A Força do Marketing, da Moda e a Incoerência dos "Fundamentalistas (*)"
Os recentes acontecimentos no Japão e a força de um tsunami que vai arrancando e destruindo tudo sem dar tempo de pensar e/ou de se refugiar, me fizeram pensar nas questões das "modinhas" culturais que vez por outra assolam o país ou às vezes até pequenas tribos como a nossa do forró.
Quando vejo algumas modas percebo a relação que tem com algo assim, como o tsunami. Tal qual o trágico evento no país do sol poente, a moda cega, "emburrece" e cria verdadeiras matilhas de detonadores da cultura e, além disso, muda a ordem das coisas que sempre foram as mais verdadeiras, além de serem perniciosas aos bolsos, pois os aproveitadores de plantão, e geralmente semeadores de tudo isso, querem sempre lucrar, e muito.
Mesmo quando concordo com algumas músicas ou bandas que estão na moda e também as aprovo, me pergunto e me questiono sobre os reais benefícios de algo assim, que vêm de forma avassaladora e quase sempre irracional, movida por uma quase fantasia coletiva tão sólida no seu cerne, quanto fugaz na duração e alicerce.
Passar a gostar de uma moda pode até ser pela qualidade do produto, mas, quase sempre é pela maciça exposição que os "donos" fazem com perspectivas monetárias e quase nunca visando qualidade cultural.
É bem verdade que por vezes somos conservadores e que por isso qualquer coisa que apareça e assuma proporções enormes e que nossos sentidos ainda não estão acostumados e ainda tomam espaço daquilo que já gostamos, acabamos por condenar e taxar erroneamente como "é apenas modinha", mas grande parte desses acontecimentos são realmente muito voláteis e perdem força na mesma proporção que ganharam.
Lembro-me quando o rock nacional estourou primeiro com a Blitz e depois com várias bandas como Paralamas, Kid Abelha, Titãs, Legião e outros, era, para mim, fã de Chico Buarque, um absurdo e muito critiquei na época. Anos depois, mais "véio" e maduro reconheço o grande valor que tiveram várias dessas bandas e a qualidade dos respectivos trabalhos, além de relevante importância no contexto geral da música brasileira.
Mas também lembro quando apareceu uma tal "oxente music " cujo grande destaque era uma banda chamada "Mastruz com Leite". Já na época achei terrível para o forró e mantenho a opinião até hoje. Nem entro na discussão se é ou não boa a banda e a música, mas a avalanche que foi arrebatando o espaço do forró usando de forma condenável o nome do ritmo que não lhe era devido, fez estragos incalculáveis à música criada e formatada por Luiz Gonzaga.
Tão ruim quanto esses resultados são os das "modinhas" dos "fundamentalistas" de cada ritmo. No forró mesmo existe aqueles que não aceitam bandas como Bicho de Pé, Falamansa, Rastapé, O Bando de Maria e outros, isso porque acham que o único modo de fazer forró mesmo é trio. Embora tenha discutido muito esse assunto aqui neste espaço volto com o mesmo argumento, se Gonzaga colocava mais instrumentos e Dominguinhos, o maior nome do gênero atualmente, também o faz, qual o crime das bandas fazerem também, desde que respeitando a batida dos ritmos, diferentemente do que fazem o Mastruz com Leite e seus discípulos?
A grande complicação vem de que muitos dos "fundamentalistas" de forró só reconhecem como tradicionais aqueles que quase não fizeram sucesso antigamente se comparados com os grandes nomes. Para muitos parece que Jacinto Limeira, Assisão, Joci Batista tiveram mais importância para o forró que Gonzaga, Dominguinhos e Jackson ou mesmo que os atuais Virgulino e Sabiá. Para mim um ledo engano, embora adore o trabalho deles acho que como "importância" para o ritmo os trios atuais citados acabaram ajudando mais, até a obra de ambos é bem comparável, pois Sabiá e Virgulino têm clássicos geniais, mas para muitos desses fundamentalistas isso só será reconhecido daqui uns 20 anos, quando tiverem acabado estes trios.
O problema é que paradoxalmente os fundamentalistas que criticam as "modinhas" têm, eles próprios, as "modinhas" deles. Por exemplo, como os bons músicos aqui já citados (Jacinto Limeira e etc.) com boas músicas, além de manias estranhas ao forró como gritinhos no meio da música lembrando um público de axé e até na maneira de dançar, que de forró tradicional não tem nada. Duvido que em algum momento pelo Nordeste em algum show do Joci Batista ou mesmo do Abdias alguém tenha dado passos de gafieira ou samba rock no meio do forró, como fazem os ditos forrozeiros. Faço questão de dizer que não é uma crítica, mas uma constatação engraçada, pois acho que não machucando ninguém, cada um dança como quer, desde que no ritmo, mas resumindo: fundamentalista na música e samba (ou forró) do crioulo doido na dança.
