Vale Tudo
Semana passada dois acontecimentos me chamaram muito a atenção; um foi o abraço de Lula e Maluf, o outro foi o começo na Rede Globo da minissérie ou novela Gabriela. Ambos me trouxeram à cabeça uma frase da deputada Luiza Erundina sobre o "vale tudo".
Não sou expert de política e nem de novela, mas prefiro falar da segunda.
Eu, que já tenho idade mais avançada e vi um pouco da primeira versão da novela filmada na década de 70, fiquei deslumbrado com esta nova, muito com as imagens, a sedução da Juliana Paes no papel principal, mas, sobretudo embriagado pela trilha sonora.
Ouvir Gal Costa cantando "Gabriela" ou Djavan "Alegre Menina" é uma benção para ouvidos acostumados aos tecno bregas e sertanejos comerciais das outras novelas. É claro que vez por outra temos algumas boas exceções nesses folhetins televisivos como Vanessa da Mata, Lenine e Martinália que ouvi mais recentemente em outras produções da emissora, mas nada, nem de perto, comparável ao conjunto da obra do que é a trilha sonora da minissérie. É de certa forma a mesma trilha da produção anterior, o que já facilitou bastante, mas como diretores e elenco são outros, era de se esperar qualquer coisa. Até o vale tudo pra conseguir mais dinheiro, mas não optaram pelo óbvio, que nesse caso foi ótimo, pela beleza extrema daquelas músicas que casam excepcionalmente bem com as imagens. Brasil com cara de Brasil.
É incrível como excelentes produções de dramaturgia no Brasil pecam quando escolhem trilha sonora. É bem verdade que gosto é gosto e isso é sempre discutível, mas o Brasil tem uma tradição, assim como qualquer país do mundo. Temos uma história na nossa música popular e isso tem que ser valorizado. Colocar a Gabriela, com sua morenisse brejeira, no escaldante sol baiano ao som de rock, Calipso, lambada, brega ou até no agitado axé, desmancharia a imagem, assim como uma calda de chocolate acabaria com uma feijoada e veja bem, nesse exemplo ambos são bons, mas impossível pensar em misturar.
A Rede Globo que às vezes vende tão bem as imagens do Barsil, poderia aproveitar pra vender melhor a mais tradicional música brasileira.
Não falo em colocar só Noel Rosa, Cartola, Chico Buarque, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Capiba e Villa Lobos, mas esse pessoal mais jovem que aí está, como os que já citei anteriormente (Vanessa da Mata, Lenine, Martinália), mas também Roberta Sá, Maria Gadu, Zeca Baleiro e etc. que fazem a música brasileira seguir suas tradições mais fortes.
Por outro lado existe uma certa coerência de colocar esses ritmos atuais junto de enredos que se passam nos centros urbanos contemporâneos , já que é exatamente isso que ouvimos ou que nos obrigam a ouvir. E é nesse ponto que me apego, nunca sei se ouvimos o que está por aí hoje em dia porque as produções colocaram lá por ser mais popular e assim agregar mais pessoas para a produção ou se as tais músicas ficaram mais populares por terem sido lá colocadas devido a jabás* muito altos (*paga-se para determinada música entrar na trilha). O que vejo é que quando a produção é mais cuidada e claramente objetivando um mercado de melhor poder aquisitivo, a trilha também é mais cuidada. Será que se o tipo de trilha colocado em Gabriela recheasse as demais novelas das emissoras o que seria popular não seria a nossa tradicional MPB?
Os enredos das novelas que se passam nos subúrbios e bairros nobres das grandes cidades têm quase sempre como trilha esse popularesco fácil, mas algumas das produções mais inesquecíveis e que se tornaram verdadeiros clássicos se passavam em cidades do interior e com trilhas com clássicos da nossa MPB e, vejam só, em alguns exemplos com muito forró. Casos de Roque Santeiro, Tiêta do Agreste e a própria Gabriela.
As atuais músicas das novelas e principalmente seus intérpretes duram o tempo do sucesso da produção ou da música, pois somem no minuto seguinte. Djavan de "Alegre Menina" e a Gal de "Gabriela" estão no mercado faz mais de 30 anos e, provavelmente, continuarão no mínimo por mais 30.
É o mesmo que acontece com o forró, Luiz Gonzaga e sua Asa Branca existe há bem mais que meio século e ficarão eternamente.
Será que haverá comemoração do centenário de Michel Teló como se fala hoje sobre Gonzagão?
O vale tudo dos produtores que colocam qualquer coisa pra faturar mais grana está deteriorando uma das mais bonitas culturas populares do mundo, esse mesmo vale tudo que vemos em quase tudo neste país e que um dia esperamos acabar, seja na política, na dramaturgia e também na música. Um dia forró será só forró e não forró eletrônico, de plástico ou como quiserem chamar.
Parabéns a Jorge Amado pela linda obra, parabéns ao responsável pela trilha sonora, parabéns ao Brasil por ter tanta coisa bonita.
O Canto da Ema continuará sempre contra o vale tudo e dessa vez prestigiando o Luiz , mas dessa vez só o Gonzaga!
Paulinho Rosa  (Jul/2012)