Longevidade
A contagem continua, 11 anos é quase um milagre na noite paulistana. Recentemente alguns jornais e revistas fizeram matérias sobre casas noturnas e suas breves e fugazes vidas. Mesmo aquelas com tremendo sucesso costumam durar pouco tempo e somem discretamente deixando bem poucas lembranças nas pessoas e menos ainda na cidade. Em pouco tempo quase ninguém se lembra ou recorda delas, pois eram aparições espontâneas, algo como fogos de artifício; são maravilhosos, mas em poucos segundos somem e pronto.
O motivo real disso tudo é difícil dizer, podemos pensar na ganância e esperteza de alguns empresários que montam casas fantásticas sabendo da pequena longevidade e depois, no auge, repassam para pretensos empresários da noite por uma pequena fortuna, algo que ultrapassou o cume da parábola do sucesso, portanto destinada ao fim. Em raríssimos casos eles conseguem reverter a queda, mas têm que descarregar mais um caminhão de dinheiro em mudança de nome, decoração, divulgação e atrações.
Em outros casos, embora os donos não vendam o negócio quando está no máximo de resultados, fazem a casa com o orçamento já previsto exatamente para pagar a casa no primeiro ano, ganhar muito nos dois subsequentes e depois fechar simplesmente.
Outras casas acabam logo por falta de competência mesmo, outras por brigas de sócios, outras por falta de planejamento, alguns não têm experiência nenhuma e embarcam no sonho que parece fácil do empreendimento noturno. Muitos se deixam seduzir pelo aparente glamour de viver em festas com mulheres, bebidas e sabe-se lá mais o quê. Ou seja, existem diversos e diversos casos que poderia aqui tentar destrinchar explicando a alternância constante dos endereços de sucesso da noite paulistana.
Há, entretanto, alguns casos dignos de nota pelo tempo de existência com continuidade de sucesso, aquela mesma reportagem que mencionei sobre as casas que desaparecem com extrema velocidade, reportou também o oposto, o sucesso e continuidade de alguns espaços que viraram quase que marca na cidade. Entre elas estava o CANTO DA EMA.
Foi para nós um grande orgulho, porque chegar ao sucesso é difícil, mas se manter é muito mais. Ser referência de um ritmo nessa megalópole que é São Paulo é, sem dúvida, um feito hercúleo e que demanda muito trabalho, atenção, cuidado, persistência, uma boa dose de paciência e, é claro, muito amor.
Talvez a grande explicação seja essa, fazemos forró porque gostamos e não exatamente como um negócio. Na verdade se fossemos mesmo bons administradores talvez nossa empresa desse muito mais certo e ficaríamos ricos, mas talvez não desse tanto prazer e consequentemente não duraria tanto.
Claro que ganhar dinheiro é bom, mas tem coisas que dão muito mais prazer: saber que a maioria das filmagens sobre forró costumam nos procurar, que uma boa parte da população da cidade quando pensa em forró pensa em nós, que um grande número de pessoas é cliente fiel e preferencial até com os cartões preferenciais do Canto da Ema, que grandes nomes do ritmo passaram por aqui, que com o decorrer dos anos alguns que virão a ser grandes nomes da nossa música iniciaram aqui suas trajetórias, que tantos e tantos relacionamentos aqui começaram, que tantas crianças são, de certa forma, afilhadas do Canto da Ema, que podemos comemorar anualmente o aniversário do mais importante forrozeiro que existe: Dominguinhos. Que somos chamados de segunda casa de muitas e muitas pessoas, que temos um grande carinho e respeito pela nossa equipe e que esses sentimentos parecem recíprocos e que para isso acontecer às vezes demanda ser menos empresário e mais ser humano, coisas que às vezes parecem antagônicas, mas que cada vez é menos.
É bom saber que poderíamos ter um lucro maior, mas que optamos por consertar tudo o que quebra sem muita demora e que aceitamos algumas sugestões e gastamos um pouquinho mais para atender melhor, mais bonito, mais limpo e com mais qualidade.
Por falar em gostar, por amar o forró, adoramos mostrar o que ele tem de bom, para isso investimos em equipamentos e profissionais e isso garante o respeito de vários músicos de todo o país que elogiam e gostam de tocar aqui no Canto da Ema.
Acho que tudo isso explica um pouco o porquê dos 11 anos. E como não temos a menor intenção de mudar nossas atitudes e como tudo indica que a paixão que temos pelo ritmo está longe de acabar, é que temos uma grande esperança de, quem sabe, caso a especulação imobiliária permita, consigamos atingir a casa campeã de longevidade, o Gallery com 28 anos de vida. Falta pouco, só mais 17 anos.
Será que dá?
Paulinho Rosa  (Out/2011)