Por que Tantas Mudanças em Bandas e Trios
Mês passado tivemos a terrível notícia da separação do Trio Dona Zefa. O sanfoneiro Marcelo, irmão de Murilo e Danilo, zabumbeiro e triangleiro respectivamente, estavam deixando o trio que mais faz shows atualmente. Foi uma péssima novidade e trouxe imediatamente lembranças tristes. Já perdemos o Forroçacana, maior sucesso da história recente do forró no sudeste e a única unanimidade no meio. Perdemos o O Bando de Maria que embora não contentava a todos tinha uma verdadeira legião de fãs ardorosos (eu inclusive). Recentemente também ficamos sem o Trio Araripe, respeitado por quase todos, amados por muitos e referência em categoria e musicalidade para quase todos os forrozeiros.
Não podemos esquecer das constantes mudanças em que passaram diversos e diversos trios como: Os Alegres do Nordeste, Trio Cristalino, Trio Xamego, Os Sociais do Forró (antes Forró MangSeco), Trio Classe A, Trio Jerimum, Trio Potiguá, Trio Forrozão, Meketrefe, Os 4 Mensageiros, Forrobodó e por aí vai. Como se vê, os exemplos não são poucos. Quando isso acontece perdemos um pouco da relação com o trio, algo se quebra ou alguma coisa terá que ser reconquistada.
Será que o querido Trio Dona Zefa superará a perda de um integrante? Trios são pequenos conjuntos e a perda de apenas um faz muita diferença, Marcelo era o sanfoneiro do Trio, responsável pela a harmonia e melodia da música. Sanfona, como já disse em um editorial anterior ("Sanfona, a Alma do Forró" de 2003), é a alma do forró, portanto o Trio perdeu na sua musicalidade a sua alma ou algo perto disso. Claro que pode se renovar, claro que pode reaver a sua sonoridade e é claro que todas as pessoas são substituíveis, mas mesmo que o Trio melhore e que o sanfoneiro seja melhor, ainda assim será diferente daquele que aprendemos a gostar.
Não deve ser fácil viver em banda de música, se nem casamento o é, que dirá músicos que normalmente nem tem uma parte muito atraente que os casais costumam ter e, no caso do Dona Zefa, tem um agravante, picuinhas herdadas de anos e anos de convivência. Sabe aquela história de seu irmão te atazanar a vida inteira e vice-versa, e depois de grande vocês passarem 15 horas viajando em carro apertado, estrada ruim e chovendo? Quantas e quantas vezes irmãos não passaram a se dar melhor depois que se separaram das casas dos pais, cada um tomando seu rumo e entrando na vida por conta própria? Quando isso acontece normalmente os irmão renovam suas afeições perdidas por anos e anos de "convivência obrigatória".
Mas e os demais trios e bandas? Para eles a convivência diária se mostra nefasta para seus cotidianos e destroem lentamente o que poderia ser uma vida sossegada. Mais uma vez a similaridade com relacionamentos afetivos de casais está presente, pois namoramos diversas vezes antes de um possível enlace matrimonial, e mesmo quando este acontece invariavelmente acabamos em um divórcio ou desquite.
Pessimista? Não, apenas realista diante das estatísticas. E por que seria diferente com músicos que tem que concordar na linha musical a ser adotada, nos arranjos, na seleção de repertório, figurino, e etc.? Mas tudo isso é o profissional da história, se pensarmos que ainda tem que dividir quartos, concordar com horário de ir embora ou voltar dos lugares, viajar horas e horas juntos, carregar instrumentos (pobre sanfoneiro), tomar calotes e muitas vezes não terem nem o que comer, beber e onde ficar nos shows. Com tudo isso é possível verificar o quanto fica comprometida uma sonhada harmonia.
Aqui no Canto da Ema, nos bastidores, quantas e quantas brigas e discussões de diferentes bandas e trios já presenciamos e que o público nem faz idéia. Na frente do palco todas as bandas e trios aparecem sorrindo e cantando e mostrando sua arte, seja por responsabilidade profissional, vaidade pessoal ou mesmo apenas por questões financeiras. Quando não estão se dando bem isso em algum momento passa para o público, pois reflete diretamente no show. Basta ver algumas bandas e trios que são muito animados no palco e que brincam e se divertem entre eles, isso acaba contagiando a todos: no palco, no público e até na música.
Sei que é difícil imaginar tantas e tantas questões que envolvem artistas que normalmente só conseguimos enxergar o glamour, mas eles são de carne e osso assim como todos nós. Cada integrante tem sua maneira de ser, um gênio e vaidade bem diferentes do que a poesia das respectivas obras às vezes contam, e isso não é uma crítica , mas uma constatação para o bem. Que bom que são pessoas e, muitas vezes muito legais, mas imperfeitos como todos nós que não sabemos cantar ou tocar algo. Mais uma vez que bom pra eles, deve ser horrível ter que ser sempre correto e perfeito.
Alguns trios e bandas que estão por aí há anos também já sofreram alterações até chegarem nas formações que no momento parecem definitivas (tomara!). O Trio Sabiá teve diversas formações sendo que o único que existe desde o início é o Tio Joca, o sanfoneiro, mas com a que está agora já dura perto de 20 anos. O Bicho de Pé também já passou por algumas mudanças, mas tem o mesmo time há muito tempo assim como outras tantas.
Para nós que gostamos dos trios e bandas o melhor é que haja continuidade, desde que essa continuidade seja sadia, pois como disse acima o resultado do show também depende disso.
Temos que torcer para que seja apenas uma fase e que o Dona Zefa encontre seu caminho definitivo ou pelo menos por muito tempo. Esperamos que o Marcelo, hoje ex-sanfoneiro do trio consiga o mesmo e de preferência na música.
Afinal, o show tem que continuar!
Paulinho Rosa  (Mai/2010)