ONDE ESTAMOS, QUEM SOMOS?
As vezes, como forrozeiro, sinto-me como um refugiado sem pátria, sem endereço, sem um lugar pra dizer que é meu.
Talvez poucas dores sejam tão grandes quanto as dos refugiados, o não poder voltar pra casa, a falta de endereço, o nunca se sentir acolhido, os cheiros, pessoas, e línguas que nossos sentidos mais familiares não reconhecem, a ausência ou estranheza de memória afetiva, os sentidos que nosso cérebro não identificam, tudo isso acaba não permitindo que o coração esquente.
O forró, aparentemente, pelo sucesso que conseguiu não ocupa o inglório, mas sim um respeitado e admirado lugar na cultura popular; por outro lado, devido a falta de sucesso, também encontra-se aquém, a quilômetros de distancia dos hits midiáticos que são ricos, que aparecem nas tevês e vendem zilhões.
É um lugar obscuro, não sendo abraçado por nenhum dos dois lados e tendo que correr quase sempre solitário em busca de espaço.
Isso já foi diferente. Lá no começo do movimento que ficou conhecido como forró universitário, quando éramos "cults", fazíamos sucesso, vínhamos na esteira de Gonzaga e Jackson, tínhamos Dominguinhos como grande mestre e éramos, sobretudo, uma novidade em uma faixa etária e classe social que, historicamente, ou pelo menos nos últimos 37 anos, desde o surgimento da Bossa Nova, se acostumou a ser brega e escanteado.
Naquele começo, por volta de 1995 quando fomos "descobertos", a vida virou e, pertencentes à cultura popular desprovida de mídia e espaço, éramos todos muito bacanas. O Trio Virgulino, expoente desse movimento desde o inicio, era aclamado por poucos, já que a cultura popular, embora não devesse, é sempre reverenciada apenas por um mínimo de pessoas. Mas essas pessoas são sempre influentes, sempre formadoras de opinião intelectual.
O Trio Virgulino ganhou adeptos, e junto com ele o Trio Sabiá, Miltinho Edilberto e Trio Xamego que tocaram o barco até que em 1999 a Falamansa explodiu, e junto com ela o Bicho de Pé, o Rastapé e o Peixelétrio. Subitamente nos vimos passar de ícone da cultura popular a ser modinha e se, por um lado, ganhamos muito espaço em eventos e festas em geral, por outras perdemos o status cultural bacana que tínhamos.
Nunca entendi por que ser popular inibe o conceito de cultural....
O sucesso ainda levou alguns anos, muito poucos e, rapidamente, a nova moda midiática tomou o lugar do forró e nos deixou no limbo, sem apreciação como cultura popular emergente e sem o dinheiro, o público e a mídia do sucesso de massa.
As inúmeras casas que abriram na época do sucesso fecharam, as inúmeras bandas que apareceram sumiram, ficou quem amava o ritmo, sobrou quem realmente tinha competência no trabalho, criatividade nas propostas e perseverança na história criada por Luiz Gonzaga.
De um mundo que parecia abrir todas as portas, vimos, inesperadamente, todas se fecharem, inclusive as que já estavam abertas.
Resumindo, não há lugar para o FORRÓ.
Nos eventos de cultura popular, aparecemos de forma pouco confortável, nos grandes eventos somos ignorados. Para piorar um pouco a situação alguns outros ritmos e algumas bandas de um ritmo desconhecido e ainda não intitulado, decidiu usar o nome FORRÓ, complicando ainda mais uma situação que já não se mostrava muito fácil nem cômoda.
O FORRÓ é um dos ritmos importantes nacionais, um dos ritmos da cultura popular que se moldou no nordeste e virou conhecido no mundo todo. É um ritmo variado, dentro dele tem alguns outros, cada um com identidade própria e origem diferente; alguns claramente discípulos de parentes estrangeiros, outros que se adaptaram ao formato e ginga proposto já em terras brasileiras, mas todos, com um só nome: FORRÓ, ritmo que serve como uma das identidades culturais mais claras do nosso país.
Identidade que vem sendo descoberta pelo mundo todo, desde países antes inimagináveis como: Canada, Finlândia e Rússia, até os latinos, nossos parentes- irmãos. Por essas bandas, o forró ainda é visto, de certa forma, como exótico, uma visão similar aos olhares que são direcionados à cultura popular de forma geral, mas que tende a crescer. E, se isso acontecer, tomara que lá, ao contrário daqui, consiga uma projeção mundial sem perder o lugar que ocupa como um ritmo da cultura popular brasileira, e que se mantenha por muito tempo na mídia e na moda, pois o FORRÓ merece um lugar importante no globo e as pessoas, das mais variadas nações merecem conhecer, ouvir, dançar e viver o FORRÓ!
Paulinho Rosa   (Nov/2016)