DUOS da Minha Vida
De todas as coisas que fiz na vida, algumas têm um significado mais emocionante e latente em termos de realização pessoal, estética e herança cultural; entre elas estão, sem dúvida alguma, dois duos que eu idealizei, formatei e, de certa forma, acabei por produzir seus respectivos primeiros shows.
O primeiro foi com Dominguinhos e Yamandu Costa!
Era um sonho antigo ver dois dos maiores músicos brasileiros de todos os tempos reunidos a fim de fazer musica, a fim de se divertirem através da sua mútua admiração. É bem verdade que, de um dos lados, havia uma certa idolatria: nunca vou esquecer o comentário da empresária de Yamandu, preocupada com o nervosismo do seu genial pupilo, minutos antes de o espetáculo começar, defrontando-se ele com a tarefa de dividir o palco com sua grande referência, Dominguinhos.
Mas, uma vez postados ao palco, os dois riram, se divertiram, brincaram, contaram histórias e, sobretudo tocaram...tocaram lindamente, divinamente, tocaram como se a música falasse por eles, como se não existissem Dominguinhos e Yamandu e sim uma sanfona e um violão; tocaram como ninguém poderia tocar, tocaram complementando-se, entrelaçando-se em lindos e suaves acordes, às vezes ligeiros, mas tudo sempre bonito, tão bonito que resultou em dois discos e um DVD , memoráveis, inesquecíveis e retumbantes no sentido de nos arrebatar as emoções do modo que só a musica consegue fazer, seja solo ou pano de fundo.
O outro duo foi recente e mais uma vez uma vitória incontestável da música. Se com Dominguinhos e Yamandu, a alquimia entre o gaucho e o pernambucano funcionou maravilhosamente, desta vez a ligação entre um francês abrasileirado ao máximo e um sergipano com influência jazzísticas resultou soou na mais perfeita harmonia. Ambos se conheciam de Gil, ambos eram amigos provenientes de shows de Gil, mas ambos não haviam ainda conseguido se soltar e deixar que seus sons, seus talentos, seus corações musicais se perdessem e se encontrassem e pudessem se encaixar em um duo tão fantástico e tão atraente como aconteceu...e aconteceu.
Tudo foi resultado da minha insistência em colocar o forró também em um festival de Jazz. Essa obsessão pela ideia de o forró estar em todos os palcos, em todas as salas, em todo e qualquer espaço seja de que ritmo for, me fez sonhar com algo que mais se aproximasse do que viria a acontecer. E aconteceu mais uma vez na bela, cativante e histórica Parati, o Bourbon Festival de Paraty.
A ideia de juntar os dois, e apenas os dois, em instrumentos melódicos solistas parecia-me uma espécie de forró jazz, uma sinergia de dois instrumentos com sonoridades maravilhosas e que, colocadas por virtuosos e amantes da música nordestina como são Mestrinho e Nicolas, transformaria o resultado final em algo que qualquer ouvinte de jazz se apaixonaria, mas foi também isso que aconteceu com os ouvintes de forró, de samba, de folk, rock, blues, frevo, marcha, rumba, reggae, ou qualquer outro ritmo, pois a pitada mágica de gênios da música faz vibrar qualquer ser.
O que aconteceu foi inacreditável: diante de um cenário paradisíaco, com o palco na frente da igreja, o cais por trás, e uma promessa de garoa, os músicos soltaram o som e o verbo através de seus instrumentos; eram apenas dois músicos, apenas dois instrumentos, mas eles encheram a praça com um som que nos fazia planar, sonhar e nos sentir vivos! A música é realmente uma coisa incrível, as sensações e despertares que ela causa nos transporta a sentimentos indizíveis, pois não os captamos na consciência, apenas sentimos....
Tal qual o Duo entre Dominguinhos e Yamandu, este com Mestrinho e Nicolas já está em CD; um CD lindo que também como o duo antecessor é recheado de forró. Esse tem sido o fio condutor e propulsor de todos os projetos que faço. Ainda bem que tenho me encontrado com músicos tão fantásticos como estes quatro que também têm, pelo forró, uma grande paixão.
Gaúchos do mundo, nordestinos ecléticos, franceses arretados e gênios incontestáveis, fazem da música uma ode à obra de Gonzaga.
Em breve, quem sabe, novos duos, desde que com o forró sempre presente!
Ps: O Canto da Ema teve o prazer e a honra de receber Mestrinho e Nicolas. Acompanhe a programação, pois ele voltarão...
Paulinho Rosa   (Mai/2016)