Gudi Naite
Aqui neste espaço já reclamei outras vezes do complexo de vira-lata que temos diante de outros países. Quase que em todos os setores da nossa república tupiniquim parece que sempre damos muito mais valor ao que vem de fora de nossas fronteiras do que reconhecemos o que o nosso talentoso povo faz de bom. Claro que podia aqui ficar discorrendo sobre diversos exemplos, mas prefiro falar de música, mais especificamente de forró.
Antes de entrar no ritmo que "seo" Luiz Gonzaga criou quero falar de uma outra música que há pouco tempo descobri a existência. Alguém sabia que Villa Lobos e Manuel Bandeira compuseram uma música para datas de aniversário? Que para escapar do 'Happy Birthday' ou 'Parabéns a Você' traduzido, eles pensaram em algo mais com cara de Brasil e tão ou mais bonita que a tradicional canção que todos sabemos?
Mas porque será que a música de um dos mais geniais músicos de todos os tempos, um brasileiro que é reconhecido no mundo todo e que se aliou a um dos maiores poetas da língua portuguesa e que juntos fizeram uma linda toada para datas comemorativas sempre foram esquecidos ou ignorados?
Talvez pelo mesmo motivo que o U2 lota o Maracanã e o Edu Lobo dificilmente lotaria uma casa com umas 4 mil pessoas. O U2 é gringo e amamos as coisas gringas, amamos andar com a bandeira americana, usar palavras em inglês, comer em fast foods e vibramos quando os artistas vêm pra cá e falam "boa noite" naquele português peba e todo errado. Quando fazem isso agradecemos, aplaudimos e os achamos super legais. Simpáticos não? Olha, ele se esforçou para falar nossa língua... uma frase, na verdade duas palavras.
Não acho que ninguém deva gostar mais de samba ou forró que de rock, mas acho que se a mídia que sempre se posta tão intelectual e moderna desse mais espaço a esses ritmos, que tratassem nossos artistas com a mesma reverência com que trata os de fora e que fizéssemos o mesmo barulho com os representantes do nosso ritmo, essa igualdade viria sem esforço e teríamos um "boa noite" nos shows mais fácil e inteligível.
O U2, a Shakira, Madonna e até Paul Macartney são geniais e aqui não discuto a qualidade deles, mas não vejo em que sobrepõem Chico Buarque, Caetano Veloso, Dominguinhos ou Marisa Monte. Alguém vai falar que eles são importantes pro mundo todo e que mudaram comportamentos e influenciaram gerações, e é verdade, principalmente no caso de Sir Paul, mas isso acontece porque a língua dominante no mundo é inglesa, a potência do momento histórico é os EUA e o mundo quase que todo também é um pouco vira-lata. A história diz que existem impérios que acabam por influenciar todas as culturas, foi assim com a Grécia, com Roma e agora é a vez dos filhos do Tio Sam. Como não posso falar pelo mundo, mas posso me rebelar como brasileiro, tenho um argumento pra mim inquestionável para que possamos sair deste complexo. Que outro país do mundo tem a quantidade com qualidade de nossos artistas?
Já pensou que delícia os americanos tentando invadir os hotéis em Malibu pra ver a Martinalia e Vanessa da Mata ou fazendo filas gigantescas em frente ao Madson Square Garden para assistir ao Dominguinhos tocando? Sinceramente, é tão melhor assim dançar e cantar 'Sunday Bloody Sunday' do que 'Pedras que Cantam'? O que a letra da música do U2 tem com a nossa realidade para que cantemos com tanto fervor e amemos tanto? Já 'Pedras que Cantam' talvez seja mais fácil a gente compreender e sentir na pele do que se fala. O domingo sangrento deles que adoram fazer guerras e tem suas próprias tragédias como o do tema a qual a letra se refere nos toca mais do que a desigualdade da nossa sociedade, ou seja, até a dor deles nós sentimos mais que a nossa, vai entender...
E dançar juntinho? Coisa que eles esqueceram faz tempo e que tem a ver com o comportamento frio e distante que sempre criticamos. No rock eles pulam, gritam, sacodem as cabeças e se chacoalham inteiros. No forró a gente abraça a cintura, encosta o rosto, cheira o cangote, e se mexe corpo com corpo no ritmo da música, exatamente refletindo o comportamento quente do povo brasileiro. Mas, na hora dos shows grandes de verdade lá vamos nós pagar fortunas para fazer o que eles vendem e nós compramos.
Há alguns anos no Canto da Ema, já indignados com essa situação, resolvemos brincar e criamos uma camiseta escrita "Não Se Avexe" em contrapartida à moda dominante das camisetas da época que vinham estampadas com um "No Stress".
Volto a dizer nada tenho contra coisas do exterior, mesmo porque adoro viajar para lá assim como adoro os destinos nacionais, tenho menos coisas contra ainda quando o que vem de fora é ligado à cultura, seja ela literatura, música, teatro, cinema, dança ou qualquer outro item, afinal cultura é cultura e intercâmbio é muito bom. Não acho saudável criar um clima nacionalista perigoso. Também não acho que criar leis ou qualquer modo artificial de proteção faria bem, pois seria quase como reconhecer uma deficiência do que produzimos e é justamente o contrário que acontece e é isso que combato aqui, fazemos muita cultura e com qualidade excepcional, o que acho é que está na hora de perdermos esse mania de ficar babando para as coisas de fora e aproveitarmos a onda do bom momento econômico e passarmos nós, a invadir culturalmente o mundo. Acho até que ele (o mundo) está precisando.
Se o pessoal da mídia especializada ajudar e os moderninhos de plantão também, quem sabe, daqui a alguns anos, em Berlin, Sidney ou Nova Iorque, a gente de passagem ouça de longe um show gigante e um artista brasileiro cumprimentando o público com um inglês bem peba: Gudi Naite!
Paulinho Rosa  (Dez/2011)