Rótulos e Modinhas
Vamos começar do gênesis: quem começou a coisa toda foram os nordestinos, o princípio do forró foi no Nordeste, certo?
Mais ou menos, embora o ritmo rolasse solto por lá em quase todas as regiões ele ainda não existia formatado como o conhecemos agora. Ele só veio a virar ritmo mesmo, com cédula de identidade e reconhecido em cartório quando Gonzaga estava no Rio de Janeiro e resolveu atender aos pedidos de estudantes de direito cearenses que exigiram do sanfoneiro que tocasse "umas coisas lá do Norte" senão não encheriam mais o chapéu de Gonzaga. Diante de tão contundente argumento Gonzaga trocou polkas e valsas pelo que hoje conhecemos como baião.
Com isso não quero dizer que o forró é carioca, a origem mesmo é realmente nordestina e de lá vêm as matrizes para que aqui no Sul possamos também continuar a fazer o forró se manter como um delicioso traço de nossa cultura.
Temos obtido sucesso, acho até que por vezes, durante o ano, temos mais eventos de forró aqui do que da Bahia pra cima, excetuando-se, claro, o mês de junho.
O Canto da Ema mesmo vive 5 dias de forró por semana, número que não conheço em local nenhum do Brasil, salvo restaurantes que priorizam a comida, mas que tem forró como distração.
Isso deveria fazer do Canto da Ema uma referência de forró da cidade e até do país. E é de certa forma para a maioria do público, quase todos os artistas e a mídia, que às vezes lembra-se do ritmo, mas para alguns paulistanos o Canto da Ema é tachado de "modinha".
Qual o motivo? É que o Canto da Ema recebe muitas pessoas que não são tão frequentes no forró, que não são exatamente os forrozeiros de todos os dias, mas pessoas que vão às vezes se divertir dançando um xote ou um arrasta-pé de rosto colado vestindo um salto alto, uma camisa pra dentro da calça e não as sapatilhas convencionais ou uma bermuda ou jeans e camiseta.
E é verdade! Recebemos mesmo muitas pessoas não forrozeiras que vêm totalmente de turistas e nós temos enorme orgulho disso. Só faremos o forró crescer e aumentar se isso acontecer, caso contrário ele estagna e vai morrer aos poucos.
Qualquer pessoa que vá a qualquer local que não costuma ir ou que nunca foi ainda não sabe exatamente como se portar, vestir ou proceder, e se pensarmos bem nem tem uma maneira exatamente correta de fazer, apenas uma convenção informal dos frequentadores mais assíduos. Imagino que cada um dos que viraram forrozeiros já passou por isso e deveriam ser mais solidários e tentar ajudar a cativar estes novos frequentadores ao invés de apenas criticar e rotular de "modinha" ou algo do tipo.
Agora, se pensarmos que tem quem critique é que então percebemos que temos muitos frequentadores muito assíduos do Canto da Ema, e forrozeiros portanto. Conhecemos inúmeros (assim mesmo, inúmeros, pois a quantidade é grande e é difícil contá-los) clientes que vêm 3, 4 e às vezes até 5 dias por semana, coisa que com certeza não acontece em nenhuma outra casa. A grande prova é o número de Cartões Preferenciais em circulação.
O mais engraçado é que se voltarmos no início do texto e lembrarmos de onde vem mesmo o forró, é divertidíssimo ver os nordestinos que visitam o Canto da Ema e observam os que se dizem "forrozeiros" dançar; aquilo para eles é tudo, menos forró. A reação é quase sempre a mesma, uma certa indignação com as voltinhas e com o pouco contato que os casais tem durante a dança, embora alguns achem até bonito os rodopios, mas que não acham forró, isso não acham.
Vira algo bastante paradoxal, os que se acham os mais forrozeiros, dançam como se não fosse forró.. vai entender!
Por falar em paradoxo é engraçado ver as bandas que vêm do Nordeste, aquele mesmo da origem do forró. Quase todas, incluindo Flávio José, Dominguinhos, Santanna e bandas novas como Chá de Zabumba e Silvério Pessoa adoram fazer com guitarra, baixo e bateria e para os "forrozeiros" do Sudeste isso não é forró.
Do mesmo modo lembramos que alguns adoram falar do Canto da Ema ser modinha, e aí vale a pergunta: qual foi a única casa de forró que teve Marinês, Chiquinha Gonzaga, João Silva, Genário, Camélia Alves com exclusividade até agora e que ainda teve Trio Nordestino, Os 3 do Nordeste, Mestre Zinho, Edson Duarte grandes nomes tradicionais que outras casas também tiveram?
Por outro lado, banda de reggae aqui só teve uma, e que não é apenas de reggae e sim "forreggae", que é o Peixe Elétrico e que aqui aceita fazer show de forró com alguns poucos reggaes no repertório, assim como faz o Bicho de Pé com samba e o O Bando de Maria fazia com o rock.
Já em outras casas, sabemos que bandas, assim mesmo no plural, que fazem reggae, tocaram inúmeras vezes e tocaram preferencialmente reggae.
Estive no Rootstock (continuo achando horrível o nome e o pior é que outros festivais copiaram o roots) e adorei o que vi. Muito legal ver cerca de 1.000 pessoas que foram para curtir forró quase que 24 horas por dia durante tantos dias. Achei fantástico! Clima bom, pessoal animado e tranquilo e um sítio que parece ter sido feito pro evento, tem até arquibancada na piscina!!!!
As atrações de primeira e com o perfil claro, fazer forró o mais tradicional possível. Isso acontece também no Forró da Lua em Natal, onde o dono é brabo que só e lá não entra guitarra nem baixo de jeito nenhum. Já ouvi dizer que até músico com "dread" no cabelo já foi proibido de tocar. Isso é que é ser tradicional! (e não é forró da Moon)
Achei ambos os casos muito legais e torço para que continuem assim, pois é bom para o forró, para os músicos e para as casas. Mas aposto que boa parte do público que lá estava conheceu forró pela primeira vez com Falamansa e Rastapé ou Elba, Geraldo Azevedo ou Alceu. Quem sabe até Dominguinhos. O que quero dizer é que as pessoas só chegam nesse estágio de poder curtir um evento desses se os cativarmos, se mostrarmos que existe esse mundo que eles dificilmente vão conhecer e querer consumir se apresentarmos assim, em natura, como acontece nos casos citados.
Quer dizer que é uma evolução? Acho que não, é sim uma particularidade de cada um e cada um deve escolher a sua. Não é à toa que grande parte dos frequentadores mais assíduos do Canto, e que são forrozeiros de carteirinha, exigem na programação Os 3 do Nordeste, Trio Nordestino e Edson Duarte, mas que quando tem Bicho de Pé, Peixe Elétrico, Elba Ramalho e o Falamansa não perdem de jeito nenhum. Cada um escolhe o tipo de forró que gosta, não o tipo, mas o estilo, pois tudo isso é forró do mesmo modo. O Canto da Ema optou por trabalhar o ritmo assim, expondo vários estilos para que o cliente possa escolher, tanto nas bandas como na discotecagem, o que mais gosta.
Essa é a nossa maneira de ver o forró: sem rotular, sem aceitar modinhas, sejam antigas, tradicionais ou recém chegadas, queremos é fazer forró!
Paulinho Rosa  (Dez/2010)