Um Ano sem Michael Jackson!
Todas as homenagens são mais que merecidas, o rei do pop, o homem que chacoalhou os costumes de toda uma geração, que influenciou o mundo todo, que nos ensinou a andar para trás, usar luvas e dançar, dançar e dançar até não poder mais, tem credenciais mais do que suficientes para isso.
No Brasil não foram poupados esforços para lembrá-lo, quase todas as emissoras, principalmente a mandatária do país, reservou gigantescos espaços na sua prestigiadíssima e caríssima programação. Isso sem contar as revistas semanais, mensais, anuais e etc.
Michael Jackson foi ícone da geração, referência da música e gênio. Dançava como poucos, cantava como muito poucos e compunha com a grandiosidade dos maiores. Na mesma quantidade e visibilidade colecionava escândalos, extravagâncias e estranhezas: mudou de cor, casou-se e descasou-se, teve filhos, teve problemas financeiros, familiares e policiais, teve, enfim, uma vida agitada e deve, portanto, ter a visibilidade que teve. Nada contra! Mas efetivamente, qual a real importância do rei do pop na nossa cultura? Na MPB, quem ele realmente influenciou e que claramente aparece com qualidade e expressão na música?
Aqui no Brasil, terra tupiniquim com o já conhecido complexo de vira-lata que temos, continuamos só dando valor às coisas que vêm de fora, principalmente da casa do senhor do engenho, enquanto nós da senzala ficamos a deriva.
O que quero dizer é que inúmeros fantásticos artistas brasileiros se foram e pouquíssimas homenagens da magnitude que vimos no aniversário de morte de Michael Jackson conseguimos ver por aqui.
Já que estamos falando de Jackson que tal começar a exemplificar o que tento dizer com um famoso homônimo só que de Alagoa Grande, Paraíba: Jackson também, mas não Michael e sim do Pandeiro.
Ele não apareceu pro mundo e tão pouco influenciou uma geração com luvas brancas, danças ou escândalos, mas criou uma série de súditos fantásticos aqui no país, apenas no que se propôs a fazer: música! E que música! Craque no pandeiro, no gogó e na ginga. O Rei do Ritmo é diretamente responsável pela formação de inúmeros ícones de nossa música como Alceu Valença e Lenine. Jackson ganhou carnavais no Rio de Janeiro, admiradores, fãs, mas não conseguiu programas de televisão grandiosos como os de seu homônimo americano.
O que falar então de Luiz Gonzaga? O rei do Baião dominou as rádios do país na década de 50, abriu as portas da cultura para toda uma região até então esquecida e vilipendiada. Interferiu nos costumes do país, criou e modelou diversos ritmos hoje tão importantes e presentes na nossa música, criou clássicos eternos e um matulão de ensinamentos, discípulos e obras, mas não ganhou um programa com a duração e cuidado como a que o artista ianque recebeu.
Pra não ficar apenas no forró e me acusarem de bairrista ou corporativista, posso lembrar de Tom Jobim, amado e idolatrado até pelos patrícios de Michael. Tom, carioca nato e brasileiro até no nome, exportou um pouco de Brasil para o mundo todo. Aqui, teve pouca repercussão no ano seguinte a da sua morte.
Temos exemplos até no ritmo americano. Lembro-me que quando Raul Seixas morreu o público impediu a saída de seu corpo do velório até que chegasse um carro do corpo de bombeiros, pois pela mídia e autoridades o enterro passaria desapercebido. Que diria o aniversário de um ano de sua morte.
São inúmeros os exemplos, poderia ficar aqui citando vários e vários como Vinícius de Moraes, Pixinguinha, Cartola, João do Vale, Marinês, Elis Regina, etc., etc. e etc.
Não acho que Michael Jackson não mereça, pelo contrário, por tudo o que disse no início do texto acho que merece e muito, mas acho que a mídia em geral poderia prestar mais atenção no próprio umbigo e não ficar apenas olhando pro umbigo do outro. A gente tem uma Ferrari nas mãos e morrendo de inveja do Rolls Royce do vizinho.
Lembremos de Michael, mas temos que recordar com a mesma ou ainda maior intensidade de quem realmente fez e faz a nossa cultura. Os que fizeram precisam ser lembrados e os que estão vivos mais ainda, pois receber homenagens em vida é muito melhor e mais aproveitável, ao menos para o homenageado.
No caso do forró a reclamação é antiga e aqui, neste espaço já está até ficando cansativa. Forró e mídia às vezes parecem antagônicos, quase como um caso sem solução. A gente namora, se apaixona e corteja a mídia e ela nem nos dá bola. Não interessa se o Canto da Ema tem 10 anos e está quase sempre com bom público de quarta a domingo e que aqui tocam grandes artistas, eles nem querem saber.
Coisas do Brasil, coisas de uma mentalidade pequena e subalterna, que não percebem que mais do que a dimensão de continente temos terra, belezas, pessoas e principalmente um talento para cultura com uma diversidade com qualidade incomparável, mas, mesmo com tudo isso, continuamos nos prostrando diante dos donos do mundo, mesmo reconhecendo que muitas das coisas que nos enviam são excelentes.
Continuando assim, já imagino como será a abertura da copa do mundo em nosso país: shows com Shakiras e Madonnas... Forró??? Esquece! Nem pensar.
Volto a dizer, nada contra os ritmos gringos, muito menos contra Michael, sempre adorei "Beat It" e "Billie Jean", só acho que nossos ícones merecem tantas ou mais homenagens.

Em tempo: Jackson do Pandeiro faleceu em 10/07/1982 e Luiz Gonzaga 02/08/1989
Paulinho Rosa  (Jul/2010)