde ou pouco valor se dá, devido ao formato e à necessidade quase que fanática de se valorizar apenas o passado em detrimento do presente e futuro. Custo a acreditar que alguns dos artistas reverenciados no passado tenham obras e carreiras tão significativas e importantes pro ritmo quanto alguns dos que tocam até hoje. (excetuando-se, claro, Gonzaga, Dominguinhos, Jackson e etc)
5. O Canto da Ema é uma casa que se empenha em ser uma casa de forró e, para quem não sabe, Gonzaga é forró, Alceu Valença tem forró, Trio Virgulino é um trio de forró, Falamansa é uma banda que faz e divulga demais o forró e Dona Zefa, Ó do Forró, Mestrinho e vários outros também, com linguagens próprias, fazem forró. Por esse motivo, todos eles tocam na casa; por esse motivo não somos uma casa apenas de forrozeiros, embora os respeitemos, cultivemos, vários deles fomos nós que os criamos e os queremos sempre conosco - eu mesmo me considero um -, mas somos uma casa que também é formadora de novos fãs do ritmo e, por experiência de quase 25 anos militando no forró, já percebemos que é muito mais fácil conquistar alguém através de sucessos nacionais do ritmo (Abri a Porta, Sala de Reboco, Asa Branca, Rindo a Toa, Esperando na Janela, Nosso Xote, Amor de Rastapé, Bate Coração) do que tocando perolas de antigamente (Baile da Tartaruga, Mata Sete, Forró Casamenteiro, Forró do Sertão, Paraxaxa e etc). A questão é que DJs odeiam ser óbvios e o óbvio é que vai ajudar a conquistar os novos frequentadores.
6. Tradicionalmente, os mais fanáticos são sempre os mais participativos. Dificilmente alguém que vai a primeira vez em um forró, ou mesmo nas primeiras vezes, irá pedir músicas ou exigir este ou aquele ritmo. Os forrozeiros tradicionais têm uma notória preferencia por forrós e baiões e gritam tresloucadamente os nomes desses ritmos execrando o xote.
Diante dessa postura e da total quietude dos novatos que preferem xotes, os Djs tendem a atendê-los e tocam um numero de forrós e baiões muito maior do que de xotes. O problema é que quem está começando a ir ao forró normalmente quer aprender com o xote, por ser muito mais fácil. No Canto da Ema, a discotecagem segue uma disposição matemática de músicas, respeitando de forma equilibrada os diversos ritmos, permitindo assim que todos tenham seus momentos.
Essas foram as explicações e justificativas de nossa manutenção dos conceitos. Eles podem ser questionáveis e sabemos que serão, mas eles têm fundamentos e por isso os seguimos. Falamos, contudo, em mudanças e pretendemos realizá-las, alterando, subtraíndo e trocando algumas músicas para, quem sabe, agradar mais e mais frequentadores.
Seguem abaixo os itens que, mesmo sem alterar a politica, poderão atenuar as divergências daqueles que são frequentadores assiduosíssimos que citam justamente a discotecagem como único erro do Canto da Ema:
1. Na ânsia de tornar o Canto da Ema mais fácil para os "turistas", e assim conquistá-los, exageramos e "forçamos a barra " em algumas músicas que são muito mais comumente rotuladas de MPB do que forró, algumas até com pequena marcação, o que dificulta a dança e pouco anima a ir pro salão.
2. Alterar a matemática das músicas: hoje existe um equilíbrio entre, de um lado, coco, baião, forró e xaxado e do outro o xote, com alguns arrasta-pés salteados. Como são muitos ritmos e o xote é só um, passaremos a desequilibrar um pouco, em favor dos ritmos mais rápidos, a discotecagem, deixando-a um pouco mais movimentada.
3. Substituiremos algumas gravações muito antigas e que se mostram pouco dançáveis.
4. Equilibraremos os diversos momentos do forró, dando peso a cada um dos momentos do ritmo. Isso será feito em pacotes e assim os equilibramos, nem sempre com o mesmo peso:
Pacotes:
 Clássicos- Gonzaga, Dominguinhos, Jackson, Marinês, Trio Nordestino, Os 3 do Nordeste, João do Vale, Ary Lobo etc
 Clássicos 2: Jacinto Limeira, Edson Duarte, Venâncio e Corumba, Borrachinha, Trio Mossoró, Jacinto Silva, Sebastião do Rojão etc.
 Geração nordestina MPB/forró - Elba Ramalho, Alceu Valença, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Xangai, Fagner etc
 Ícones sudeste - Falamansa, Rastapé, Forróçacana, Rastapé, Trio Virgulino, Trio Sabiá etc
 Novas Gerações - Trio Dona Zefa, Ó do Forró, Mestrinho, Trio Alvorada, Bastião e etc
 MPB Forró - Gilberto Gil, Fafá de Belém, Clara Nunes, Leci Brandão etc

Esperamos que, dessa forma, consigamos chegar bem mais próximo de um consenso mais geral, mesmo sabendo que para uma casa com tamanha frequência isso seja quase impossível. Afinal são todos indivíduos com suas individualidades.
Paulinho Rosa   (Fev/2016)