Espaço para a boa música
Steve Wonder e Gilberto Gil juntaram quase 500 mil pessoas em um show no Rio de Janeiro. Talvez seja um exagero da organização, mas seja lá quantas pessoas estavam amontoadas nas areias de Copacabana, a verdade é que a música brasileira da ibope e não precisa ser popularesca nem apelativa.
Poderia bem se falar que a "boa música" dá retorno, mas não tenho credibilidade competência nem carta assinada por Deus para caracterizar "boa", mesmo porque boa é "boa" pra quem? Mas uma forma de fazer isso é perceber a música que fica, perdura, ao contrário daquela que é fugaz. De toda forma, o show mostrou que músicos do estilo Gil e Wonder são viáveis, assim como seriam vários outros: Chico Buarque, Caetano Veloso, Marisa Monte, Zelia Duncan, Lenine, Dominguinhos, Martinalia, Roberta Sá, Mariana Aydar e muitos outros.
E não seriam viáveis apenas na praia do Rio de Janeiro; provavelmente seriam viáveis em quase todo o território brasileiro, caso algum empresário menos preguiçoso resolvesse apostar. Seriam viáveis também nas rádios e TVs, pois são elas que determinam a viabilidade ou não dos artistas e não o contrário.
Se em vez de tchum e tchã tivéssemos "Só Chamei Porque Te Amo" seja na versão original com o Steve Wonder, ou nessa brasileira de Gilberto Gil, este seria o grande sucesso, e não o tchan.
A apelação para a malícia direta, boba, apenas engraçada e com pouquíssima poesia já vem criando atalhos na ótima música brasileira há algum tempo. No forró, o estrago da apelação foi terrível, pois quando Gonzaga e seus discípulos caíram no ostracismo devido à chegada da bossa nova e da jovem Guarda, esse foi o recurso de alguns forrozeiros para tentar se manter em atividade e na mídia, foi o caso de Genival Lacerda (com muita classe e inofensivas músicas) e de outros como Zenilton e Sandro Becker. O problema é que isso aguçou o preconceito e, sobretudo, aumentou a distancia daqueles que faziam e escutavam a bossa nova, cheia de poesia, enquanto o forró ia apelando cada vez mais para os duplos sentidos.
Tudo isso levou o forró para uma condição popularesca de onde só viria a sair muito tempo depois, primeiro com a tropicália e depois com a geração de nordestinos como: Elba, Alceu Valença e Geraldo Azevedo e mais tarde com a Falamansa e o movimento geral que deles eclodiu.
Mas, mesmo assim, grande parte da população, classe média e alta e a mídia, que são os formadores de opinião, ficaram impregnados com o preconceito e jamais deram espaço ao forró de novo.
Talvez fosse bom que parte da mídia ou, quem sabe, toda ela olhasse de novo para o forró, o baião, e visse que tem muita coisa boa sendo feita e com uma roupagem nova. Não é a do Gonzaga, embora seja na linha direta dele, de Jackson do Pandeiro, Dominguinhos, João do Vale e Trio Nordestino, é exatamente nessa direção que vêm se formando as novas bandas e novos trios de forró.
Aquela antiga geração citada, a de Elba Ramalho e Cia, continua fazendo coisas ótimas, bem diferentes do que fizeram o forró malícia ou mesmo aquilo que alguns chamam de forró eletrônico, de plástico, forró de banda ou o que quer que seja, mas que não é forró. Isso não quer dizer que não seja bom, mas que acaba atrapalhando a pessoa que vem conhecer o ritmo. Forró é uma coisa e aquilo que fazem é outra, por isso cria-se confusão e aumentam as dificuldades de propagar o ritmo original.
Se a mídia olhar essas diferenças todas, perceberá que tem um grande filão a ser explorado, com boa e variada música, ótimos interpretes, com boa poesia e uma geração nova no país toda pronta para estourar.
Dessa forma, o forró tende a aparecer no tamanho e na medida que merece, ao menos bem mais do que aparece hoje em dia!
Sonho com o tempo em que poderemos voltar a ouvir músicas nas rádios, TVs, restaurantes, bares, praias etc, como ocorria no final da década de 60, quando aquela geração de ouro de Chico Buarque, Edu Lobo, Caetano, Gil e Cia era quem dominava a mídia, ou mesmo as gerações recentes com Lenine, Vanessa da Mata, Marisa Monte e mais um punhado de grandes músicos ou ainda de décadas atrás, por volta de 1950, quando, ao invés de uma multidão esperar Justin Bebear ou similar da época na porta de hotel no Rio de Janeiro, uma aglomeração enorme de pessoas se acotovelavam para assistir Luiz Gonzaga na marquise do Cine Pax.
A música brasileira dos grandes nomes sempre foi viável. Que bom que Gil, devidamente acompanhado de Stevie Wonder, mostrou isso.
Justo Gil, que grava tanto forró.
Que bom!
Paulinho Rosa  (Fev/2013)