Fevereiro Chegou...
Confesso que estava com receio da chegada de fevereiro, um mês sempre muito esperado, com uma ansiedade até exagerada, mas que agora sinto de forma reticente e os motivos de ambos os sentimentos são os mesmos: o aniversário de Dominguinhos.
O sentimento paradoxal deve-se ao fato de ele não estar mais conosco; se antes era óbvio o que faríamos, agora ficamos um pouco sem saber...
Essa história começou há 13 anos, exatamente quando, em 2001, pouco antes do dia 12 de fevereiro, perguntei ao nosso grande sanfoneiro o que faria no dia do aniversário de 60 anos. A resposta foi direta: disse, com certo desânimo e consternação, que não iria fazer absolutamente nada, que ficaria em casa sem festa ou comemoração.
Fã, amigo, seguidor e mais ou menos puxa-saco assumido, propus então fazermos uma festa no Canto da Ema; afinal, uma data como essa, 60 anos de um artista do quilate de Dominguinhos, não poderia passar em branco de forma alguma. A resposta, eu não esperava: ele aceitou na hora a ideia de festa, com show, dele próprio.
Começava ali uma tradição que durou vários anos, quase todos, até o fatídico 2013, quando ele nos deixou.
Naquele primeiro ano, a festa talvez tenha sido a mais surpreendente, não sei se a melhor, pois cada uma teve algo de muito emocionante, mas talvez por ter sido a primeira e pela dimensão que acabou tomando, marcou de forma inesquecível. Trouxemos para o palco uma verdadeira constelação de músicos dos mais importantes do país, entre eles: Osvaldinho do Acordeón, Toninho Ferragutti, Heraldo do Monte, Dió de Araujo, Fuba de Taperoá, Zezum, João Neto, Lau, Chicão Midori, Dido entre outros. Além destes, Trio Xamego, Trio Sabiá, Triângulo Caraíva e a explosão do momento, Falamansa, fizeram a abertura do forró.
Foram várias horas de festa que teve também a participação de Sebastião Marinho, renomado repentista que criou versos sensíveis e emocionantes sobre a vida e obra de Dominguinhos.
Depois da apresentação das bandas de entrada, chegou a hora do homenageado se apresentar no palco. Embora os verdadeiros homenageados tenham sido todos os que o escutaram, Dominguinhos subiu feliz da vida ao lado dos amigos para fazer o que mais sabia e gostava: Forró!
Como sempre, alternou músicas próprias com as composições clássicas de Gonzaga, e alternou também os amigos que subiam ao palco.
Durante um bom período, o evento transcorreu dessa forma, nosso mestre tocando e as canjas sucessivas, até que uma surpresa que havíamos preparado foi anunciada, o seu grande amigo e, tal qual ele, um gênio da música , Hermeto Pascoal entrou no palco sem que ele soubesse da presença do ilustre multi-instrumentista. A alegria era visível na face de ambos, Hermeto, que fazia um show no SESC, topara ser a cereja do bolo de uma festa que já parecia incrível só pelos nomes que tínhamos, pela data e pelo personagem principal.
Dominguinhos e Hermeto tocaram juntos, Dominguinhos com sua clássica e sempre bonita sanfona de 120 baixos e Hermeto no seu 8 baixos que faz chover. Tudo isso com alternância de solos deles e de Heraldo do Monte, Ferragutti, Osvaldinho e etc.
O palco do Canto da Ema, que já era pequeno, ficou minúsculo, mas ganhou, nesse dia, definitivamente, um momento histórico. Acho que a casa passou a ter alma ali, na presença dos grandes gênios que se juntaram pela música, pela amizade, pelo forró e , sobretudo, por Dominguinhos.
Por isso, acabamos decidindo continuar a tradição e fazer a festa. No próximo dia 12, o nosso palco, que já recebeu tantas histórias bonitas, terá mais uma página para contar e, mais uma vez, Dominguinhos será diretamente responsável, pois comemoraremos mais um aniversário dele, o que seria o de numero 73, caso ele ainda estivesse aqui.
Mas, se ele não vai estar em pessoa, terá como representantes um dos seus maiores discípulos: Mestrinho; uma de suas mais importantes parceiras, a Anastácia, e ainda seu eterno irmão Osvaldinho do Acordeón e, por fim, Elba Ramalho, uma de suas melhores e mais importantes intérpretes. além de amiga próxima.
Dominguinhos continuará reinando no Canto da Ema, afinal seu canto é o nosso canto!
Paulinho Rosa  (Fev/2014)