Os Rumos do Forró
Era início dos anos 90 e resolvemos fazer algumas festas em que o FORRÓ, aquele estranho, exótico, e cafona ritmo popular brasileiro entraria no meio, desapercebido. Mas tinha que ser no meio mesmo e muito desapercebido para ninguém sair correndo da festa.
Naquele tempo, o FORRÓ tinha poucos adeptos, salvo os migrantes nordestinos de baixa renda. Os de renda mais avantajada faziam questão de ignorar, mas o ritmo ainda dava as caras, e tinha entrada, com certo apreço, nos espaços intelectuais de esquerda, principalmente naqueles que defendiam o Nordeste e principalmente os nordestinos, valorizando a cultura deles.
Quem defendia o ritmo da Bahia para cima, eram também alguns músicos da antiga tropicália, na maioria baianos, para quem a saudade afetiva dos festejos juninos estava ligada à figura de Luiz Gonzaga, grande nome da música brasileira. Gonzaga pertencia à adolescência efervescente deles, e era isso que os fazia gostar e enaltecer o ritmo que havia caído em desgraça com o surgimento da Bossa Nova e da Jovem Guarda.
A sanfona havia perdido espaço para o banquinho e o violão e também para as guitarras; Gonzaga se mandou para o interior e muitos sanfoneiros passaram para o teclado afim de ganhar o dinheiro para o dia a dia. Pouco depois viria o chamado FORRÓ malícia, que jogou de vez o ritmo e seus fãs e seguidores para o limbo como algo brega, cafona ou algo quase desprezível.
Foi nesse contexto que começamos a cultivar e a divulgar o FORRÓ. Entre meus amigos, eu era alvo de chacota; no meio dos forrós era um ser estranho; era um cara completamente fora do lugar no espaço e no meio por onde eu perambulava, mas a paixão me fez ficar; virou um amor incondicional e não mais larguei o ritmo.
Em 1995, comecei a fazer forró semanalmente, em um espaço em Pinheiros, pouco depois do Trio Virgulino ter começado no segundo semestre de 94. Já em maio de 1995, o ritmo explodiu entre jovens da classe média paulistana, mais de 1000 pessoas por dia entre quinta e domingo visitava o espaço dando início ao movimento que se chamou Forró Universitário.
Foi uma época de muito aprendizado e conquistas, época de restauração de um ritmo que havia sido abandonado ao acaso. Foi nesse momento que ocorreu o ressurgimento de inúmeros músicos nordestinos que haviam sido engolidos pela metrópole, a qual se dizia cosmopolita, mas que, na época, era ainda provinciana e cheia de preconceitos.
Parece que provinciana deixou de ser....
De lá para cá tudo mudou muito. Uma banda de forró, fruto do que havíamos começado lá atrás, tomou conta do país e influenciou toda uma geração. Os músicos nordestinos, antes escondidos sobretudo na construção civil, retomaram as posses de seus zabumbas, triângulos e sanfonas. Muitos jovens trocaram as bandas de rock de garagem pelas bandas de forró urbanos e o ritmo começou a ganhar espaço. Inúmeras casas abriram e fecharam as portas. Produtores se multiplicaram na mesma dose em que se extinguiam, pois, às vezes, o "amor" dura o tempo de assédio e da força do dinheiro.
Ficou quem amava de fato, embora os aventureiros continuem aparecendo.
Hoje temos um cenário, nem tão desolador quanto o que pegamos e nem tão frenético quanto o que prometia no início do milênio.
Paulinho Rosa   (Fev/2017)