Momentos com Chiquinha
Claro que como apaixonado por forró, toda vez que posso chegar perto de qualquer coisa relacionado a Luiz Gonzaga é pra mim uma grande emoção e alegria. Já tive diversos momentos fantásticos em situações desse tipo. Talvez a mais significativa e emocionante tenha sido em 1995 quando fui a Exu, terra natalícia de Gonzagão, para acompanhar os festejos de seu aniversário, coisa que acontece todos os anos no dia 13 de dezembro ou fim de semana mais próximo.
Quem me convidou e me sugeriu ir foi Dominguinhos, uma das pessoas mais próximas de Luiz Gonzaga durante toda a sua vida. Convite feito, convite aceito. Voei para aquele sertão pernambucano, mas quase cearense.
Fui de avião para Recife e de lá peguei um ônibus para Exu. Acho que nunca passei tanto frio na vida, pois esperando o temido calor sertanejo me vesti de bermuda e camiseta, mas o motorista do ônibus, animado que só, deixou o ar condicionado por volta de uns 13 graus e lá fui eu morrendo de frio percorrer cerca de 8 ou 9 horas que levava de viagem.
Chegando a Exu, após passar por Salgueiro e Bodocó, já cidades íntimas para mim depois de tantas vezes ouvi-las cantadas em "Respeita Januario", fui direto procurar Zito Urbano, na época o administrador do Parque Asa Branca, local construído por Luiz Gonzaga e onde ele vivia e tinha sua moradia e várias outras casas, além de um palco com um grande espaço para o público, capela e o museu Luiz Gonzaga.
Consegui um quarto no posto na cidade de Exu, alguns quilômetros distante do parque. Já na minha primeira caminhada em direção ao QG Gonzaguiano fui abordado por uma viatura policial que achou estranho um jovem de bermuda, cabeludo, mochila nas costas e chinelo caminhando por ali. Vale lembrar que é a região de Cabrobó, famosa pelas plantações de Cannabis, e acho que me acharam com cara de usuário e já foram me dando uma geral. Levaram-me para delegacia e lá expliquei o propósito de minha visita. Ligaram para o Zito Urbano e lá foram me buscar. O incidente desagradável acabou sendo de grande valia, pois me mudaram do quarto da cidade para a casa de Januario, pai de Gonzaga, dentro do Parque e ali fiquei muito mais perto de todos os acontecimentos.
Finalmente Dominguinhos chegou e com ele a minha apresentação para o mundo de forró foi muito facilitada, pois chegar com ele nesse meio é quase como ter carta de referência de um presidente. Logo fui apresentado a diversas pessoas e aqui, para matar de inveja milhares de forrozeiros, citarei algumas: Pinto do Acordeom, Marinalva, Zé Gonzaga, Joquinha Gonzaga, Alcimar Monteiro, Sirino e Sirano, Patativa do Assaré e mais vários outros forrozeiros que lá estavam . Uma pessoa que na época me chamou muito atenção e teve comigo um carinho todo especial foi Chiquinha Gonzaga, a irmã caçula do nosso Rei do Baião.
Aquela senhora pequena, magrinha, com voz estridente e um jeito meigo e doce ficou um bom tempo me contando das coisas e explicando a vida do Parque, de Exu e da família por mim tão admirada. Chiquinha era boa de papo e foi de uma simpatia impressionante.
No dia seguinte, o primeiro dos festejos oficiais, fomos todos tomar café da manhã juntos. Uma mesa grande na varanda estava posta de maneira muito simples com pão, café, leite, suco, bolo e frutas, tudo muito à vontade e as pessoas iam sentando, comendo e saindo, sempre batendo papo, relembrando velhos amigos e abraços e tendo sempre o forró como tema. Um verdadeiro paraíso para mim que estava apenas aprendendo. Meu café deve ter demorado umas duas horas, pois comia devagar tentando ouvir todas as conversas em volta, cada uma mais interessante que a outra.
Veio a noite e o primeiro show. O Parque estava lotado, devia ter umas 5 mil pessoas lá dentro e o palco "Zé Gonzaga" pronto para os festejos. O primeiro a se apresentar foi Joquinha Gonzaga e eu fiquei lá atrás na platéia assistindo o início. Quando o primeiro acorde soou, eu avistei no céu uma linda lua cheia sertaneja aparecendo e nesse exato momento Joquinha cantou: "Olha Pro Céu meu amor, vê como ele está lindo..." eu, na terra de Gonzagão, casa dele, seu sobrinho cantando, a lua, a música... uma lágrima escorreu, não deu para segurar.
Um tempo depois foi a vez de Dominguinhos, o mais aguardado sempre, e fui até o palco para ver a reação das pessoas de frente e ver meu querido amigo tocando de costas. Após o delírio do povo na frente do palco senti uma mão nas minhas costas, era Chiquinha que me chamava para dançar. Achei engraçado e me senti muito honrado com o convite e lá fui eu, morrendo de medo, tocar uma pessoa que faz parte da história do ritmo.
Dali pra cá foram vários encontros e sempre com o mesmo carinho e carisma que ela distribuía a todos. A primeira sanfoneira de 8 baixos do país era uma pessoa muito querida e sempre agradável de ter ao lado. Aqui no Canto da Ema ela fez dois shows e em ambos, embora não tivesse muito público (os forrozeiros a ignoraram), ela deu conta do recado, com sua voz bem sertaneja, jeito nordestino e simplicidade cativante. Veio acompanhada dos filhos e na segunda vez apenas de Sérgio, seu filho mais velho.
Chiquinha mantinha contato conosco e uma vez trouxe até uma camiseta de um movimento de forró pé-de-serra lá de Pernambuco.
A última vez que a vi foi em uma homenagem feita a Luiz Gonzaga no ano retrasado, quando recebeu uma placa do governador da época. Foi emocionante ver aquela pequena pessoinha tão cheia de simplicidade ir lá falar no meio de um monte de engravatados.
Depois do evento fui ao encontro dela. No primeiro momento não me reconheceu. Logo depois Sérgio deu a dica e ela me deu um grande abraço e rapidamente perguntou do Canto da Ema. Fomos almoçar e sentei ao seu lado e fiquei ouvindo-a contar coisas da vida, dela e do forró.
Despedimos-nos e tentamos marcar alguns shows, o que nunca mais aconteceu e nem acontecerá.
Para aqueles que não a viram de perto perderam alguém muito especial, a irmã de Luiz Gonzaga tinha brilho próprio bem ao seu jeito. Deixou várias gravações muito bonitas e gostosas, bem forró, bem oriunda de Exu.
Aqui no Canto da Ema ela tem lugar cativo e muitas músicas fazemos questão de tocar no nosso repertório, não porque morreu, mas porque viveu fazendo música, aqui dentro do Canto da Ema também.
O penúltimo CD que gravou, com produção de Gilberto Gil, é uma pequena pérola do forró, mas outras coisas anteriores também eram e aqui no Canto da Ema será sempre lembrada.
Pra mim, fã dos Gonzagas, ter tido Chiquinha como parceira de dança e amiga de papos, além de artista convidada, foi uma grande satisfação, foram daqueles momentos que falei lá no início...
Paulinho Rosa  (Mai/2011)