Matutando os 10 Anos
Quanto mais tempo passa mais me convenço da viabilidade de viver os sonhos. Não apenas porque o forró é a direção e principal motor da minha vida, sendo ao mesmo tempo uma das minhas maiores paixões, mas porque fazer do trabalho algo agradável e entusiasmante acaba produzindo frutos muito melhores.
Dificilmente alguém vai me ver dizer: "poxa, tenho que ir trabalhar" com ar pesado e desmotivado. Às vezes isso acontece por cansaço, mas logo passa quando chego ao Canto da Ema e vejo o povo se divertindo, os músicos alegres por estarem conosco e funcionários tranqüilos por terem e verem seus direitos reconhecidos, como trabalhadores e como pessoas.
O trabalho mais maçante e cansativo é geralmente o do dia, quando temos que resolver partes burocráticas. É nesse período também que fazemos as compras, planejamento, pagamentos, programação, divulgação, reparos, consertos, reformas e mais uma infinidades de detalhes que geralmente passam desapercebidos por quem vem apenas para dançar e curtir um bom forró. Mas, durante a labuta do dia, o clima costuma ser tão bom que nem assim podemos muito reclamar. O Canto da Ema tem, pelos anos de vida, uma condução razoavelmente segura e tranqüila e isso deve-se um pouco ou muito ao mesmo tema: fazemos o que gostamos.
O Canto da Ema vive se reciclando em sua própria razão de existir, é um moto-contínuo: quanto melhor é o evento, melhor é o público, melhor é o retorno, melhor é a vontade de fazer um novo e bom evento no dia, na semana, no mês, no ano seguinte. Veja bem, sempre usei a palavra melhor, porque não exatamente é o maior público e a maior bilheteria que nos dá o grande prazer, mas sim o melhor show e melhor público, pois estes significarão muitos e muitos anos de vida além de um prazer inenarrável. Não é à toa que estamos completando 10 anos o mês que vem.
Claro que temos a preocupação comercial. Estamos localizados em uma das mais concorridas e caras avenidas da cidade e do país, temos mais de 25 funcionários corretamente registrados que recebem todos os benefícios exigidos pela lei e mais alguns que nós resolvemos conceder. Temos um IPTU maluco e nenhuma ajuda de parceiros ou patrocínio. Mesmo assim, com todos esses dados, vários dos melhores shows que fizemos, vários dos eventos que nos realizaram e emocionaram, não deram retorno de bilheteria.
Talvez seja essa a diferença de ser balada e ser uma casa de forró. Aqui no Canto da Ema somos uma casa de forró e vivemos pra ganhar dinheiro sim, mas pelo forró, por gostar de forró, por tentar cativar mais e mais pessoas, revelar músicos do ritmo e manter aqueles que fizeram até hoje essa história tão bonita que começou há muito tempo, lá na década de 40 com Luiz Gonzaga e até um pouco antes, com cantores e cantoras anônimos que soltavam a voz em festas de plantio e nos sertões perdidos e esquecidos de nosso país continente.
Um exemplo disso tudo foi uma quinta-feira do mês que acabou. Trouxemos ao Canto da Ema um grande amigo, músico excepcional e um dos maiores sanfoneiros da história do país: Osvaldinho do Acordeon. No mesmo dia tivemos uma concorrência de uma balada que deve ter tido um público maior que o nosso. Não sei qual foi exatamente o resultado deles, nem sei quem tocava, nem quantas pessoas lá estavam, mas posso dizer que saímos do Canto da Ema extremamente felizes por ter trazido o nosso querido sanfoneiro. Ele e sua trupe fizeram um show fantástico e com um público razoavelmente bom se pensarmos que era uma quinta-feira de agosto, mas muito aquém do que um músico do porte dele mereceria. Levanto tudo em conta foi uma noite feliz, muito feliz. Azar de quem perdeu.
Pensando nisso é fácil saber porque alguns excelentes músicos, alguns históricos e outras jovens e criativas promessas apareceram ou tiveram maior carreira apenas aqui no Canto da Ema, gente como: Marinês, Flavio José, Chiquinha Gonzaga, Osvaldinho do Acordeon, Clã Brasil, O Bando de Maria e muitos outros exemplos até como o Bicho de Pé, pois é uma aposta em sonhos, em prazer. É fazer daquilo que gostamos o sucesso e não do sucesso aquilo que gostamos.
Às vezes não nos entendem, tem gente que fala que somos forró de salto alto, outros criticam nossas apostas em bandas com arranjos mais sofisticados e instrumentos menos tradicionais no forró, outros falam que só damos chance a velhos e só aos tradicionais, outros a jovens, outros falam qualquer coisa, mas no geral o Canto da Ema é uma casa que gosta e faz forró, e sente a responsabilidade de alegrar os forrozeiros roxos, mas também de abrir as portas desse esquecido mundo àqueles que nunca nem sequer pensaram em vir a um forró. Queremos manter a história sem esquecer o presente e ajudar a semear o futuro, sem preconceitos, mas com conceitos definidos, às vezes difíceis de explicar, mas que são bem claros para nós e parece que de alguma forma o público entende, pois já faz 10 anos que existimos com bom sucesso, e sobretudo felizes por conseguir viver de um sonho: fazer forró
Paulinho Rosa  (Set/2010)