Somos Exóticos
Dia desses estava ouvindo rádio e uma entrevista me chamou a atenção, não lembro o nome da pessoa, nem exatamente a função, mas era de um dos organizadores e responsáveis pela São Paulo Fashion Week, semana de moda que acontece na cidade e que, segundo o entrevistado, é um dos 10 mais importantes eventos da moda mundial. Para ele, o momento do Brasil no segmento é fantástico, pois o país ganhou credibilidade, não apenas devido ao crescimento econômico, mas também por deixar certo exotismo de lado; hoje o mundo não nos vê mais como um país com arara, macacos e até, veja a ignorância, com elefantes andando pelas ruas, o que eu achei muito bom, mas que também vê a moda brasileira globalizada e seguindo tendências internacionais, o que acho que podemos entender como: respeitáveis e compreensivos subalternos da moda ditada na Europa e Estados Unidos, e isso me preocupou muito.
Nunca vi problemas em sermos vistos como exóticos por países do velho mundo e também pelos filhos do Tio Sam, na verdade sempre gostei, assim como as coisas deles seriam exóticas para nós não fosse a influencia gritante, e por que não gostosa, de filmes, seriados etc. O diferente e desconhecido quase sempre é exótico, a globalização diminui, mas não deveria minar as características de um povo e sua cultura.
Quando alguém vem a São Paulo e procura uma comida típica brasileira, provavelmente achará um sushi ou um Mac Donalds, claro, como se quiser uma balada bem transada e que os brasileiros adoram, sem duvida encontrarão uma casa de música eletrônica bem típica.
Essa é a nossa cara atual, globalizada e dentro dos padrões que o diretor da fashion week aprova. Eu já prefiro quando vejo o encontro de presidentes e lá observamos os africanos nas suas batas lindas, exuberantes, coloridas típicas da cultura deles e exóticas para nós todos, enquanto nossos globalizados governantes andam com ternos e gravatas típicos (!!!) de países tropicais.
No futebol, vem acontecendo uma coisa parecida. Em 1982, nossa seleção jogava por música, toque de pé em pé, algum dribles geniais e muitas jogadas lindas, essa seleção desfilou em campos espanhóis arrancando aplausos e suspiros de todos. Olhando o Barcelona hoje, penso que talvez tenhamos plantado uma sementinha ali. Pois bem, em um jogo fatídico em que um erro de passe e um azar danado, uma cobrança de escanteio acabou por nos fazer perder da Itália da época, que tinha um jogo pragmático, chato, feio, defensivo e sem graça. Como perdemos e a estória é contada por ganhadores, resolvemos criar o famoso e odioso conceito que é melhor jogar feio e ganhar do que jogar bonito e perder. Conseqüência: deixamos nosso exótico jogo de lado e fomos copiar os europeus. Hoje o Barcelona nos copia, ou copia o que fazíamos antes e o resultado todos sabem.
Falo tudo isso para chegar à nossa cultura. Ouvir e dar espaço ao que vem de fora é ótimo, receber influência das diversas culturas enriquece, poder conhecer o que se faz de bom além de nossas fronteiras é salutar, fazer fusões, juntando ritmos, temperos, táticas, sons e seja lá o que for com as nossas coisas, tem dado alguns resultados deliciosos, mas perder nossas características exóticas é que me assusta. É fundamental termos nossa cultura sempre em natura, independente do que recebamos de fora ou do que transformamos, pois ela é base que nos sustenta e nos traz a essência. Vejo a cara de felicidade, espanto e admiração de estrangeiros que por vezes chegam ao Canto da Ema. Percebo como ficam maravilhados com a proximidade dos corpos se movimentando ao ritmo de músicas deliciosamente balançadas. Essa é a nossa cara, com todas as meninas de vestidinhos, shorts, saias e regatinhas bem leves e quase sempre sem maquiagem, com nossa beleza exótica bem à mostra, enquanto os homens de bermudas e camisetas, em pique bem brasileiro; que me perdoem os estilistas de plantão.
O Brasil é um país jovem e, de uma forma ou de outra, sempre o que fazemos tem algo que herdamos de todos os nossos colonizadores ou de todos os que vieram para cá atrás na nossa maneira de viver e que, de alguma forma, contribuíram para a nossa cultura, Mas tudo isso, durante tanto tempo, acabou se moldando a um jeitinho nosso, que nada mais é a cara do Brasil, um jeito exótico perante os olhos gringos.
Adoro esse exotismo, assim como adoro o samba e o nosso carnaval variado, como Salvador, Rio de Janeiro e Olinda, cada um de um jeito com feições bem diferentes e todos bem exóticos aos olhos gringos.( Já pensou fazermos um carnaval ao estilo de Veneza?)
Tudo isso impressiona lá fora, talvez incomode quem queira ser Europeu ou americano, mas, para esses casos, sugiro uma passagem de avião, pois aqui, no Brasil, temos cultura popular de sobra para fazer o nosso futebol, nossa comida, nossa moda e, com certeza nossa cultura, se possível com muito frevo, maracatu, samba e forró!
Paulinho Rosa  (Fev/2012)