Eu Quero é Botar O Forró na Rua!
No Brasil todo, virou o ano, passamos a viver o carnaval; a transferência é imediata, uma verdadeira catarse de euforia toma conta de quase todo o povo brasileiro que se planeja para a grande festa nacional.
Aqui, no sudeste, também é assim. O carnaval é tratado como um dos grandes momentos do ano, festa das mais esperadas. A grande diferença é que só teremos efetivamente uma festa grande de novo no natal, bem diferente do que ocorre na região norte e nordeste do país.
Lá, os festejos juninos rivalizam de igual para igual em tamanho e animação com o reinado de Momo, sendo que, para muitos, é uma data ainda mais comemorada, vivida e festejada do que o carnaval.
O calendário do forró sempre foi baseado nos festejos juninos, pois a referência ao ritmo é mais direta quando chega a época de Santo Antônio, São João e São Pedro. É óbvio, então, que a força e impulso que o forró ganha aconteça de forma mais clara no nordeste, pois, findado o carnaval, o repertório das rádios, assim como as vestimentas e até os alimentos começam a ter novos rumos, direcionados já para as festas e quermesses do mês de inverno.
No sudeste, o carnaval tem e sempre teve um foco muito maior; em festejo junino reparamos pouco e, salvo as escolas e uma ou outra igreja e clube, a população em geral passa incólume a essa que é uma das festas mais tradicionais do calendário brasileiro.
Pensando nisso tudo e na maneira do paulista ver as festas nacionais é que decidimos, no carnaval, botar o bloco na rua. Se o São João não tem a força que merecia ter em nossa cidade resolvemos invadir as festas alheias e colocar o forró em mais uma das importantes manifestações culturais da cidade, assim como já havíamos feito com o Centenário de Gonzaga, que parece ter virado um São João fora de época e, mais recentemente, com a Virada Cultural, quando conseguimos, após revirar mundos e fundos, fazer acontecer um palco de forró, mesmo com a pequena estrutura e os parcos recursos que tínhamos.
A invasão do forró no carnaval, se deu, na verdade, na semana pré-carnaval quando resolvemos soltar a Ema gemeu de canto a canto, do Canto da Ema até o bar Canto Madalena, delicioso boteco que oferece comidas ainda mais deliciosas e que tem, em seus proprietários, uma maneira similar à nossa de ver a cultura brasileira e a necessidade de ter o forró sempre forte e presente.
O Bloco foi pensado faz muito tempo, mas o tempo de execução foi de apenas quatro dias, período em que conseguimos fazer um lindo estandarte, a logomarca, definir músicos, arrumar carro de som e ainda fazer um pequena divulgação, o suficiente para termos um público apaixonado, animado, que movimentou a Vila Madalena, até então quieta, naquele sábado cinzento da cidade.
Saímos com um pequeno carro de som, mais sanfona, zabumba, triângulo e agogô, por vezes cavaco e, ainda, com dois puxadores de primeira, definimos o que seria o hino do bloco e lá fomos nós, encarando de cara uma travessia em plena Avenida Brigadeiro Faria Lima e seguindo até o coração da Vila Madalena, bem no meio dos bares lotados e de tradição sambista. Sem querer nenhum tipo de confronto cultural, mesmo porque também amamos o samba, passamos com o nosso forró sem pedir licença, apenas com a alegria e a magia que o ritmo tem.
No meio do trajeto, fomos abordados pela Rede Globo, também entusiasmada com a alegria e beleza do que fazíamos, que nos filmou e entrevistou para depois passar diversas vezes, não apenas no SPTV, mas como em programas a respeito de carnaval durante todo o feriado.
Quase duas horas depois, que pareceram bem menos, chegamos ao nosso destino. Lá fizemos uma grande apoteose com as pessoas dançando como se estivessem em um baile, uma festa de São João, um casa de forró, um Canto da Ema.
Foi uma alegria imensa fazer o bloco; gastamos dinheiro, ficamos cansados, passamos por preocupações, mas temos a certeza de que marcamos mais um ponto para o ritmo. Em vez de apenas chorar o apoio da mídia e a falta de espaços, resolvemos agir e, tal como nos exemplos da Virada e de São João, a forma que encontramos para chegar ao público que ainda não conhece ou tem pouca relação com o ritmo foi assim, colocando o bloco na rua.
O bom mesmo da Ema Gemeu de Canto a Canto, mesmo com tudo o que escrevi acima, é que foi uma deliciosa brincadeira de carnaval, aproveitamos para nos prepararmos anunciando já a proximidade do São João. Quem sabe uma sementinha tenha sido plantada?
Quanto ao bloco, se preparem, o ano que vem vai ser ainda melhor!
Paulinho Rosa  (Mar/2014)