Segredos de Cortina
Semana passada depois de muito tempo fui a um show em um teatro. Acho que fazia tempo que não ia a um e menos ainda prestava atenção em uma coisa aparentemente quase sem importância: a cortina!
Não sei por que, mas de alguma forma ela me hipnotizou.
O show que fui ver era um evento com vários grandes artistas: Hamilton de Holanda, Mariana Aydar, Benjamin Taubkim, Duani, Tavinho Moura e Dominguinhos, e antes do começo teve um breve discurso do responsável pelo evento. Após as palavras muito bem proferidas eis que as luzes se apagaram e nos deparamos apenas com a cortina fechada. Fiquei pensando naquilo, na força daquele pano preto e nos segredos e surpresas que ele escondia. Naquele momento ele era o obstáculo de nossas ansiedades, a barreira que bloqueava nossas expectativas, era a divisão entre o silêncio nervoso do pré-espetáculo e a catarse de prazeres dos nossos diversos sentidos que um show pode proporcionar.
A cortina foi abrindo lentamente, em uma velocidade que fazia acelerar o coração a cada centímetro vencido. É impressionante como elementos lúdicos podem se sobrepor até a produtos amados e concretos. Não foi o caso do show que fui ver, que foi fantástico e bem melhor que a abertura da cortina, mas aquele momento de ansiedade lembra quase aquele momento de sedução pré-namoro, quando você conhece alguém que de alguma forma aguçou seus sentidos e fez seu coração disparar. A cortina foi um pouco responsável por emoções parecidas.
Nem sempre o Canto da Ema teve cortinas, achamos por bem colocá-las para que os músicos tivessem um pouco de privacidade e preparação antes de começar o show. Mais ainda o técnico de som, pois quando tem mais de uma banda, lá vai ele arrumar aquele monte de cabos, além dos microfones e pedestais. Fazer isso com um monte de gente olhando é ruim, ainda mais com gente que, mesmo sem querer, está apressando-o, loucos para que o show seguinte comece.
Caso não existisse a cortina o músico entraria um por vez sem muita graça.
A cortina nos proporcionou neste longo tempo em que preserva o nosso palco diversas situações muito legais.
Há muito tempo fizemos um evento muito bacana com renda revertida a Dona Neuza Flores, viúva de Jackson do Pandeiro, que na época necessitava de uma certa ajuda financeira. Tivemos uma grande colaboração da cortina para o deslumbramento do evento. O show seria de Dominguinhos, Lenine e Chico César e não havíamos combinado nada de como faríamos. Sempre foi minha intenção que cada um tocasse um pouco de Jackson do Pandeiro e depois fizesse um pedacinho solo com suas respectivas músicas e sucessos. Pois bem, fui buscar o Lenine no aeroporto e no trajeto em direção ao Canto da Ema ele me falou que o ideal seria os três entrarem como trio de forró, com ele no zabumba, o Chico César no triângulo e Dominguinhos, é claro, na sanfona. Combinado, chegou a hora do show.
Nunca vou esquecer a cara das pessoas quando anunciei os três de uma vez no palco, cada um empunhando o seu instrumento. A cortina foi abrindo e as caras eram as mais indescritíveis que já vi. Mais uma vez ao tempo da velocidade da abertura as feições iam mudando entre espanto, alegria, surpresa e felicidade. É bem verdade que alguns devem ter duvidado do que sairia do zabumba e o triângulo, mas a incógnita logo deu espaço a um forró arretado!
Outro momento em que a cortina teve papel importante foi quando dos shows do Forroçacana. Em uma das vezes, numa quinta-feira abarrotada de gente, estávamos todos: Forroçacana, técnicos e produtores apontando o palco ainda com a cortina fechada quando dei o sinal para tocar o "Canto da Ema" (música que sempre antecede as apresentações dos músicos e serve como uma espécie de prefixo de que o show vai começar). Ao som do primeiro acorde da música ouvimos do lado de dentro da cortina algo que parecia um gol do time com estádio lotado! A gritaria era tanta, apenas com o início de Canto da Ema que quando saí para anunciar a banda eu quase nem me ouvi.
Muito parecido foi a última apresentação de O Bando de Maria aqui no Canto da Ema em julho de 2010. Aconteceu algo similar com o que relatei sobre o Forroçacana: a mesma gritaria e o mesmo susto, só que acho que o O Bando não estava esperando e quando anunciei e me virei para sair do palco, a cantora Maria Paula havia deixado cair várias folhas com as letras que ela não lembrava mais de cor e, além disso, a cara dos músicos era de quase pânico.
Muitas dessas coisas o público nem sabe que acontece, são segredos de cortina. Já a expectativa da abertura da cortina ocorre de ambos os lados, cada qual a sua maneira.
Estamos no último mês do ano, então nada melhor do que tocar no assunto a esta hora em que as cortinas de mais um ano estão se fechando. Na verdade bem mais que isso, cerram-se as cortinas de mais uma década.
Mas é por pouco tempo, pois no Canto da Ema o forró não pára, faz pequenos intervalos e logo logo a cortina abrirá de novo e quem sabe que surpresas poderá estar escondendo:Reformas, bandas, musicas, sonhos, casos, novos relacionamentos, alegrias etc etc etc
Esperamos você dia 5 de janeiro para a primeira abertura da cortina e pra mais um emocionante capitulo seu vida, se possível, conosco!
Feliz 2011
Paulinho Rosa  (Jan/2011)