ACREDITEM EM NÓS
São 16 anos fazendo forró 5 vezes por semana; só isso já deveria ser uma credencial e tanto, mas entendemos quando alguém duvida, desconfia ou reluta diante de algo novo que propomos. Apenas ficamos tristes por perceber que nosso empenho, constância e longevidade não nos dá crédito suficiente para indicar algo inédito.
No caso mais recente, de Silvério Pessoa, nem tão inédito era, pois somos tão fãs e há tanto tempo, que ele foi o escolhido para ser a atração do aniversário de 2 anos do CANTO DA EMA lá em 2002.
Quando o chamamos para fazer um domingo sabíamos que uma parte torceria o nariz: quem seria esse sujeito que ousa tocar no mítico domingo do Canto, sempre tão celebrado pelos frequentadores habitués e fiéis e tão glamourizado por eles mesmos habituados à troca parcialíssima e reservadíssima de atrações, que costuma ter o amado Dona Zefa no comando e, quando não, o aclamado Mestrinho ou ainda o desejado Ó do Forró.
O domingo sempre foi assim: começou com Arleno Farias, que tinha seu séquito de seguidores quase religiosos atrás, depois veio o Bando de Maria, com o entusiasmo e vibração de um monte de fãs enlouquecidos e agora, com a mesma paixão, porém mais calma e concreta o Dona Zefa, tido no circuito como o autêntico forró para dançar. Os domingos têm dado certo e essa escolha tem sido sempre cuidadosa e preparada nos mínimos detalhes.
Quando resolvemos colocar Silvério Pessoa, foi para aproveitar a rara oportunidade de ele já estar aqui com a banda inteira, já que trazê-la é quase impossível devido ao alto preço das tarifas aéreas, mas tínhamos a certeza da qualidade e identificação com o domingo. Claro que poderíamos errar, afinal o engano, a apreciação mal feita faz parte, mas não foi o caso e dificilmente seria. Silvério é um craque, um artista nato, um gênio do seu estilo, um conhecedor profundo de música e não apenas da regional, onde é mais identificado. Costumo dizer, de foro íntimo, que para mim ele é o melhor resultado do movimento Mangue, pois embora mais regional, seus trabalhos sempre conversaram com os diversos ritmos atuais, assim como as suas releituras e composições próprias sempre tiveram uma alquimia perfeita entre o regional e o resto do mundo, coisa que também Alceu Valença faz muito bem desde sempre.
Quem quiser conhecer mais sugerimos especialmente dois CDs espetaculares, o Micróbio do Frevo, que faz uma releitura dos frevos de Jackson do Pandeiro campeões dos carnavais cariocas, sempre com intervenções rítmicas diferentes e ainda o CD Cabeça Elétrica Coração Acústico, desnecessário relatar algo diante de um titulo tão sugestivo.
No Canto da Ema, no domingo do Canto da Ema, Silvério foi brilhante, passeou pelo mundo de Jackson de uma maneira que o próprio assinaria embaixo; repertório, arranjos e postura em palco perfeitas, a divisão musical que fez em parte a fama do saudoso Paraibano estava inteira neste pernambucano com aparência de Jesus, sem perder sua própria maneira de ser e cantar.
Para completar, Silvério Pessoa nos brindou com cirandas deliciosas do acervo excepcional da cultura pernambucana, tudo isso com o público dançando o folguedo típico da Ilha de Itamaracá como se lá estivesse.
O motivo deste editorial não se deve a uma possível decepção quanto ao número de público, igual ao que sempre temos nos domingos ou à qualidade do show, que foi fantástica, com todo mundo dançando e pista sempre cheia, mas foi com a ausência de uma parte do público habitual do domingo que pareceu não acreditar na proposta.
O Canto da Ema tem uma filosofia clara: nós amamos o forró, e embora os gostos possam variar e nem sempre acertamos em cheio o gosto dos frequentadores assíduos, seria bom que quando trazemos alguém diferente, sobretudo um nordestino, que as pessoas dessem um voto de confiança, pois, como amantes do ritmo nós viajamos e pesquisamos muito e nem sempre apenas para os manjados lugares do forró do sudeste. Muitas vezes vamos à fonte, onde tudo foi construído e cunhado e de onde a maioria tira sua inspiração. Quando trazemos algo novo é porque achamos que realmente irá somar muito.
Acreditem em nós!

Paulinho Rosa  (Ago/2016)