MÚSICA OLIMPICA!
Salve Fernando Meireles, Ale Siqueira, Deborah Colker, Andrucha Waddington, Rosa Magalhães e quem mais tiver sido responsável pelas festas de abertura e encerramento dos jogos olímpicos.
Parece que quando a coisa é séria o Brasil se esmera e faz como deve ser feito. Não é à toa que Paulinho da Viola, Wilson das Neves, Jackson do Pandeiro, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Luiz Gonzaga, Tom Jobim e tantos outros estavam, de alguma forma, presentes à festa; era preciso fazer bonito.
A nossa cultura vai bem, mas vai mal também, aqui, como imagino que na maioria dos países, sobretudo os de dimensões gigantes. Tem o ótimo e o péssimo, definir cada um é complicado, já que muitas vezes depende de gostos pessoais, mas na hora de mostrar o Brasil ao mundo e ver a repercussão que a abertura conseguiu, devemos entender que as escolhas foram acertadas e que a nossa música foi muito bem representada.
Pena que não é assim sempre, pena que voltando à vidinha comum teremos que sofrer as mesmas exigências mercadológicas e os mesmos preconceitos. Se, por um lado, a força do dinheiro nos obriga a conviver com letras apelativas e de gosto, no mínimo, duvidoso, por outro precisamos aguentar o preconceito velado dos modernos de plantão quanto à tradicional música brasileira.
Aliás, preconceitos esses que existem sempre no Brasil e, na minha modesta opinião, é o pior modo de preconceito.
Aqui ninguém assume nada, ou raramente, salvo alguns políticos que exageram na intolerância de gênero; de resto a imensa maioria se diz acima de tudo isso. Será?
No Brasil todos se dão bem com as classes sociais, mas desde que seja um de um lado e o outro do outro; há um problema sério aí. Muita gente torce o nariz para os crescimentos das classes C e D. Já ouvi comentários vergonhosos em aeroportos sobre pessoas mais simples no vôos. Parece que muita gente preferiria vê-las enfrentando 30, 40 horas de ônibus a ter que dividir com elas filas de avião. Não menos sério é o preconceito racial. De forma condenável, o brasileiro branco, nutre de forma ainda relevante, preconceito racial sério.
Na cultura isso também acontece. É terrível de ver.

Descobri que nós, do forró e da cultura popular, somos uma minoria como tantas outras e que, como tantas outras, e já há bastante tempo, sofre dos mesmos preconceitos. Claro que é diferente do preconceito racial, óbvio que difere também do preconceito de gênero e de classe social, mas é preconceito e tão odioso que me deixa indignado da mesma forma. Até quando nós brasileiros teremos vergonha de nós mesmos?
Qual brasileiro somos? Aquele alegre, receptivo, que esbanja simpatia e felicidade, que é carismático e tem molejo, que joga bola, que tem todas as cores, que chora, ri, sofre, mas sempre tenta dar um jeito de, mesmo nas adversidades , vencer e encarar o mundo e as intempéries com bom humor, ou somos aqueles brasileiros dispostos a tudo para vencer, tudo mesmo, aquele que dá jeitinho para se dar bem, aquele que finge ser aberto, democrático, eclético, mas que raramente se assume como amante do externo, aquele que tem vergonha de ser um brasileiro típico, um brasileiro que fala mal do país sem ver as riquezas e maravilhas que tem, um brasileiro que vive aqui sonhando com Miami, um brasileiro que queria tudo, menos ser brasileiro. Existem esses dois estereótipos ou existem saladas dos dois nas mais diversas formas.
Ver as festas de abertura e encerramento dos jogos olímpicos me deu uma imensa felicidade. O que Fernando Meireles, Ale Siqueira, Deborah Colker, Andrucha Waddington, Rosa Magalhães e quem mais tiver sido responsável pelas festas fizeram foi nos colocar na condição de brasileiros que amam e se orgulham da cultura do país. Aquele primeiro modelo que tentei descrever.
Somos o país da miscigenação, somos o pais que recebe todos os povos, todas as etnias, religiões e modos de cultura, somos misturados e nossa cultura é misturada e, quando elas se fundem, independentemente do número de fusões , da direção que toma, de seja ela o que for, o resultado quase sempre é maravilhoso. O Brasil é lindo, mas é feio também; no Brasil de tantas coisas antagônicas e paradoxais , a cultura se vê um mix de conceitos, formas, expressões tão diversas quanto podem ser diversos os gostos das pessoas, mas é sempre possível pairar acima tranquilamente e analisar a história disso tudo, entender de onde vem, pra onde vai e o que influenciou o que.
Samba, Forró, choro são, inegavelmente, junto com alguns outros ritmos, nossos alicerces. Negar ou repudiar algum deles é, de certa forma, afirmar que não gosta da nossa música, o que devemos respeitar, mas que venha sim, com verdades e não como velado preconceito, o qual permeia grande parte de nossa população.
O orgulho de ver Jackson e Gonzaga sendo lembrado junto do sempre merecidíssimo e cultuado Tom Jobim, é impagável, assim como é impagável ver o ritmo ganhando espaço na TV.
Em que momento da história será que se perdeu a ideia de que o comercial não necessita ser exatamente popularesco, apelativo, beirando o mal gosto (no sentido de escrachado e sem conteúdo); quando será que perdemos as músicas dos festivais da Record que tocavam nas rádios exaustivamente e estava na boca de todos com Chico Buarque, Edu Lobo, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Elis Regina, Jair Rodrigues e tantos outros para cair na efêmera e fugaz aparição de relâmpagos de sucesso que somem por falta de solidez e qualidade, pois tivemos avalanches como: Bonde do Tigrão, Calypso, Valeska Poposuda e etc e todos acabaram como apareceram, sumiram. Em que momento alguém conseguiu impor a ideia de que as bandas, músicos, cantores e cantoras gringas são melhores que os nossos? Grande parte deles são incríveis mesmo e que bom que da década de 80 para cá tenham descoberto o Brasil e que uma grande parte deles aporte aqui com regularidade. É bom ver o que é bom, mas aqui também temos bandas, músicos, cantores e cantoras incríveis e, se derem espaço, a gente encanta. Na Olimpíada deram e encantamos! Que tal pensar nisso?



Paulinho Rosa   (Set/2016)