Ano Novo, Sonhos Velhos
Pulei ondinhas, me vesti de branco, acendi velas e joguei flores ao mar, comi lentilhas e mais um monte de ações que, acreditando ou não, possam trazer bons ventos de alegria, paz e felicidade para mim, para amigos e familiares , para todos e também, é claro, para o Forró, um dos meus grandes amores.
Quando fazemos isso é para espantar o que houve de ruim, mas também para reativar velhos e antigos desejos. Desejos que vêm desde que entendi o forró como ritmo, como um elemento de nossa cultura. Pois o forró, as musicas e alguns personagens estão em cada um de nós, brasileiros, desde que somos um feijãozinho ainda no útero de nossas mães.
Falo isso por que tenho um sonho antigo, uma eterna esperança de que o forró possa conseguir, este ano, a parcela de mercado que merece, que é bem maior do que a que temos agora. Não que esteja mal, mas merece ir bem melhor.
Talvez seja bom pensar no que aconteceu no ano que passou e tentar lembrar o que nos deixou de legado: em 2013, o forró teve bons momentos e outros bem complicados; o mais difícil deles, sem dúvida, foi a perda efetiva de DOMINGUINHOS. Ele já estava ausente desde 17/12/12 quando entrou em coma em um hospital de Recife e, desde então, ficamos sem o nosso querido amigo, sanfoneiro, cantor, compositor e músico genial. Ainda em 2012, perdemos outro grande amigo e figura importante do forró, um dos maiores poetas e letristas que tivemos: João Silva. Perdemos ainda Arlindo, dos 8 Baixos, e mais alguns importantes, porém menos conhecidos parceiros.
Ainda com ralação às baixas, perdemos um grande talento que, por motivos pessoais, preferiu retirar-se do mundo da música, deixando saudades do enorme vozeirão e da alegria incrível, falo de Flavinho Lima.
Em compensação, o Forró teve grandes alegrias, advindas das jovens revelações. Difícil será falar de todas sem esquecer alguém; deixo, portanto, desde já, as minhas desculpas, pois algo pode escapar.
Começo lembrando a quantidade e a qualidade dos muitos CDs lançados que merecem destaque:
Inicio pelos ótimos trabalhos de Trio Alvorada e Vinicinho. O primeiro, já mais experiente e maduro, fez o terceiro CD subir mais um degrau de qualidade, enquanto Vinicinho estreou em grande estilo em um trabalho cheio de bossa. Ambos devem e merecem ser ouvidos.
Por falar em estreia, Joquinha do Acordeón, filho de Tio Joca do Sabiá, do alto dos seus 12 anos, também debutou em CD e fez conosco essa iniciação. O ponto alto foi quando juntou mais três outros talentos da sanfona: Pablo, Gabriel e Cosme, de gerações muito próximas a dele, deixando claro que o futuro do forró está garantido.
Diego Oliveira, o eterno apaixonado, lançou seu DVD, que fez jus ao nome, sem se esquecer de forrós animados e contagiantes. Mais um grande trabalho do mais internacional forrozeiro do momento.
Outro momento gostoso foi o lançamento do Cd/dvd do Bicho de Pé, desta vez fazendo releituras de Gonzaga. A banda que mais trabalha no circuito reafirmou a musicalidade talentosa, em arranjos lindos, com a sempre contagiante voz de Janaina Pereira.
O Trio Dona Zefa lançou seu DVD; mas aí é chover no molhado, pois não foram surpresa nem o sucesso, nem a repercussão e nem a qualidade e alegria do evento e do trabalho.
Surpresa mesmo foi o lançamento do CD de Pé de Mulambo e o excelente trabalho deles de mistura de ritmos que arrebatou um bom público em uma festa deliciosa.
Não temos, contudo, como negar que o destaque esteve por conta de o Ó do Forró. Os meninos lançaram seu "O Som que Balança o Coração" e quase causaram uma pandemia coronária, pois balançaram o coração de uma verdadeira multidão ensandecida, que cantou, em uníssono, todas as músicas do CD.
Fora os lançamentos de CD, tivemos alguns artistas que cresceram muito durante o ano. Falo, mais precisamente, de Mestrinho, que já era considerado um dos grandes sanfoneiros do país; nos shows solo, ele se soltou de vez e, junto com uma banda de arrepiar, tornou-se um dos grandes eventos do forró no momento.
Não podemos ainda esquecer dos shows apoteóticos do Rastapé, a generosíssima presença da banda de maior sucesso recente da história do forró, que nos presenteia, uma ou duas vezes por ano, a Falamansa e, ainda, a consagração definitiva do Peixelétrico no circuito, que cada vez mais vence as barreiras do preconceito e conquista novos fãs.
Trio Sabiá, Trio Virgulino, Trio Nordestino e vários outros importantes trios ajudaram a fazer o ano de forró com a qualidade que só quem tem a tradição consegue impor. Trio Bastião se firmou como um dos destaques da nova geração, eletrizando de São Paulo a Moscou.
O ano de 2013 já prenunciava ser o ano de Chambinho do Acordeon, o qual, infelizmente, parou pouco por São Paulo. Com agenda lotada, ele cumpriu o que se esperava e tocou, principalmente no mês de junho, disputadíssimo quase todos os dias, tendo ainda representado, mais uma vez, Gonzaga na Globo, onde, mais do que imitar, ele se fez passar por ele de maneira brilhante.
Por último, tivemos Lucy. Apesar de ela, durante o ano, não ter aparecido no Canto da Ema, ao menos escancarou o Brasil para todo o Brasil empunhando sua linda sanfona e tocando Gonzaga, Dominguinhos, Vandré e outros grandes nomes da nossa música em horário nobre da TV, tendo virado uma verdadeira febre e sinônimo de brasilidade. Lucy encerrou o ano para o forró de maneira brilhante, deixando inequívocos sentimentos de esperança de que, enfim, os sonhos, mesmo que antigos, possam ainda realizar-se neste ano que está começando.
Por via das dúvidas, fiz mandingas, mas, com tanta gente boa fazendo o que fez em 2013, tenho certeza de que em 2014 tudo se realizará!
Resumo Canto da Ema:
264 dias trabalhados com 351 apresentações.
Total em bandas e trios - 37
Paulinho Rosa  (Jan/2014)