Voltando às "modinhas" é difícil saber quem as criou, mas para um monte de gente passa como verdade absoluta e lá se vai um bando de gente atrás de músicos que julgam ser tão geniais e fechando os olhos pra muita gente boa. Às vezes a fama de uns nesse meio excedem a real qualidade ou o quanto ele agrada, mas como discordar? É como alguém que viu uma peça de Gerald Thomas e dizer no meio de uma aula de sociologia que não gostou, mesmo que não tenha entendido nada (como costuma acontecer) e quase dormido, você tem que ter gostado sob pena de ser escorraçado. No forró é assim também, se você criticar um ou outro e elogiar alguém que a modinha fundamentalista não aceite você será execrado.
Também há modinha com relação a espaços, os forrozeiros adoram rotular os locais: melhor, pior, modinha, ruim, lugar de salto alto, de forrozeiros, de gente bonita, gente feia, etc., etc., como se cada um tivesse apenas o seu público. Na verdade a maioria das pessoas frequenta ou já frequentou todos os locais, ou seja, como rotular tentando fazer uma diferenciação entre um ou outro? Você pode criticar a estrutura, o preço, a qualidade de som, até as atrações, embora quase sempre elas se apresentem em todos os lugares salvo, poucas exceções (o Bicho de Pé, Flavio José, Santanna, Marinês, Chiquinha Gonzaga, Camélia Alves, Silvério Pessoa, Clã Brasil, Cezinha, Fagner, Geraldo Azevedo, Antonio Nobrega, Lenine, Luiza Possi e etc. só tenham tocado no Canto da Ema, e Praieira, Circuladô e outros só fizeram em outras casas e assim vai...), mas a grande diferença é mesmo estrutura e preços. Um dos locais que tem forró atualmente apóia-se exclusivamente em marketing, na atração de um nome apelativo que vai contra toda a democracia proposta por Luiz Gonzaga, sem dar nenhuma diferenciação e cobrando mais, mesmo com uma estrutura bem aquém, por exemplo, do Canto da Ema, mas marketing é marketing e lá vai um monte de gente atrás.
Sofremos muito com as "modinhas" também quando se trata de discotecagem, acertar o gosto de várias pessoas é quase impossível, pois elas mesmo não se entendem quanto ao ritmo, banda, cantores e músicas. Aqui temos uma equação matemática, tocam dois forrós (entre baião, xaxado, coco e forró), dois xotes, dois forrós, dois xotes e um arrastapé, é sempre assim, sem beneficiar músico A ou B, quem decide é a máquina em um universo de mais de 1000 músicas onde os que mais aparecem são: Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino, Os 3 Do Nordeste e por aí vai na sequência. DJ que é algo legal, mas que tende a colocar o que está na moda, o que os forrozeiros ditam como o que é bacana na época e todos eles vão fazendo mais ou menos parecido. Como a moda atual é gostar daquilo que é mais difícil encontrar e geralmente bem antigo o que acontece é que os grandes clássicos do forró são esquecidos e as bandas novas não têm nenhuma chance de aparecer, ou seja, matamos o forró atual antes de nascer e ao mesmo tempo sepultamos os grandes nomes. Quem lembra a última vez que tocou Asa Branca em alguma casa que não tenha sido no Canto da Ema? É incrível como algumas pessoas vêm reclamar da discotecagem pedindo coisas mais "raiz", ora, se o que mais toca é Gonzaga, Jackson, Dominguinhos e Trio Nordestino o que pode ser mais raiz que isso? Na verdade nessa ilustração botânica o que eles querem são mais galhos e não raízes.
Aqui no Canto da Ema, volto a dizer, não fazemos e nem queremos moda, queremos sim é fazer forró para todos, para os forrozeiros, fundamentalistas, turistas, amigos e até inimigos se eles existirem e ainda não nos apoiamos apenas em estratégica de marketing, nos apoiamos é no trabalho, em construir e manter uma estrutura que respeite os clientes, em bandas novas e/ou tradicionais que façam forró, mantendo o passado e semeando o futuro, enfim, fazendo de tudo para que o ritmo que amamos se mantenha sempre vivo, mesmo que fora da moda!

*Fundamentalismo: Qualquer corrente, atitude ou movimento conservador que enfatiza a obediência rigorosa a um conjunto de princípios básicos.
Paulinho Rosa  (Jul/2011)