Sobre Cachês, Dignidade, Estrutura e Xing Ling
Músico deve se levar a sério, valorizar a sua profissão e cuidar para que ela seja sempre demonstrada com a qualidade que merece e que ele, músico, seja tratado com dignidade!
Parece estranho, mas raramente, aqui no Canto da Ema, combinamos cachês. Na grande maioria dos casos, trabalhamos sobre expectativas de público e daí pagamos conforme a resposta deste. É claro que existe um mínimo, mesmo que não declarado ou combinado; não vamos pagar nunca algo muito distante de uma realidade que trabalhamos e que as pessoas já conhecem e aceitam por saber que costuma ser até um pouco acima do mercado. Mas o máximo é indefinido e aumentamos conforme o público, o dia e tudo mais.
Tem dias mais fáceis de trabalhar, como sábado e domingo; as sextas quase sempre são boas; as quintas variam e as quartas são sempre as que mais sofrem por serem o meio de semana e por brigar diretamente com futebol.
Mas não é só cachê que conta ou deveria contar. A estrutura posta a favor e a serviço de quem vem tocar também é importante, pois uma boa apresentação, a venda do produto, no caso música, também requer um bom cuidado.
Já pensou se coincide aparecer um importante personagem da indústria fonográfica ou de mídia justamente no dia em que você toca, e nesse dia o som do PA (caixas de som para público) ou dos retornos (caixas de som para os músicos) estão ruins e a banda não consegue desenvolver direito o seu trabalho? Neste caso, pode ficar definitivamente enterrada a chance com este possível messias que apareceu e que, provavelmente, não voltará.
Mas este exemplo do som é apenas uma das possibilidades de atrapalhar uma banda, outros exemplos também são válidos como: cansaço, fome, cordialidade, chuveiro etc. Nós, no Canto da Ema, além de nos preocuparmos com o cachê, importantíssimo, procuramos dar a melhor qualidade possível de estrutura para que cada forró seja um acontecimento único.
Caprichamos no equipamento de som, com caixas de marcas ótimas, sempre em manutenção e todo o equipamento complementar como cabos, microfones, amplificadores, mesa de som e principalmente técnico de som de primeira qualidade, para que não aja qualquer tipo de perda na capacidade dos talentos que trazemos para tocar.
Cuidamos do espaço para receber músicos, com camarim adequado, com televisão e sofás confortáveis, banheiros limpos, separados do público e com chuveiros, toalhas e sabonete para aqueles que quiserem tomar banho antes ou depois da apresentação.
Oferecemos comida que pode ser jantar ou mesmo uma porção do Canto da Ema Canto ou do Bar do Canto, com bebidas e com água a vontade.
Ainda, no quesito receber, colocamos o estacionamento terceirizado à disposição dos músicos, e ainda, caso necessário, a estrutura de escritório para escrever ou imprimir roteiro de shows e wifi, seja para o que for.
O Canto da Ema ainda dispõe de instrumentos próprios, para caso de quebra ou necessidade de algum extra. Já temos sanfona, zabumba, triângulo, pandeiro, cavaco e agogo.
Tudo isso, esse pacote de comodidades, deve ou deveria servir de exemplo e parâmetro para os músicos, pois muitas vezes eles aceitam cachês menores sem ter o aparato que lhes proporcionamos, seduzidos pelo velho discurso de fazer o "forró crescer".
O que acontece é que essa concorrência que paga menos, pondo à disposição uma estrutura menor, acaba tirando público dos que pagam melhor e proporcionam as boas condições para os shows. O grande problema é que pagar melhor e dar uma melhor estrutura custa e, se não pudermos pagar em algum momento, fecharemos e ai as bandas ficarão com as estruturas piores e os cachês menores.
É lógico que ninguém deve parar de tocar nos outros locais. O que o Forró precisa mesmo é de muitos lugares para tocar, mas seria sempre conveniente, para os músicos em geral, valorizar o próprio trabalho, valorizar a sua profissão exigindo dos contratantes as condições que julgam necessárias para apresentar um bom trabalho. Pode não parecer, mas o real crescimento do ritmo passa por isso. Imagine que algum amigo de alguém, que já gosta de forró, vai pela primeira vez ao forró ver uma banda amplamente elogiada e, quando chega, o som apita toda hora ou a qualidade é ruim e o que se ouve é algo sem grave ou agudo ou ainda, músicos cansados e sem o estímulo necessário. Este será certamente um possível futuro "forrozeiro" perdido.
Por outro lado, acho estranhíssimo o preço dos forrós. Fazer um Forró quase de graça, ou mesmo de graça, é algo que de alguma forma não funciona. A conta não fecha. Colocar bons músicos custa dinheiro, ou, como disse acima, deveria custar. Colocar uma estrutura decente e que permita que o músico faça o seu trabalho custa; sua paixão também custa e vale o mesmo pensamento acima. Colocar bons funcionários com atendimento decente pagando-os conforme a lei e, às vezes, até acima do que a lei pede, também requer dinheiro. Por fim, ter som de qualidade, estar em um local de acesso bom, bem cuidado, limpo e com manutenção sempre em dia é um gasto grande, por isso não cobrar ou cobrar pouco é sinal que alguma ou algumas dessas coisas mencionadas não funcionam e aí quem sofre é o forró, o público e os músicos.
Às vezes pode-se apenas copiar as ideias, festas e projetos alheios apenas mudando os nomes. Isso sai barato, mas é como produto "Xing ling", cópia barata que às vezes sai caro e, nesse caso, todos perdem.

Que me desculpem os que gostam de ver o forró feio, sujo e mal cuidado, mas aqui no Canto da Ema, queremos ser simples, mas com todas as condições para monstar o Forró como ele merece ser apresentado.
Paulinho Rosa  (Dez/2013)