Parafuso, uma era chegando ao fim....
O FORRÓ, embora seja um dos alicerces da música brasileira não é tão antigo assim: data da década de 40 do século passado, ou seja, nem cem anos tem ainda.
É bem verdade que o ritmo já existia sem forma definida, espalhado por aqui e acolá, sobretudo no nordeste brasileiro, mas vinha de influências estrangeiras, em uma mistura complicada, e sem acabamento que o definisse como um gênero musical, coisa que só veio a acontecer quando um senhor chamado Luiz Gonzaga do Nascimento, em pleno Rio de Janeiro, resolveu mostrar aos conterrâneos nordestinos algo que lhes lembrasse suas origens. Assim nascia o baião, o xote, o forró, o rojão etc.
Luiz foi o grande precursor, logo acompanhado de inúmeros músicos na sua cola,: Jackson do pandeiro, Marinês, Genival Lacerda, Dominguinhos, Humberto Teixeira, etc etc.
Da sua inspiração surgiu a formação clássica do trio de forró: ele, sanfoneiro, ficaria no meio e teria ao seu lado direito, colado no seu teclado um som mais grave, o da zabumba, que ditaria o ritmo; do lado esquerdo, junto aos baixos de seu instrumento, o triângulo para equilibrar graves e agudos.
Esse modelo virou referência e até hoje é a cara do forró. O trio, com esse nome "trio", que fez mais sucesso até hoje foi o Trio Nordestino. O mesmo que ainda anda por ai desfilando alegria e boa música com Beto Souza, Luiz Mario e Coroneto (já de saída). Mas, na época, lá estavam Cobrinha, Lindu e Coroné como protagonistas e sucessos inesgotáveis, como o disco "Procurando Tu "que vendeu pouco mais de um milhão de cópias.
O sucesso foi tanto que vários trios proliferaram pelo país, quase todos se rendendo ao encanto do Nordestino. Mas teve um deles, um tal de Os 3 do Nordeste que ousou chamar e dividir a atenção, isso devido à energia, à força, à alegria e às musicas contagiantes que tocavam. Na formação desse trio, um dos componentes nunca se alterou nessas pouco mais de quatro décadas: eles tinham um certo zabumbeiro que fora um dos idealizadores do trio e que ditou o ritmo desse quase tsunami de forró que eram Os 3 do Nordeste. O nome dele? PARAFUSO.
Pois então. Foi ele, o Parafuso, o único remanescente do trio original até o 2016, que agora, com mais de 70 anos, se propunha a viagens extenuantes e shows seguidos; era este setentão que mantinha alta a velocidade do trio, como sempre foi, e que fez a paixão de inúmeros forrozeiros; era ele quem se colocava sempre elegante, com roupas vistosas, promovendo o trio e respeitando seu público, era esse mesmo o Parafuso que tinha o olhar atento ao que sempre fora a marca registrada de Os 3 do Nordeste: nunca deixar cair a cadência, a qualidade, a forma dançante com que impunha a sua música e seu legado. Parafuso era um contador de historias, um cara direto que falava com orgulho da longa e vitoriosa carreira. Foi Parafuso que se foi neste mês de outubro, deixando-nos a clara sensação de que uma época de ouro do FORRÓ vai se acabando.
Parafuso já havia falado com tristeza da perda de companheiros de estrada, companheiros de festejos juninos, companheiros que fizeram a música do nordeste respeitada e conhecida em todo o país e que tinham a ele, Parafuso, como um dos últimos remanescentes de uma época realmente importante que deu o impulso ao ritmo.
A tristeza só não é maior porque as novas gerações são promissoras demais, os novos zabumbeiros, inspirados em parte em Parafuso, também têm claras ressonâncias de que farão história no ritmo, tal qual o seu mentor. A esperança de bons momentos e de continuidade se assenta sobretudo em que Parafuso tinha um sonho de Os 3 do Nordeste e todos nós, amantes do forró e conhecedores de um pouco dos bastidores do trio, sabemos que, de alguma maneira, haverá forrozeiros que darão continuidade a ele e ao seu sonho. O legado de Os 3 do Nordeste, sob a eterna influência do nosso já saudoso Parafuso, sobreviverá e ficará ainda conosco por muito tempo! Afinal é Proibido Cochilar....
Fique bem Parafuso, tem muita gente aqui cuidando do seu forró e de Os 3 do Nordeste!
Paulinho Rosa  (Out/2016)