Bandeira Branca ou de Xita
Fazia muito tempo que um editorial não causava tanta repercussão quanto este último que escrevi sobre modinhas e fundamentalistas. Recebi diversas mensagens, algumas de apoio, elogiando e apoiando as minhas considerações, outras, porém, bastante bravas e com ataques pessoais como se eu fosse um mal para o forró. Curiosamente foi no mesmo momento que o Tato do Falamansa escreveu um desabafo que causou grandes reações também de ambos os lados.
Isso me fez pensar sobre a nossa condição de amantes do ritmo como um movimento que precisa se organizar e se entender se quisermos o bem do forró e principalmente se desejamos que ele cresça.
No Brasil, e acredito que até no mundo, existe um forte movimento de algumas pessoas no sentido de se manter em guetos fechados, como se a abertura e popularização fosse sinônimo de perda de qualidade, mas parece mesmo é que as pessoas não querem é se misturar e gostam de ser diferentes.
Para essas, aquilo que falei de crescer o forró pode soar como estar destruindo algo muito valioso, quando penso exatamente o oposto. Da quantidade é que fazemos a qualidade e por isso o crescimento é sempre bom.
Comecei a fazer eventos de forró junto com um sócio no começo de 1991, época em que não existiam casas do ritmo, salvo na periferia que tinha algumas voltadas para migrantes nordestinos e geralmente de baixa renda. Nada contra, muito pelo contrário, mas era um ambiente bem diferente para nós e embora eu me sentisse muito bem nos locais, nem sempre as pessoas se sentiam bem com a minha presença, até então um jovem de classe média com perfil muito diferente do que costumavam encontrar.
Eu e meu sócio na época resolvemos então fazer festas do gênero. Os leitores não podem imaginar o susto que era quando entrava no palco bastante improvisado, em um prédio em pleno vale do Anhangabaú, um trio de forró com zabumba, triângulo e sanfona conhecido como Trio Sabiá. Era um tempo em que forró era taxado de brega e ninguém queria ouvir, ver e muito menos dançar. Pois nós arriscamos e aos poucos, principalmente as mulheres, resolveram se arriscar em passos de 'dois pra lá, dois pra cá' de modo ainda bem acanhado.
Nesse mesmo periodo ouvíamos falar de um tal Trio Virgulino que fazia festas pela USP, amparados por 4 estudantes de veterinária. Nunca soubemos quem fez antes, nós ou eles, mas acho que o movimento se iniciou por aí, sendo que para mim e também para meu sócio havíamos tido forte influência de bandas como Mexe Com Tudo, Farinha Seca e Mistura e Manda.
Fomos nessa toada de festas quase bimestrais até 1995 quando começamos a fazer forró semanalmente no Projeto Equilíbrio, espaço de educação física da escola Equipe e que tinha duas quadras de futebol de salão e um apertado espaço interno.
Quando chegamos para a nossa produção, o pessoal da veterinária junto com o Virgulino já faziam forró há uns 4 meses antes, com um público de cerca de 100 pessoas, naquele espaço pequeno que mencionei a pouco.
Nós pegamos as quintas-feiras e logo depois os sábados, enquanto eles faziam as sextas. Começamos em janeiro e já em maio passamos a ter pouco mais de 1000 pessoas no espaço por dia de forró. Foi um grande sucesso, uma verdadeira febre deliciosa em que víamos as pessoas dançarem e se divertirem ainda sem nenhum preconceito. Nós mesmos conhecíamos pouco de forró, apenas os clássicos: Gonzaga, Dominguinhos, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino e alguns discípulos como Elba Ramalho, Alceu Valença, Zé Ramalho, Fagner e Geraldo Azevedo. Não existiam ainda os aficionados pelo ritmo como temos hoje e as pessoas queriam se divertir, éramos todos "turistas".
O mais engraçado é que tanto nós quanto o pessoal da veterinária colocávamos músicas de outro ritmo nos intervalos. Era uma festa sempre muito legal e divertida e isso durou até o final do ano. Já em 1996 começamos a trabalhar em diversas casas como Remelexo, Galpão 16, Floresta, União Fraterna e outras, além de termos recebido e recusado no final do ano um convite para organizar o forró do KVA, casa direcionada ao forró que estava sendo montada. Nesse momento, já mais especializados e conhecedores do ritmo, criei o "Arrumadinho" que depois virou sinônimo de Jam Session de forró e passou a ser usado em quase todo o país; o nome e o projeto.
A grande dificuldade era no mês dos festejos juninos, pois existiam poucos trios e bandas de forró e nessa época os que conhecíamos viajavam para o nordeste atrás de cachês maiores. Pensando bem talvez não fossem poucas as bandas e trios, elas é que não apareciam quase nos locais que fazíamos e ainda havia poucas bandas de jovens se iniciando no ritmo. As poucas novidades eram: Boi de Lata e Tio Crispiniano, além do Miltinho Edilberto. No Rio de Janeiro também começava apresentar gente muito boa como Forroçacana e Paratodos.
No final do século passado, fruto do movimento que se iniciou em 1995, começaram a surgir mais bandas em São Paulo: Falamansa, Rastapé, Bicho de Pé e várias outras.
Quando Gilberto Gil estourou no início do novo milênio com Esperando na Janela e o Falamansa lançou seu primeiro CD com quase dois milhões de cópias vendidas o forró ganhou a mídia, as pessoas, todo o Brasil e ainda, de quebra, alguns outros países.
Daí em diante a coisa ficou mais fácil, abriram várias casas, proliferaram-se eventos como o Grande Encontro e Rootstock, e começou a surgir com mais intensidade DJs (não que antes não existissem) e principalmente bandas e trios. Os jovens passaram a gostar do ritmo e trocaram bandas de rock de garagem pelos cimentados do forró. E não só bandas e trios de garotada que se beneficiaram, mas também muitos músicos nordestinos que estavam esquecidos e sem espaço para atuar, passaram a achar vaga nos diversos locais que abriam em ritmo acelerado.
Conto essa história que é real, embora talvez alguém discuta uma ou outra data, mas é para as pessoas saberem que o caminho foi difícil e que se manter em um "gueto" pequeno, embora seja mais charmoso e pareça ter mais glamour, na verdade é um desfavor ao forró e às pessoas que vivem e trabalham com o ritmo. Os pequenos espaços especializados neste ou naquele estilo são muito legais, eventos como o Rootstock e o Forró da Lua no Rio Grande do Norte que só permitem trios são bem bacanas, desde que não queiram assumir a paternidade única do forró. Os Três do Nordeste, Trio Nordestino, Luiz Gonzaga, Dominguinhos e tantos outros usam e adoram tocar com guitarra, baixo e bateria e isso é muito forró.
Seria bom uma bandeira branca, ou de chitão se tiver mais a ver, entre todos os forrozeiros para que possamos tentar voltar a esse período em que parei de contar a história, pois teríamos mais espaços para bandas, DJs, e com versatilidade, quantidade e opções diferentes para cada um poder escolher o que mais gosta e o que mais tem a ver com a pessoa. O que se seguiu depois continuou e está muito bonito, mas com muito menos espaço e possibilidades.
O Canto da Ema tem uma concepção, mas faz apenas forró. Outras casas têm concepções diferentes e também fazem forró, assim como evento de variadas maneiras.
Portanto forrozeiros do mundo todo,
Uni-vos!
Paulinho Rosa  (Ago/2011)